Depois da rebelião
Como o Brasil se fechou na polarização
I. Da rebelião à captura: quando o bolsonarismo transforma crise em método de governo
Se a leitura proposta por Idelber Avelar permite compreender o bolsonarismo como uma “rebelião do eles”, isto é, como a irrupção de uma série de antagonismos difusos que não encontraram canal de expressão no sistema político brasileiro ao longo da década anterior, o que se impõe como questão central a partir de 2018 não é mais a origem desse fenômeno, mas a forma como ele se reorganiza ao assumir o poder, isto é, como uma energia originalmente fragmentada, heterogênea e muitas vezes contraditória em si mesma tenta se traduzir em governo, em política pública, em coordenação institucional, e é exatamente nesse deslocamento — da insurgência para a operação — que se revela uma das principais tensões do período.
No início do governo Bolsonaro, havia um ambiente relativamente aberto do ponto de vista institucional, marcado por uma composição legislativa que permitiria, ao menos em tese, a aprovação de reformas estruturais — como de fato ocorreu parcialmente no caso da reforma da previdência em 2019 — e por uma expectativa difusa, especialmente em setores do mercado e da classe média, de que o governo pudesse, em alguma medida, reorganizar a economia, reduzir distorções fiscais e introduzir uma agenda liberal em determinadas frentes, ainda que essa expectativa convivesse com sinais claros de instabilidade política desde o início do mandato.
No entanto, ao invés de consolidar uma lógica de governabilidade baseada em articulação institucional e construção de maioria, o governo rapidamente passa a operar dentro de uma lógica distinta, na qual a mobilização permanente se sobrepõe à coordenação política, e na qual a produção contínua de conflito se torna não apenas um efeito colateral, mas um elemento central da própria estratégia de poder, algo que se manifesta, por exemplo, nas sucessivas crises com o Congresso Nacional — incluindo a retórica contra o chamado “centrão”, seguida posteriormente de sua incorporação pragmática —, nas tensões constantes com o Supremo Tribunal Federal, e na forma como temas sensíveis são frequentemente tratados como instrumentos de mobilização e não como problemas a serem resolvidos.
Essa lógica se intensifica com o uso sistemático das redes sociais como principal canal de comunicação política, não apenas como ferramenta de divulgação, mas como mecanismo de construção de realidade, no qual eventos são enquadrados, narrativas são simplificadas e antagonismos são amplificados em tempo real, em um padrão que dialoga diretamente com experiências internacionais como o trumpismo, inclusive no uso de estratégias de desintermediação, deslegitimação da imprensa e mobilização de base a partir de pautas nacionalistas e religiosas.
No caso brasileiro, no entanto, essa dinâmica encontra um ambiente particularmente sensível, porque se insere em um sistema que já vinha sendo tensionado por anos de crise institucional e de perda de confiança nas instituições, o que faz com que a radicalização não apenas produza ruído político, mas contribua para a erosão de mecanismos básicos de coordenação social.
Esse processo atinge um ponto crítico durante a pandemia de Covid-19, quando a lógica de antagonismo passa a interferir diretamente na gestão de uma crise sanitária de escala global, levando a conflitos entre o governo federal, estados e municípios, à politização de medidas de saúde pública como uso de máscaras e vacinação, e à disseminação de discursos negacionistas que, segundo investigações posteriores e relatórios parlamentares como o da CPI da Covid, tiveram impacto direto na condução da crise e, potencialmente, no número de vítimas.
Esse momento é particularmente relevante porque revela, de forma incontornável, os limites de um modelo de governo baseado na mobilização contínua do conflito, mostrando que a lógica que sustenta uma campanha eleitoral pode ser profundamente disfuncional quando aplicada à gestão de problemas complexos que exigem coordenação, confiança institucional e cooperação.
II. A consolidação do circuito: como a polarização passa a se reproduzir por necessidade estrutural
À medida que o governo Bolsonaro avança, o que se torna progressivamente mais evidente é que a polarização deixa de ser apenas um fenômeno eleitoral ou discursivo e passa a se estruturar como um mecanismo de funcionamento do sistema político, no qual diferentes polos não apenas se enfrentam, mas se reforçam mutuamente, criando uma dinâmica de retroalimentação que torna cada vez mais difícil a emergência de alternativas fora desse circuito.
Esse processo pode ser observado de forma particularmente clara na rearticulação do campo político oposto, especialmente no que diz respeito ao lulopetismo, que, após um período de retração marcado pela prisão de Lula em 2018 e pelo impacto da Lava Jato, volta progressivamente ao centro da disputa política, não apenas por sua própria capacidade de reorganização, mas também como efeito direto da radicalização do bolsonarismo, que cria as condições para sua revalorização como contraponto.
