Espírito esportivo e democracia
No último dia 10 de julho José de Souza Martins publicou um artigo no Valor Econômico intitulado Lições da Copa. Foi antes do jogo em que a Argentina desclassificou a Inglaterra. Martins contou uma historinha interessante no seu artigo:
"A única versão do futebol em que só se podia ganhar ocorreu entre os índios Terena. Um aluno de pós-graduação em antropologia, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, decidiu fazer seu mestrado sobre essa população indígena. Entre os apetrechos de seu equipamento levou uma bola de futebol, para mostrar o uso aos anfitriões. Ensinou-lhes a jogar, organizou dois times. Para sua surpresa, os 22 índios dos dois times não se enfrentavam, jogavam juntos. O adversário era a bola, contra a qual todos jogavam. Ela era a caça. Ali o futebol era impossível porque sociedade desprovida da concepção de competição, de vitória e de derrota. A bola perdeu".
Bem… estava eu ainda remoendo essa história do futebol dos Terena, em que só se podia ganhar, quando veio o jogo de 15/07/2026, nas semifinais da Copa do Mundo em curso, em que parece que o recuo da Inglaterra depois do seu primeiro e único gol foi o grande responsável pela sua derrota. Mas teve também os dois gols da Argentina. E as trocentas faltas da Argentina. Não uma ou outra falta eventual desse ou daquele jogador, como ocorre em qualquer partida. Mas a falta como método, como tática; ou, quem sabe, como estratégia (vá-se lá saber o que se passa na cabeça desse pessoal).
Sei que discutir futebol é como debater com militantes populistas. Seja de que lado forem, todos já têm suas opiniões imunes aos fatos. Então é inútil argumentar com os que apreciam o futebol-raça, o futebol-guerra, o futebol vale-tudo, o futebol jogo-sujo da Argentina.
Imersas numa cultura adversarial as pessoas se irritam quando criticamos esse tipo de degeneração da prática esportiva. Elas, via-de-regra, respondem sem pensar: “Futebol é isso. Não gosta, vai jogar pingue-pong ou dominó”. Ou seja, é mais generalizada do que se pensa a ideia autocrática de que a realidade é assim (e não de que ela está assim). O velho realismo político parece estar vivo em algum lugar escondido (ou nem tão escondido) da alma torcedora.
Sim, chega a ser meio apavorante o substrato das emoções presentes nos torcedores: se a vitória a qualquer preço vale para o futebol (que deveria ser apenas um jogo, um esporte, uma diversão) então por que não deveria valer para a política (e para a vida)?
Mas não é obrigatório (nem aceitável, do meu ponto de vista) bater nos outros como método para vencer uma partida ou ganhar um campeonato. A Espanha é campeã europeia e não faz isso. Se deixam algumas seleções fazer isso é culpa da FIFA e das confederações nacionais.
Ôpa! Perigo! Exemplificar com a seleção espanhola é arriscado. É quase como contar a história dos índios Terena (um escândalo; além de ser falsa, dirão alguns indignados). Você, caro leitor, talvez não imagine o tamanho do ódio secreto que tantas pessoas nutrem do futebol espanhol. É como se a Espanha estivesse traindo aquele Sporting Spirit orwelliano (como veremos a seguir): uma guerra sem tiros. Mas uma guerra.
Tudo isso me fez lembrar de um artigo, publicado em Dagobah em 04/08/2021, no qual questionava em que medida o tal espírito esportivo é compatível com a democracia.
Reproduzo abaixo o artigo.
Em que medida o espírito esportivo é compatível com a democracia?
Augusto de Franco, Dagobah (04/08/2021)
Por enquanto é uma proposta de investigação, não uma conclusão. A questão é: por que os esportes são competitivos? Por que o vencedor leva tudo e o velocista que chega em segundo lugar, por 0,1 milissegundos atrás do primeiro, acha que é (e é visto por muitos como) um loser? Por que os torcedores se comportam como fieis fundamentalistas, nutrindo ódio contra os adversários, tomados – em muitos casos – como inimigos?
Quem já viu o antagonismo entre as torcidas do Internacional e do Grêmio, em Porto Alegre, sabe bem do que se trata. Para não falar dos hooligans. Ah! Mas essas são disfunções. Nas Olimpíadas as competições não são assim. Será?
