Edgar Morin e a esperança do improvável
Existem autores que admiramos. Existem autores que estudamos. Existem autores que influenciam uma parte específica da nossa trajetória intelectual. E existem aqueles poucos que, em algum momento da vida, alteram a maneira como enxergamos o mundo.
Para mim, Edgar Morin pertence a essa última categoria.
Não me lembro exatamente quando seu nome apareceu pela primeira vez. Talvez tenha sido entre 2008 e 2010, durante o período em que vivi na França. Talvez tenha surgido nas conversas sobre inovação, criatividade e gestão do conhecimento que circulavam intensamente pelas redes com as quais eu me relacionava naquela época. Talvez tenha aparecido durante meu mestrado em Engineering Design, quando eu buscava compreender sistemas complexos e me interessava por abordagens que escapassem das visões excessivamente mecanicistas que ainda dominavam boa parte da engenharia.
Não sei exatamente quando aconteceu.
Mas lembro claramente da sensação.
A sensação de encontrar alguém que estava tentando responder perguntas que eu mesmo ainda não sabia formular.
Naquele momento eu transitava entre dois mundos. De um lado, uma formação profundamente ancorada na engenharia, na modelagem, na racionalidade técnica, nos sistemas que podem ser decompostos em partes menores para serem compreendidos. De outro, um crescente fascínio por fenômenos humanos, processos criativos, inovação, cultura, organizações, aprendizagem e transformação social. Quanto mais eu avançava nesses temas, mais percebia que as ferramentas tradicionais explicavam bem máquinas, mas começavam a falhar quando o assunto eram pessoas, sociedades, conhecimento ou futuro.
Foi nesse espaço que encontrei Morin.
E encontrei principalmente O Método.
Os quatro primeiros volumes me acompanharam durante anos.
Não foi uma leitura fácil.
Muito pelo contrário.
Foram livros que exigiam lentidão. Muitas vezes eu passava horas em poucas páginas. Lia, voltava, anotava, relia. Havia algo na forma como Morin construía o pensamento que me obrigava a desacelerar. Não era um autor interessado em entregar respostas rápidas. Ele parecia estar constantemente reconstruindo os próprios conceitos enquanto caminhava.
E isso me encantava.
Porque havia ali uma coerência rara entre forma e conteúdo.
A complexidade não aparecia apenas como tema. Ela aparecia como método de escrita, como estrutura argumentativa e até como experiência de leitura.
Morin me apresentou a uma ideia que hoje parece óbvia, mas que na época foi quase revolucionária para mim: a de que sistemas vivos não funcionam como máquinas.
Parece simples.
Mas não é.
Porque durante séculos fomos educados a pensar o mundo como uma máquina.
Uma empresa seria uma máquina.
Uma economia seria uma máquina.
Uma cidade seria uma máquina.
Uma organização seria uma máquina.
Até mesmo a sociedade seria uma máquina.
Se identificarmos as peças corretas e as relações corretas entre elas, bastaria ajustar os mecanismos para produzir os resultados desejados.
Morin mostrava outra coisa.
Mostrava que sistemas vivos se organizam por relações, retroalimentações, paradoxos, contradições, circularidades e emergências. Mostrava que ordem e desordem não são opostos absolutos, mas dimensões que convivem e produzem organização. Mostrava que autonomia e dependência caminham juntas. Que estabilidade e transformação coexistem.
Mostrava, sobretudo, que aquilo que chamamos de realidade é muito mais complexo do que os modelos que criamos para compreendê-la.
Para alguém que trabalhava com inovação, aquilo era quase uma revelação.
Porque a inovação real nunca se comportava da maneira como os frameworks prometiam.
As organizações nunca eram tão lineares quanto os planejamentos estratégicos sugeriam.
Os mercados nunca respondiam exatamente como os modelos previam.
As pessoas nunca agiam da forma como as teorias econômicas imaginavam.
Morin oferecia uma linguagem para algo que eu já intuía.
Ele me dava permissão intelectual para aceitar a existência dos paradoxos.
Mais do que isso.
Ele mostrava que os paradoxos não eram problemas a serem eliminados.
Eram características fundamentais da realidade.
Essa percepção teve um impacto enorme na forma como passei a enxergar startups, inovação, empreendedorismo, ciência e até mesmo relacionamentos humanos.
Porque boa parte da maturidade parece surgir quando deixamos de tentar resolver definitivamente as tensões da vida e passamos a aprender a habitá-las.
Anos depois, li A Via – Para o Futuro da Humanidade.
Foi outro encontro importante.
Ali aparecia um Morin menos epistemológico e mais civilizacional.