A anulação das condenações de Lula pelo Supremo Tribunal Federal em 2021, baseada em decisões relacionadas à competência da Vara de Curitiba e à parcialidade do então juiz Sergio Moro, marca um ponto de inflexão nesse processo, não apenas por seus efeitos jurídicos imediatos, mas por suas consequências políticas, ao permitir o retorno de Lula ao cenário eleitoral e reconfigurar completamente o campo da disputa para 2022.
Esse movimento ocorre em paralelo ao enfraquecimento progressivo da Lava Jato, que, após anos de protagonismo, passa a enfrentar questionamentos crescentes sobre seus métodos, suas decisões e sua atuação política, culminando em decisões judiciais que anulam diversas condenações e reduzem significativamente seu alcance, o que, por sua vez, contribui para uma reconfiguração da percepção pública sobre o processo.
No plano político, a tentativa de construção de uma alternativa de centro para a eleição de 2022 — envolvendo nomes como João Doria e Simone Tebet — enfrenta dificuldades significativas de articulação, financiamento e mobilização, sendo progressivamente comprimida pela dinâmica polarizada que se consolida ao longo do processo eleitoral, resultando em uma disputa final que reproduz, de forma quase perfeita, o modelo de rejeição cruzada que havia se formado nos anos anteriores.
O segundo turno de 2022, com uma diferença de votos relativamente estreita e um nível elevado de tensão institucional — incluindo questionamentos sobre o sistema eleitoral, mobilizações de base e episódios de violência política — representa, nesse sentido, não uma ruptura com o ciclo anterior, mas sua consolidação em um estágio mais avançado.
III. O medo como motor invisível: quando instituições e sociedade atravessam seus próprios limites
Embora seja possível mapear esse processo a partir das decisões de atores políticos, dos movimentos institucionais e das estratégias de poder, há um elemento transversal que, se não for devidamente compreendido, tende a distorcer qualquer análise mais profunda do período: o papel do medo como vetor estruturante não apenas do comportamento social, mas também da atuação institucional, inclusive de agentes que, em tese, deveriam operar a partir de uma lógica de neutralidade e contenção.
Esse medo não é uniforme, tampouco se manifesta de maneira linear, mas ele se organiza como um mecanismo de redução de complexidade que atravessa diferentes camadas da sociedade e do Estado, levando indivíduos, grupos e instituições a operarem fora de seus próprios limites na tentativa de responder a ameaças percebidas, sejam elas reais, exageradas ou mesmo imaginadas, e é precisamente nesse deslocamento que o sistema começa a perder sua capacidade de diferenciação funcional — isto é, a capacidade de cada esfera operar dentro do seu próprio papel.
No plano social, esse medo se expressa de forma relativamente clara: para uma parte da população, ele se organiza em torno da percepção de colapso da ordem — insegurança, corrupção, perda de valores, instabilidade econômica — o que leva à adesão a discursos que prometem ruptura, autoridade e simplificação do mundo; para outra parte, ele se estrutura em torno da percepção de ameaça institucional — risco democrático, autoritarismo, retrocesso de direitos — o que leva à defesa ativa de instituições e, em alguns casos, à tolerância com movimentos de exceção em nome da preservação do sistema.
O problema, no entanto, é que esse medo não se limita à sociedade.
Ele atravessa as instituições.
E talvez seja justamente aí que a análise precise ganhar mais sofisticação.
Assim como a Lava Jato, em seu momento inicial, operou dentro de uma lógica legítima de enfrentamento a estruturas de corrupção, mas acabou, em determinado momento, ultrapassando seus próprios limites institucionais ao incorporar elementos políticos e midiáticos que distorceram sua função original, algo semelhante pode ser observado em outros momentos recentes da história brasileira, em que instituições que deveriam operar como âncoras de estabilidade passam a agir como agentes ativos dentro da dinâmica de conflito.
O caso do Supremo Tribunal Federal é particularmente ilustrativo nesse sentido.
Em um primeiro momento, sua atuação pode ser compreendida como uma resposta a riscos percebidos de ruptura institucional, especialmente no contexto de tensão crescente entre poderes e de ameaças explícitas ao funcionamento do sistema democrático, mas, à medida que esse processo avança, o que se observa é uma progressiva ampliação do seu papel, que deixa de ser apenas de contenção e passa a se aproximar de uma atuação política direta, seja na forma de decisões que interferem no jogo político, seja na construção de narrativas que reforçam determinados enquadramentos da realidade.
Esse movimento não ocorre no vazio, nem pode ser explicado apenas por intenção deliberada de poder, mas parece estar profundamente relacionado a esse ambiente de medo, no qual agentes institucionais passam a operar não apenas a partir de sua função original, mas a partir de uma percepção de necessidade de intervenção, o que, no limite, leva à ruptura de fronteiras que deveriam ser preservadas.
E esse padrão não é exclusivo do judiciário.