Suspeita-se que tudo isso tem a ver com a cultura patriarcal. Havia jogos competitivos na Creta minoica, antes da chegada dos aqueus? Havia jogos competitivos nas comunidades agrícolas da Europa antiga e nas cidades pré-patriarcais, como Çatalhüyük (6.700 aC), Hacilar (7.040 aC) e Jericó (9.000 aC) nos seus dois ou três primeiros milênios?
E as Olimpíadas, surgidas na Grécia arcaica? Foram organizadas por influência jônia ou dória (indo-europeia)? Quais os padrões hierárquico-autocráticos do tribalismo patriarcalista dório que podem ser identificados na organização dos jogos olímpicos?
De qualquer forma, é preciso investigar melhor essa história das Olimpíadas. Diz-se que a organização dos jogos foi de responsabilidade da pólis de Elis. Em 668 aC Fídon de Argos conquistou Olímpia e teria entregado o controle do santuário à cidade de Pisa, que organizou os jogos até 558 aC, ano em que Élide retomou o controle sobre Olímpia graças à intervenção de Esparta (êpa!). Depois, o núcleo de Olímpia passou a ser o Áltis, um bosque sagrado. No centro do bosque havia um templo em estilo dórico (ôpa!) dedicado a Zeus, que foi construído entre 468 e 456 aC
Segundo a mitologia grega, o herói Hércules criou as Olimpíadas por volta de 2.500 a.C., na Grécia antiga, para homenagear seu pai, Zeus. Contudo, os primeiros registros históricos das Olimpíadas são de 776 a.C. É significativo que no imaginário arcaico dos gregos patriarcais um herói tenha sido o responsável pela criação das competições. O herói é aquele que ultrapassa os limites da condição humana comum. É um ser in-comum, quer dizer, anti-commons no sentido político do termo. Se dependesse de heróis só haveria autocracia, nenhuma democracia (que é o regime das pessoas comuns).
Tudo isso se reflete no chamado espírito esportivo. Por que as pessoas são chamadas a sempre superar a condição humana (quer dizer, a bater os resultados obtidos por seus pares)? Por que têm que quebrar os recordes anteriores? Para quê isso?
Não seria mais humano, em vez de competir para se distanciar dos outros, colaborar para se aproximar deles, para gozar melhor com eles (ou elas) e se comprazer na convivência amistosa (sem o quê jamais teria surgido a democracia)?
Ah! Mas os esportes – alegam muitos – aproximam os povos. A competição esportiva nos salva da guerra, pois exclui a violência. OK! Mas quem disse que guerra é violência? Guerra é construção (e manutenção – não destruição, como se pensa) de inimigos. A guerra perfeita é aquela onde a violência que mata é um indesejável efeito colateral. Assim como a prisão perfeita (e mais cruel) não tem grades e são raros os espancamentos e torturas (como nos gulags stalinistas e nos campos de prisioneiros na Coréia do Norte). Assim como a ditadura perfeita é aquela em que as pessoas não precisam ser coagidas a agir sob comando porque já pensam sob comando.
O fato é que as competições esportivas, olímpicas ou não, insuflam emoções adversariais que sustentam o nacionalismo e o patriotismo (que são óbices à construção da humanidade como um simbionte social). E tudo com base no antagonismo. Aprendemos a odiar os argentinos a partir do futebol (embora muitos possam dizer que esse seria o menor dos motivos, hehe). Durante as Copas do mundo nos vestimos de verde-e-amarelo, penduramos bandeiras nacionais nas janelas, nos derretemos em juras de amor ao Brasil e gritamos “Chupa Filho da Puta” para tripudiar sobre os adversários que levaram a pior no embate conosco. Diga-se o que se quiser dizer, essas emoções não são muito compatíveis com a democracia, que é um modo pazeante de regulação de conflitos, que procura converter inimigos em amigos políticos – nem com a genética, de vez que praticamente todos nós, humanos, fazemos parte de uma única grande família (e somos primos até o grau 50).
