Eleições são um perigo!
Comentário ao artigo do Hélio Schwartsman na Folha
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (13/08/2026)
O articulista Hélio Schwartsman, da Folha de São Paulo, tem sido um dos analistas mais vocais no que diz respeito a tratar do assunto da inovação, em especial na política. O artigo abaixo mais uma vez elabora uma reflexão sobre o tema.
De fato, já estou na fase de considerar quase absurdo que o principal modo de escolha nas democracias deixe de ser alvo de constantes aprimoramentos e como as eleições, tal como se dão, passam batido em qualquer análise quando o assunto são os riscos de falhas sistêmicas nos mecanismos de controle do poder. Talvez, como o Augusto denuncia, a falta de democratas explique que esses temas sejam tão pouco discutidos ou mesmo trazidos à público.
Entendo que Hélio perceba que continuar com eleições seja o caminho de menos resistência, levando-se em conta toda a nossa classe política tão interessada nas possibilidades abertas por eleições contínuas. Com base no que já li em outros artigos seus, posso dizer que ele apoiaria iniciativas inovadoras de voto. O espaço que ele conta no jornal para tratar disso é que pode estar sendo pequeno demais, pelo menos para o meu gosto.
Segue abaixo a íntegra do artigo do Hélio.
Eleições são um perigo
Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo (12/08/2026)
Democracias não são conhecidas por favorecer a escolha de governantes sábios. Diluição de responsabilidades e vieses de autosseleção de candidatos estão entre os problemas
Se me pedissem para desenvolver o pior sistema possível para selecionar governantes, eu talvez chegasse às eleições. A lista de problemas que elas engendram é grande.
Pelo lado do eleitor, temos a diluição de responsabilidades. Se você quer um serviço bem-feito, não o encomende a múltiplos prestadores que não podem ser individualmente cobrados por suas ações. Mas é exatamente o que fazemos quando encarregamos um eleitorado, que pode chegar a centenas de milhões nos países mais populosos, de escolher os dirigentes da nação. O próprio eleitor resiste em aderir ao projeto. Ele sabe que o peso de cada voto individual tende à irrelevância e por isso nem se dá ao trabalho de conhecer minimamente as propostas de cada postulante, como exigiria o modelo de democracia racional.
E, se as coisas já são ruins no que tange ao eleitor, ficam ainda piores no que diz respeito aos candidatos. A encrenca aqui é a autosseleção. Tendem a ser mais atraídos pelo poder os perfis psicológicos que gostaríamos de ver longe do poder. Necessidade de aprovação, excesso de autoconfiança, megalomania são algumas das características potencialmente prejudiciais ao desempenho de um bom governante que abundam entre políticos. Como se não fosse o bastante, personalidades que reúnem fortes traços de narcisismo, maquiavelismo e psicopatia, a temível tríade sombria da psicologia, são mais frequentes entre políticos do que na população comum.
Por que então não abolimos as eleições e adotamos outro sistema? A democracia não tem poucas falhas, mas ainda não vislumbramos nada melhor do que ela. E, para ser percebida como legítima, é preciso que o eleitorado tenha alguma agência, isto é, algum poder de decisão, mesmo que o exerça muito imperfeitamente.
O caminho de menor resistência, me parece, é seguir com eleições e aprimorar o sistema de freios e contrapesos para reduzir os poderes individuais de políticos e com eles o perigo que más escolhas dos eleitores possam representar.



