Guga Casari, Inteligência Democrática (18/10/2026)
Aqui em Petrópolis tem a casa do Stephan Zweig, aquele que cunhou a expressão “País do Futuro”. Eu e minha esposa fomos ver um pocket show de choro com Marcel Powell (filho do Baden), violão e Daniel Magliavaca no bandolim. Excelente. Pra mim quase uma sincronicidade, uma confluência de sentidos e significados que exige um desempacotamento.
Estava mexido emocionalmente com questões pessoais, e também como todos com o momento intenso e crucial em que estamos, e talvez um pouco mais suscetível ao impacto da sonoridade. Costumo ouvir bastante guitarras espanholas e ciganas e mexeu comigo ouvir aquele som com uma coloração tão claramente Brasileira, na casa de um europeu que ficou genuinamente apaixonado pelo Brasil em contraposição a uma Europa entrando na guerra.
Zweig era um cara intenso, certamente idealista, e via o Brasil como uma nação com um potencial, de uma forma apaixonada e equivocada como fazem as paixões, mas ainda assim tão positiva que sua expressão “País do Futuro” virou um mote conhecido. Zweig via uma promessa, uma possibilidade, uma rota de fuga para a loucura que despontava no mundo. Certamente não enxergou claramente nosso lado escuro que já era tão presente, talvez tenha visto mais tarde, não sei, no final seu ânimo o abandonou e tirou a própria vida. Alguns idealistas sofrem quando o mundo não consegue viver a altura dos seus ideais, outros inversamente fazem os outros sofrer, por não se afeiçoarem igualmente às ideias que adoram.
A vida não é ideal, não é possível ter uma homogeneidade do bem se derramando por todos os cantos, nem há um bem que seja o mesmo em todas as condições. O futuro é tão fragmentado como somos os viventes, que tantas vezes optam por caminhos que nos desencontram. Mesmo na marcha mais unida em direção ao futuro a banda desafina e os passos dessincronizam. A vida não é uma marcha de conquista e destino singular, mas uma complicada festa de abundancia e falta, ritmo de plantios, lutos dos términos e limites, ancestrais, descendências, aprendizados, esquecimentos.
Naqueles timbres do choro, Jacó do Bandolim, Garoto e outros interpretados, tinha um que de genialidade, do improviso, de alegria e melancolia, e tonalidades de cores que a gente identifica como brasileiras. Músicas espontâneas formando um hino de nação entoado em várias vozes. Não com a intenção de fazer um exército, ou de comandar a dança, apenas uma representação de um sentimento que nossa intuição chama de Brasilidade. Possivelmente algo como esses acordes vibrantes e alternativos foi que o Europeu Zweig interpretou como promessa, brecha, alternativa.
E o que seria essa nação da qual o Brasil se distanciou, ou nunca de fato ainda foi? No lugar de ser vista como se o fosse seria importante que decidíssemos cada um o que fazer para juntos trazer essa visão ideal para o nosso real. O que é esse algoritmo com o qual o Brasil se pareceu em algum momento, mas que agora tanto se “desaparece”? Não vejo aonde está uma entidade espiritual “molecular” Brasil (como talvez diria Deleuze?), vejo essa aglutinação de gente moída como pó de pólvora. Nenhum tecido, e nada que retine a boa música. Sinto que o som de esperança verdadeira e de promessa da construção de algo não reverbera no pó preto e surdo, pó que só deseja a explosão ou o não me toques, pó que vai ficar murcho com a umidade do tempo, do qual o solo calcinado talvez não se recupere plenamente.
Quero cruzar o Atlântico como fez Zweig e descobrir um portal aberto para um mundo que pode ser, em que as pessoas podem ser, e que sendo sabem, e que sabendo fazem junto o melhor para todos. Música de Bandolim, de caixa de fosforo, música de malandro, sinfonia e funk. Mas também quero sobreviver num mundo que nunca será o ideal, e aprender/descobrir/co-criar formas de conviver com o outro que nunca será como eu, e ver como é bom que assim seja.
É um momento ruim no mundo, guerra em toda parte, e a gente aqui digerindo e se engasgando com ela ao invés de olhar a promessa de que ainda não fomos como uma boa ideia. Não tacanhamente envaidecidos a de que somos ou seremos o país de algum futuro a fazer frente a qualquer outro do mundo, mas que o futuro para o que nos direcionamos com cada pequeno gesto do presente já está aqui e que o país entre a gente é bom e justo.
O pêndulo crônico em que querem nos colocar não permite os pequenos gestos moleculares que nos aproximam e conectam. Não existindo encontros de onde virão as brechas, milagres quânticos no tecido dos dias comuns? Ao nos desumanizar mutuamente as pontes que já existem entre mundos distintos ficam escondidas, e abrimos mão de toda riqueza do encontro e da originalidade das mentes, ao nos anularmos na guerra de dentes trincados, mentiras, e falsos becos sem saída. Depois desse estúpido apocalipse ainda haverá vida, que resiste sem medo lá no fundo, só esperando que a gente cuide dela. Desobedeça ao medo.




Excelente Guga!! 👏🏻