Para encerrar esta introdução, pode-se dizer que não há dúvida de que essa alegação de que o esporte tem que ser competitivo é uma herança da cultura patriarcal, do herói que supera a condição humana, do mundo épico, dos que se alimentam da vitória (quer dizer, da derrota do outro, pois que um tem sempre que perder para o outro ganhar). Mas não precisa ser sempre assim. Ou será que o frescobol lírico não é um esporte?
Dois textos podem nos ajudar a começar essa exploração. O primeiro deles, de George Orwell (1945) sobre o tal espírito esportivo; e o segundo, de Peter Beck (2013), sobre a abordagem de Orwell do espírito esportivo (que não será reproduzido aqui, mas pode ser acessado na revista Democratization: ‘War minus de shooting’: George Orwell on International Sport and the Olympics).
O Espírito Esportivo
George Orwell, Tribune, 14 de dezembro de 1945.
Agora que a breve visita do time de futebol do Dínamo chegou ao fim, é possível dizer publicamente o que muitas pessoas sensatas já diziam em particular antes mesmo da chegada do Dínamo. Ou seja, que o esporte é uma causa infalível de animosidade e que, se uma visita como essa teve algum efeito nas relações anglo-soviéticas, foi apenas o de piorá-las um pouco.
Nem mesmo os jornais conseguiram esconder o fato de que pelo menos duas das quatro partidas disputadas geraram muita animosidade. No jogo contra o Arsenal, segundo me contou uma pessoa que estava presente, um jogador britânico e um russo chegaram às vias de fato, e a torcida vaiou o árbitro. Já a partida contra o Glasgow, de acordo com outra fonte, foi simplesmente uma confusão generalizada desde o início. E houve também a polêmica, típica da nossa era nacionalista, sobre a composição do time do Arsenal. Seria realmente um time formado apenas por jogadores da Inglaterra, como alegavam os russos, ou apenas um time da liga, como afirmavam os britânicos? E será que o Dynamos encerrou sua turnê abruptamente para evitar enfrentar um time formado apenas por jogadores da Inglaterra? Como de costume, cada um responde a essas perguntas de acordo com suas convicções políticas. Nem todos, porém. Observei com interesse, como um exemplo das paixões acirradas que o futebol provoca, que o correspondente esportivo do jornal russófilo News Chronicle adotou uma postura anti-Rússia e afirmou que o Arsenal não era um time formado apenas por jogadores da Inglaterra. Sem dúvida, a controvérsia continuará a repercutir por anos nas notas de rodapé dos livros de história. Enquanto isso, o resultado da turnê do Dynamos, na medida em que teve algum efeito, foi o de criar novas animosidades de ambos os lados.
E como poderia ser diferente? Sempre me surpreendo quando ouço pessoas dizerem que o esporte cria boa vontade entre as nações e que, se os povos comuns do mundo pudessem se encontrar no futebol ou no críquete, não teriam nenhuma inclinação para se encontrarem no campo de batalha. Mesmo que não se soubesse por exemplos concretos (os Jogos Olímpicos de 1936, por exemplo) que as competições esportivas internacionais levam a orgias de ódio, seria possível deduzir isso a partir de princípios gerais.
Quase todos os esportes praticados hoje em dia são competitivos. Joga-se para ganhar, e o jogo tem pouco significado a menos que se faça o máximo para vencer. No campo de futebol da aldeia, onde se formam times e não há nenhum sentimento de patriotismo local envolvido, é possível jogar simplesmente por diversão e exercício; mas assim que surge a questão do prestígio, assim que se sente que você e um grupo maior serão desonrados se perderem, os instintos combativos mais selvagens são despertados. Qualquer pessoa que já tenha jogado, mesmo que em uma partida de futebol escolar, sabe disso. No nível internacional, o esporte é, francamente, uma simulação de guerra. Mas o importante não é o comportamento dos jogadores, mas a atitude dos espectadores; e, por trás dos espectadores, a das nações que se enfurecem com essas competições absurdas e acreditam seriamente – pelo menos por curtos períodos – que correr, pular e chutar uma bola são provas de virtude nacional.