Um pensador preocupado com os desafios concretos do mundo contemporâneo.
Um autor que observava crises ecológicas, econômicas, culturais e políticas como partes interdependentes de um mesmo fenômeno maior.
Mais uma vez, sua principal contribuição não era oferecer soluções simples.
Era ampliar a qualidade das perguntas.
Era mostrar que muitos dos nossos problemas persistem porque insistimos em tratá-los isoladamente.
Foi também um antídoto importante contra a sedução das ideologias.
Morin sempre me pareceu alguém profundamente comprometido com causas humanas, mas desconfiado das simplificações produzidas pelos sistemas ideológicos.
Isso ficou ainda mais evidente quando li Minha Esquerda.
Talvez tenha sido por volta de 2018.
Ali encontrei um intelectual que não abandonava suas raízes, mas também não se tornava refém delas.
Um pensador capaz de criticar os descaminhos da esquerda sem abrir mão das preocupações humanas que historicamente deram origem a ela.
Num mundo cada vez mais organizado por identidades políticas rígidas, aquilo me pareceu uma demonstração rara de liberdade intelectual.
Hoje, olhando retrospectivamente, percebo que Morin foi uma das primeiras pessoas que me ajudou a compreender algo que se tornaria central em muitas reflexões posteriores: a diferença entre simplificar e reduzir.
Porque simplificar é necessário.
Reduzir é perigoso.
Toda explicação precisa simplificar.
Mas quando a simplificação elimina dimensões essenciais da realidade, ela se transforma em redução.
E a redução quase sempre produz cegueira.
Talvez por isso seus livros tenham voltado tantas vezes às minhas leituras ao longo dos anos.
Mesmo quando eu já não concordava com tudo.
Mesmo quando outros autores passaram a complementar, expandir ou até corrigir alguns caminhos.
Mesmo quando comecei a perceber que a teoria da complexidade, por si só, não oferece necessariamente ferramentas suficientes para agir.
Porque esse talvez seja um dos limites de Morin.
Ele nos ajuda extraordinariamente a enxergar.
Mas nem sempre nos ajuda a decidir.
Seu sistema analítico é poderoso.
Seu diagnóstico é sofisticado.
Sua cartografia intelectual é impressionante.
Mas muitas vezes permanece aberta a pergunta prática:
e agora?
Como agir?
Como navegar?
Como tomar decisões concretas dentro dessa complexidade?
Ao longo do tempo fui encontrando outras referências que complementaram essa busca. Autores ligados à inovação, à teoria da ação, ao empreendedorismo, à evolução de sistemas adaptativos, à inteligência coletiva e à construção de futuros.
Mas isso nunca diminuiu a importância de Morin.
Porque alguém precisou abrir a porta.
E, para mim, uma das pessoas que abriu essa porta foi ele.
Existe ainda uma camada mais pessoal dessa história.
Meu primeiro encontro com minha esposa aconteceu em uma palestra de Edgar Morin no Sesc, em São Paulo, em 2012.
Durante muito tempo brincamos que ele era uma espécie de padrinho involuntário daquela história.
Nosso “Dindo”.
Anos depois, quando nos casamos, cheguei a pensar em escrever uma carta para ele.
Nunca escrevi.
Hoje acho que deveria ter escrito.
Porque algumas pessoas merecem saber que suas ideias atravessaram fronteiras invisíveis e produziram efeitos concretos em vidas que jamais conhecerão.
Poucos intelectuais conseguem isso.
Poucos conseguem alterar não apenas aquilo que pensamos, mas a forma como passamos a pensar.
Morin foi uma dessas pessoas.
Mas existe ainda uma última contribuição de Morin que talvez tenha se tornado mais importante para mim com o passar dos anos do que o próprio pensamento da complexidade.
Ela aparece na sua reflexão sobre a metamorfose.
Ao longo da vida, especialmente trabalhando com inovação, empreendedorismo, ciência, democracia e transformação social, fui percebendo como existe uma tendência quase automática de confundir o provável com o possível. Quando observamos sistemas em crise, sejam eles organizações, países, instituições ou até relações humanas, normalmente a análise racional aponta para trajetórias de deterioração, fragmentação ou colapso. Em muitos casos, essa análise está correta. O provável realmente parece caminhar nessa direção.
Mas Morin fazia uma distinção importante.
A história não é feita apenas de probabilidades.
Ela também é feita de possibilidades.
E algumas das transformações mais importantes da experiência humana surgiram justamente quando acontecimentos improváveis produziram reorganizações que ninguém conseguia enxergar claramente de antemão.
Talvez seja por isso que seus textos sobre metamorfose tenham me acompanhado tanto nos últimos anos.
