Direito de expressar desejo
Antes da imposição da cultura patriarcal, as sociedades matrísticas viviam o sexo e o corpo como aspectos naturais da vida, não como fontes de vergonha ou obscenidade.
Depois, ao manifestar fantasias, as coisas não costumavam acabar bem para as mulheres: elas morriam ou viravam rainhas loucas.
O texto de Deborah Linton, As mulheres querem experimentar prazer (The Guardian, 19/04/2026), apresenta a mulher como consciência que observa, deseja, hesita, sofre, fantasia e escolhe.
Elas não querem apenas ser vistas. Querem sentir, desejar e narrar a si mesmas. Em vez do corpo oferecido apenas à contemplação alheia, entram em cena a experiência íntima, a ambiguidade emocional, o prazer sem culpa, suas amizades, a sexualidade não domesticadas e a vida interior em toda a sua desordem.
Esse movimento aparece em séries, no cinema autoral e nos produtos mais populares da indústria cultural. Obras como Dying for Sex, Girls, Fleabag, I May Destroy You e Bridgerton mostram que há um apetite por histórias em que as mulheres apresentem suas faces completas. Mesmo quando o mercado transforma essa sensibilidade em produto, ele acaba revelando uma demanda represada por histórias em que o universo seja mais real.
O ensaio também insinua que a conquista segue sob júdice. O mercado acolhe o olhar feminino enquanto ele rende audiência, lucro e prestígio, mas isso não significa que a transformação esteja consolidada.
Muitas histórias ainda seguem difíceis de financiar, distribuir e legitimar, sobretudo quando escapam dos modelos mais vendáveis ou quando tornam visíveis experiências menos confortáveis, mais marginais ou menos normativas.
Fica a pergunta se essa perspectiva conseguirá permanecer sem ser reduzida a nicho, moda ou cálculo comercial. Isso exige a consolidação de uma nova matriz ética e de convivência que o mercado, por si só, é incapaz de garantir.
Poderia a nossa cultura ser capaz de admitir, de maneira permanente, que o prazer, o desejo, a dor e a inteligência de homens e mulheres constituam ambos, o cerne da experiência humana?