Ele pode ser observado, em outro momento, na relação de setores das Forças Armadas com o governo Bolsonaro, quando militares da ativa ou recém-saídos de posições institucionais passam a ocupar funções políticas ou a se posicionar de forma que tensiona a expectativa de neutralidade da instituição, revelando um fenômeno mais amplo: quando o sistema entra em crise, seus próprios mecanismos de equilíbrio começam a falhar, e aqueles que deveriam garantir estabilidade passam a agir como parte do conflito.
O resultado desse processo é uma deterioração progressiva da credibilidade institucional, não apenas porque decisões são questionadas, mas porque a percepção de imparcialidade — que é um dos pilares da confiança em instituições democráticas — passa a ser corroída, criando um ambiente em que cada ação é reinterpretada dentro da lógica do “nós contra eles”, independentemente de sua intenção original.
IV. O presente como intensificação: quando o antagonismo se torna estratégia deliberada
Se o período anterior pode ser descrito como a consolidação de um circuito de polarização, o momento mais recente representa sua intensificação em um nível mais sofisticado, no qual o antagonismo deixa de ser apenas consequência estrutural e passa a ser utilizado de forma deliberada como estratégia de manutenção de poder.
O governo Lula 3 se insere nesse ambiente não como ruptura com essa lógica, mas como continuidade dentro de outra forma de operação, na qual o antagonismo permanece como elemento central, ainda que com linguagem e instrumentos distintos, o que se manifesta tanto no plano interno quanto no plano externo.
Internamente, observa-se a recorrência de um discurso que busca constantemente identificar ameaças à democracia — muitas vezes organizadas em torno da ideia de um “golpe continuado” ou de uma tentativa permanente de ruptura — o que, embora tenha raízes em eventos reais, passa a operar também como instrumento de mobilização política, mantendo ativa a lógica de conflito e reforçando a necessidade de um inimigo interno para sustentar a coesão do campo.
Externamente, essa lógica se desdobra em posicionamentos que reforçam a ideia de blocos e antagonismos geopolíticos, seja na forma de alinhamentos seletivos com países e regimes que se colocam em oposição a democracias liberais tradicionais, seja na forma como conflitos internacionais são interpretados e narrados, frequentemente a partir de uma lógica de contraposição e não de mediação.
Essas escolhas não são neutras.
Elas fazem parte de uma estratégia mais ampla de organização do campo político, na qual a existência de um antagonista — interno ou externo — é fundamental para a manutenção da identidade e da mobilização.
E é justamente nesse ponto que se revela um aspecto central da dinâmica atual: a polarização não é apenas um acidente do sistema.
Ela é, em muitos casos, uma escolha.
Uma escolha racional dentro de um sistema que recompensa a simplificação, a mobilização e o conflito, e que penaliza a complexidade, a mediação e a construção.
Nesse sentido, a ideia de uma “frente ampla” que emerge no contexto eleitoral de 2022 pode ser vista menos como uma superação da polarização e mais como uma reconfiguração tática dentro dela, na medida em que, ao se estruturar em torno da oposição a um polo específico, ela mantém ativa a lógica binária que sustenta o sistema, ainda que com outra roupagem.
Conclusão — O erro que persiste: quando a lente errada reforça o fenômeno que tenta explicar
O que emerge com mais clareza a partir desse percurso é que o Brasil não apenas entrou em um ciclo de polarização, mas continua operando dentro dele por uma razão mais profunda: a incapacidade de reconhecer que as ferramentas analíticas utilizadas para interpretar o fenômeno são, em grande medida, as mesmas que contribuíram para produzi-lo.
Intelectuais, analistas políticos, jornalistas, institutos de pesquisa e a própria sociedade, de forma mais ampla, continuam operando a partir de categorias que já não dão conta da realidade, insistindo em enquadrar fenômenos complexos dentro de dicotomias simplificadoras, em interpretar movimentos estruturais como eventos pontuais e em buscar soluções dentro de um sistema que já demonstrou seus limites.
Esse desalinhamento entre realidade e interpretação produz um efeito particularmente perverso: ao tentar explicar o fenômeno com a lente errada, reforça-se o próprio fenômeno, criando um ciclo no qual surpresa, indignação e reação se repetem sem que haja aprendizado estrutural.
Não se trata apenas de oportunismo político, embora ele exista.
Não se trata apenas de estratégia de poder, embora ela seja evidente.
Trata-se de um problema mais profundo, que envolve medo, linguagem, cultura política e incapacidade coletiva de reconhecer que o mundo mudou — e que, portanto, as formas de pensar e operar a política precisam mudar junto com ele.
Enquanto essa mudança não acontecer, o sistema tende a se manter.
E talvez essa seja a questão mais incômoda — e mais urgente — que se coloca a partir daqui:
Não se trata mais de entender o que aconteceu.
Trata-se de entender por que, mesmo entendendo, continuamos fazendo a mesma coisa.
E o que seria necessário, de fato, para parar.




