E a ditadura venezuelana? Por enquanto vai bem, obrigado
Trump gritou: "You're fired!". Em seguida sequestrou Maduro e sua esposa e levou-os para julgamento em Nova York. A ação midiática, própria de um apresentador de reality show de competição, como era o seu programa de TV The Apprentice, não foi um ataque à ditadura da Venezuela e sim um ato cometido contra o chefe de governo daquele regime. A ditadura militar da Venezuela continua onde sempre esteve: cassando direitos políticos, restringindo liberdades civis, cerceando a liberdade de imprensa, perseguindo, torturando e matando opositores e forçando milhões de famílias venezuelanas a deixarem o país.
Isso levanta algumas perguntas:
A julgar pela fala de Trump no memorável 3 de janeiro de 2026, a ação dos EUA na Venezuela não parece ter sido articulada com a fração majoritária da oposição venezuelana. Não tem como objetivo, portanto, devolver o governo aos legítimos vencedores das últimas eleições: Edmundo González e sua promotora Maria Corina. Por quê?
OK. Maduro e sua mulher foram capturados pelas forças militares especiais dos EUA e estão sendo levado para julgamento nos EUA. Todavia, existem outros líderes do governo venezuelano que não foram neutralizados, como Diosdado Cabello e Padrino Lopez. Quem os tirará do governo? Além disso, governo não é regime. Quem vai derrubar o regime ditatorial venezuelano (que conta com o apoio de mais de dois mil generais, força armada bolivariana com cerca de trezentos mil ativos, armamento e treinamento militar russo, iraniano e chinês, quinhentos mil efetivos da milícia nacional bolivariana, colectivos comandados por agentes cubanos etc)?
Trump declarou, na sua mesma fala no dia 3 de janeiro, que os EUA passarão a governar a Venezuela. Como é que Trump imagina que será possível governar a Venezuela a partir de Washington? Por telefone? Quem serão os operadores em solo venezuelano (quer dizer, quem será o governo de direito ou de fato)? Tropas americanas vão ocupar o território da Venezuela, como ocorreu no Iraque de Saddam Hussein (uma operação com desfecho desastroso)?
Não há respostas, por enquanto, para essas perguntas. E nem haverá.
Trump é a expressão de uma força destruidora da ordem internacional liberal e da ordem democrática nacional dos Estados Unidos. Não se espere dele nenhum projeto construtivo. Quando ele diz que vai ocupar Gaza e transformá-la num resort de luxo, ou quando anuncia que vai governar a Venezuela - sem ter a menor condição de fazer essas coisas - não se baseia em nenhum plano ou estratégia. Não há nenhum novo modelo de governança ou de regime político que os EUA pretendam instaurar e exportar. O que há é apenas a volta a um mundo brutal em que a força faz a lei e manda o mais forte. Aqui na Oceania (as Américas), mando eu. Na Eurásia, Putin. Na Lestásia, Xi Jinping. E estamos conversados.
Alega-se que Trump está operando uma mudança de regime (regime change) na Venezuela. Não parece ser verdade. Só existem, basicamente, dois tipos de regimes políticos: democracia e autocracia. A Venezuela é uma autocracia. Trump não parece querer transformá-la numa democracia. Se quisesse não teria descartado a oposição venezuelana como agente da transição, deslegitimando grosseiramente sua principal líder Maria Corina e ignorando Edmundo González, vencedor das últimas eleições (roubadas por Maduro). Se quisesse não estaria cogitando um governo de transição com Delcy Rodriguez, uma chavista-raiz (mais radical de esquerda do que o próprio Maduro). O que Trump quer, preferencialmente, é uma outra ditadura na Venezuela, que seja submissa aos interesses (econômicos e geopolíticos) norte-americanos.
Trump não defende a democracia na Venezuela e em nenhum país do mundo, inclusive nos Estados Unidos, porque ele não é um democrata. O trumpismo, objetivamente, faz parte de um movimento global contra as democracias liberais. Quando tenta desqualificar a União Europeia - inclusive apoiando força políticas autocráticas que atuam dentro dos países europeus - é porque sabe que a Europa é a região que concentra o maior número de democracias liberais do planeta. Também não sairão ilesas as democracias liberais asiáticas, como Coreia do Sul, Taiwan e Japão - que Trump pretende entregar à China.
Para agravar tudo isso, Donald Trump - ao que tudo indica - é um ativo (se não for um agente) russo. Seu conluio com Vladimir Putin deixa o mundo democrático vulnerável aos ataques do eixo autocrático na sua campanha de exterminação das democracias liberais. E Putin está na vanguarda dessa netwar. Ou melhor, estava. Agora está Trump.
As ditaduras do Irã, da Rússia e de Cuba foram as primeiras a condenar o ataque dos EUA ao chefe de governo da ditadura da Venezuela. Depois veio a China. Na sequência, provavelmente, vêm - se já não vieram - a Nicarágua, a Coreia do Norte, a Bielorrússia, a Índia, o Vietnam e outras autocracias asiáticas, Angola e outras autocracias africanas, o Hamas, o Hezbollah, os Houthis e outros grupos terroristas. Em suma, o eixo autocrático. A Venezuela faz parte do eixo autocrático.
Os democratas também condenamos o ataque dos EUA ao chefe de governo da Venezuela, mas por outros motivos, porque queremos uma Venezuela democrática, não por uma defesa cínica da soberania dos governos ditatoriais. Cínica, sim. Basta ver que esses países e grupos que se alinham ou vão se alinhar ao que restou da ditadura venezuelana, nunca apoiaram a defesa da Ucrânia contra a invasão do ditador Putin e não apoiam a soberania da democracia de Taiwan diante do cerco promovido por Xi Jinping visando sua anexão à China. Também é o caso dos regimes eleitorais (ainda considerados democracias, conquanto não liberais) parasitados por governos populistas de esquerda, como os México, da Colômbia e, infelizmente, do Brasil.
Entrementes… E a ditadura venezuelana? Por enquanto vai bem, obrigado.




Análise, como sempre, muito pertinente e abrangente expõe a dificuldade tremenda de se governar o que restou da Venezuela. Há ainda um componente adicional que pode fazer parte dessa equação, que é o interesse de Trump pelo bolsão de petróleo em solo venezuelano; o Laranjão só pensa naquiiilo!