Porque eles oferecem uma forma de esperança que não depende de ingenuidade.
É uma esperança que olha diretamente para os riscos, para as crises e para os processos de degradação, mas que ainda assim consegue reconhecer que sistemas vivos carregam dentro de si capacidades inesperadas de reorganização.
Em muitos momentos da minha vida — e especialmente nos tempos atuais — essa distinção entre provável e possível me ajudou mais do que qualquer discurso otimista.
E talvez seja essa a principal herança que levo de Edgar Morin.
Não a crença de que tudo terminará bem.
Mas a disposição de continuar procurando possibilidades mesmo quando as probabilidades parecem apontar para outro lado.
Como escreveu o próprio Morin:
“A desintegração é provável. O improvável, mas possível é a metamorfose.”
E talvez essa seja a forma mais madura de esperança que encontrei até hoje. Não uma esperança baseada em certezas, mas uma esperança baseada na possibilidade.
Obrigado, Edgar.
Descanse em paz.
E obrigado por nos lembrar, durante quase um século inteiro, que compreender é sempre mais difícil — e mais bonito — do que simplificar.
Abaixo, um trecho de “Elogio da Metamorfose” de Edgar Morin. Post originalmente publicado em Outubro de 2018.
“Quando um sistema é incapaz de tratar os seus problemas vitais, se degrada ou se desintegra ou então é capaz de suscitar um meta-sistema capaz de lidar com seus problemas: ele se metamorfoseia.
(...)
O aumento e a aceleração destes processos podem ser considerados como o desencadeamento de um poderoso feedback negativo, um processo pelo qual um sistema se desintegra irremediavelmente.
A desintegração é provável. O improvável, mas possível é a metamorfose.
(...)
A ideia de metamorfose, mais rica do que a ideia de revolução, guarda a radicalidade transformadora, mas a liga à conservação (da vida, do patrimônio cultural). Para ir rumo à metamorfose, como mudar de caminho? Mas se parece possível corrigir alguns males, é impossível romper a lógica técnico-científico-econômico-civilizacional que leva o planeta ao desastre. No entanto, a História humana mudou muitas vezes de caminho. Tudo recomeça por uma inovação, uma nova mensagem desviante, marginal, pequena, muitas vezes invisível para os contemporâneos. Assim começaram as grandes religiões: budismo, cristianismo, islamismo. O capitalismo se desenvolveu parasitando as sociedades feudais para finalmente decolar e, com a ajuda de monarquias, desintegrá-las.
(...)
Já não basta mais apenas denunciar. Precisamos propor. Não basta apelar à urgência. É preciso saber também começar a definir os caminhos que levarão ao Caminho. É para isso que estamos tentando contribuir. Quais são as razões para ter esperança? Podemos formular cinco princípios de esperança.
1. O surgimento do improvável. Assim, por duas vezes a vitoriosa resistência da pequena Atenas à formidável força dos persas, cinco séculos antes da nossa era, foi altamente improvável e permitiu o nascimento da democracia e da filosofia. Igualmente inesperado foi o congelamento da ofensiva alemã diante de Moscou, no outono de 1941, e depois a contra-ofensiva vitoriosa de Jukov que começou em 5 de dezembro e, depois, no dia 8 de dezembro com o ataque a Pearl Harbor, que marcou a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.
2. As virtudes geradoras/criadoras inerentes à humanidade. Assim como existem em qualquer organismo humano adulto células-tronco dotadas de habilidades polivalentes (totipotentes) próprias às células embrionárias, mas inativas, existem em cada ser humano, em cada sociedade humana, virtudes regeneradoras, geradoras e criativas em estado dormente ou inibidas.
3. As virtudes da crise. Ao mesmo tempo que forças regressivas e desintegradoras, as forças criadoras despertam na crise planetária da humanidade.
4. Com o que se combinam as virtudes do perigo: “Aí onde cresce o perigo cresce também o que salva”. A chance suprema é inseparável do risco supremo.
5. A aspiração multimilenar da humanidade à harmonia (paraíso, depois utopias, depois ideologias libertárias/socialistas/comunistas, depois aspirações e revoltas juvenis dos anos 1960). Esta aspiração renasce no formigueiro de iniciativas múltiplas e dispersas que alimentarão o caminho da reforma, consagradas a se unirem ao novo caminho.
(...)
A verdadeira esperança sabe que não tem certeza. É a esperança não no melhor dos mundos, mas em um mundo melhor. A origem está diante de nós, disse Heidegger. A metamorfose seria efetivamente uma nova origem.”





Muito bom, Diogo!