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A crítica a Huntington tem seus méritos, mas vai longe demais quando afirma que ele simplesmente errou. É verdade que muitos acontecimentos desde o fim da Guerra Fria mostram que a ideologia continua sendo uma força poderosa. Taiwan, Hong Kong, Ucrânia, Japão e boa parte da própria sociedade iraniana são exemplos de que valores como liberdade política, autonomia, Estado de Direito e democracia liberal podem encontrar adesão em contextos culturais muito distintos. Nesse ponto, a crítica acerta ao recusar uma leitura determinista, segundo a qual cada civilização carregaria um destino político inevitável. A história mostra que povos com tradições religiosas, linguísticas e culturais diversas são capazes de escolher instituições liberais, resistir ao autoritarismo e se alinhar por afinidade política, e não apenas por identidade civilizacional.

Mas isso não basta para jogar Huntington fora. Sua tese não precisa ser lida como profecia: ele não estava dizendo que toda civilização sempre agirá como um bloco coeso e caminhará inevitavelmente para o conflito com as demais. O que ele percebeu, e isso continua valendo, é que, após a Guerra Fria, cultura, religião, memória histórica e identidade coletiva voltariam a pesar de forma decisiva na política internacional. Ele errou em algumas previsões específicas, sim. Mas errar em previsões não é o mesmo que errar no diagnóstico.

O caso da Ucrânia, por exemplo, não refuta Huntington de modo tão direto quanto parece. A guerra entre Rússia e Ucrânia mostra que laços culturais comuns não impedem conflitos, o que é verdade. Mas também revela, com uma clareza perturbadora, a força das disputas por identidade histórica, religiosa e civilizacional. A Rússia justifica parte de sua agressão com argumentos de unidade eslava, de proteção do "mundo russo" e de oposição ao Ocidente. A Ucrânia, por sua vez, afirma uma identidade própria, cada vez mais vinculada à Europa política e cultural. Esse conflito não é apenas entre democracia liberal e autoritarismo. É também uma disputa sobre pertencimento, memória, soberania e destino histórico, exatamente o tipo de coisa que Huntington dizia que voltaria a importar.

O mesmo raciocínio vale para China e Taiwan. O fato de Taiwan não ter gravitado politicamente em direção a Pequim não elimina o elemento civilizacional, pelo contrário. Mostra que a mesma herança cultural pode ser interpretada de formas politicamente muito diferentes. Taiwan representa uma tradição chinesa compatível com democracia e pluralismo. A China continental representa essa mesma tradição submetida ao controle do Partido Comunista. O caso enfraquece uma versão determinista de Huntington, sem dúvida. Mas não elimina a civilização como campo de disputa, de significado e de poder.

A conclusão mais honesta, portanto, parece ser esta: Huntington estava parcialmente certo e parcialmente errado. Errou quando tratou civilizações como blocos fechados, homogêneos e previsíveis. Errou ao subestimar a capacidade de sociedades não ocidentais de abraçar instituições liberais. Mas acertou ao perceber que o mundo pós-Guerra Fria não seria governado apenas por economia, tratados e instituições internacionais. Identidades profundas continuariam a moldar alianças, rivalidades, ressentimentos e projetos de poder, e é difícil olhar para o mundo hoje e dizer que ele estava errado nisso.

A tese de que o conflito central do nosso tempo é entre democracia liberal e autoritarismo é poderosa, mas talvez seja estreita demais. A realidade parece mais ampla e mais desconfortável. Autoritarismos frequentemente se alimentam de discursos civilizacionais para se sustentar e expandir. Democracias liberais, por sua vez, dependem de culturas políticas capazes de mantê-las vivas. Ideologia e civilização não são categorias que se excluem mutuamente. Elas se misturam, se reforçam e, em certos momentos, entram em tensão dentro de uma mesma sociedade.

Por isso, a saída não é abandonar Huntington, mas corrigi-lo onde ele foi longe demais. O mundo não está condenado a um choque inevitável entre civilizações, mas também não vive apenas uma batalha abstrata entre democracia e autoritarismo. Existe uma zona intermediária, mais complexa e menos confortável, onde instituições políticas, valores morais, religião, história e identidade cultural se entrelaçam. É nessa zona que se movem muitos dos grandes conflitos do nosso tempo. Huntington não explicou tudo. Mas explicou mais do que seus críticos costumam admitir. Sua tese continua útil, desde que lida com cautela, sem fatalismo e sem reduzir povos inteiros a destinos culturais que ninguém escolheu.

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