Dois erros crassos de Trump no Irã
Desesperado para encontrar uma saída da arapuca em que se meteu, Trump quer forçar um cessar fogo mentindo descaramente nas mídias sociais:
"Estamos chegando num acordo"
"Os iranianos estão loucos para aceitar as nossas condições"
“O Irã já concordou com tudo”
"O regime do Irã mudou e agora é muito melhor do que o de Khamenei"
“O Irã vai desbloquear o estreito de Ormuz em algumas horas”
Tudo falso. E não haverá cessar-fogo duradouro, não haverá armistício, não haverá paz no Oriente Médio na base desse tipo de retórica vigarista de negociador imobiliário de quinta categoria. Sua intervenção só piorou a situação.
Agora Trump quer anunciar qualquer cessar-fogo para lá de precário para dizer que a ação dos EUA está concluída, que atingiu seus objetivos etc. Na verdade é o contrário. O Irã passou a ser uma potência regional muito mais forte e mais temida. Vejamos:
O Irã continua (e continuará) controlando o estreito de Ormuz e chantageando os demais países.
O Irã não entregou o urânio enriquecido e não parou seu programa nuclear (com fins bélicos).
O Irã não interrompeu a fabricação industrial, em várias cidades subterrâneas, de drones e mísseis (inclusive de longo alcance).
O Irã não abriu mão de financiar, treinar a coordenar cerca de vinte organizações terroristas (Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica, Houthis, milícias xiitas no Iraque e na Síria etc.) que almejam aniquilar Israel e causar prejuízos ao países aliados dos EUA na região.
E, pior do que tudo isso, o Irã escalará a sua netwar nas sociedades de todos os países em claro ataque às democracias liberais.
Trump errou, do ponto de vista democrático, quando decidiu atacar militarmente o Irã. E errou, do ponto de vista militar (que, neste caso, é autocrático), quando não concluiu o trabalho. Israel é outra coisa. Há uma guerra do Irã contra Israel, que praticamente não parou desde a revolução islâmica de 1979.
Vamos tentar explicar.
Do ponto de vista da democracia a solução militar é sempre inadequada (a menos quando um país é invadido por forças beligerantes estrangeiras). A democracia não é guerra e sim evitar a guerra.
Mas está errada a avaliação dos analistas de política internacional de que a solução militar dos EUA e Israel contra a guerra que o Irã promove desde a revolução islâmica seria necessariamente mal-sucedida do ponto de vista estritamente militar. Foi mal-sucedida porque o trabalho não foi concluído.
Nas circunstâncias atuais, para neutralizar o Irã, em termos militares, seria necessário, se pudesse (e devesse) ser feito: 1 - Avariar e em alguns casos destruir as principais estradas, pontes, portos e aeroportos. 2 - Destruir as 10 refinarias de petróleo (Abadan, Isfahan, Tehran, Bandar Abbas, Arak, Tabriz, Shiraz, Lavan, Kermanshah, Persian Gulf Star). 3 - Destruir as 400 usinas de energia (térmicas, hidreléticas, nuclear e renováveis). 4 - Destruir parte considerável dos cerca de 5 mil poços de extração de petróleo e gás.
Não estou dizendo que isso deveria ser feito. Do ponto de vista da democracia, não deveria. Inclusive porque causaria uma catástrofe humanitária e geraria dezenas de milhões de refugiados num país de quase 100 milhões de habitantes. Além disso, desencadearia uma onda mundial de terrorismo. O IRGC poderia virar uma espécie de Estado Islâmico Xiita (e com o apoio, aqui e ali, de vertentes sunitas do jihadismo ofensivo islâmico) levando o terrorismo a todo o ocidente.
Mas os realistas políticos, que não são democratas, não estão nem aí para isso e então querem usar argumentos democráticos (como o respeito ao direito internacional e aos direitos humanos) para condenar EUA e Israel e como cobertura para sua falta de compreensão do que realmente ocorre no Irã.
O que ocorre no Irã sob o domínio tenebroso do Corpo da Guarda da Revolução Islâmica é exatamente o que esse regime vem desejando há quase meio século. É a consumação para a qual vem se preparando há quase meio século. Não há paz possível porque o Irã - este Irã do IRGC - é a guerra.
Se o IRGC não for dissolvido, não há solução.