Até mesmo um jogo tranquilo como o críquete, que exige elegância em vez de força, pode causar muita animosidade, como vimos na controvérsia sobre o arremesso com a linha do corpo e sobre as táticas brutais da seleção australiana que visitou a Inglaterra em 1921. O futebol, um jogo em que todos se machucam e cada nação tem seu próprio estilo de jogo que parece injusto para os estrangeiros, é muito pior. Pior de tudo é o boxe. Uma das cenas mais horríveis do mundo é uma luta entre boxeadores brancos e negros diante de uma plateia mista. Mas uma plateia de boxe é sempre repugnante, e o comportamento das mulheres, em particular, é tal que o exército, acredito, não permite que elas assistam às suas lutas. De qualquer forma, há dois ou três anos, quando a Guarda Nacional e as tropas regulares estavam realizando um torneio de boxe, fui designado para ficar de guarda na porta do salão, com ordens para impedir a entrada das mulheres.
Na Inglaterra, a obsessão pelo esporte já é ruim o suficiente, mas paixões ainda mais intensas são despertadas em países jovens onde tanto a prática esportiva quanto o nacionalismo são fenômenos recentes. Em países como a Índia ou Mianmar (antiga Birmânia), é necessário haver fortes cordões policiais em partidas de futebol para impedir que a torcida invada o campo. Em Mianmar, presenciei torcedores de um time rompendo o bloqueio policial e imobilizando o goleiro adversário em um momento crucial. A primeira grande partida de futebol disputada na Espanha, há cerca de quinze anos, resultou em um tumulto incontrolável. Assim que fortes sentimentos de rivalidade são despertados, a noção de jogar de acordo com as regras desaparece. As pessoas querem ver um time vencer e o outro ser humilhado, e se esquecem de que a vitória conquistada por meio de trapaças ou da intervenção da torcida não tem valor algum. Mesmo quando os espectadores não intervêm fisicamente, tentam influenciar o jogo torcendo pelo seu próprio time e provocando os jogadores adversários com vaias e insultos. Esporte sério não tem nada a ver com jogo limpo. Está intrinsecamente ligada ao ódio, à inveja, à arrogância, ao desrespeito a todas as regras e ao prazer sádico de presenciar a violência: em outras palavras, é a guerra sem os tiros.
Em vez de divagar sobre a rivalidade limpa e saudável do futebol e o papel fundamental dos Jogos Olímpicos na união das nações, é mais útil investigar como e por que surgiu esse culto moderno ao esporte. A maioria dos jogos que praticamos hoje tem origem antiga, mas o esporte não parece ter sido levado muito a sério entre a época romana e o século XIX. Mesmo nas escolas públicas inglesas, o culto aos jogos só começou no final do século passado. O Dr. Arnold, geralmente considerado o fundador da escola pública moderna, via os jogos como uma simples perda de tempo. Então, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, os jogos se transformaram em uma atividade com grande investimento financeiro, capaz de atrair multidões e despertar paixões intensas, e essa paixão se espalhou de país para país. São os esportes mais violentos e combativos, o futebol e o boxe, que se difundiram mais amplamente. Não há muita dúvida de que tudo isso está ligado à ascensão do nacionalismo – ou seja, ao hábito moderno e insano de se identificar com grandes unidades de poder e ver tudo em termos de prestígio competitivo. Além disso, os jogos organizados têm maior probabilidade de florescer em comunidades urbanas, onde o ser humano médio leva uma vida sedentária ou, pelo menos, confinada, e não tem muitas oportunidades para trabalho criativo. Em uma comunidade rural, um menino ou jovem gasta boa parte de sua energia excedente caminhando, nadando, jogando bolas de neve, subindo em árvores, cavalgando e praticando vários esportes que envolvem crueldade contra animais, como pesca, rinhas de galo e caça a ratos com furões. Em uma cidade grande, é preciso se envolver em atividades em grupo se quiser uma válvula de escape para a força física ou para os impulsos sádicos. Os jogos são levados a sério em Londres e Nova York, e eram levados a sério em Roma e Bizâncio: na Idade Média, eram praticados, e provavelmente praticados com muita brutalidade física, mas não estavam misturados com política nem eram causa de ódios entre grupos.
Se você quisesse aumentar o vasto estoque de animosidade existente no mundo neste momento, dificilmente encontraria maneira melhor do que com uma série de partidas de futebol entre judeus e árabes, alemães e tchecos, indianos e britânicos, russos e poloneses, e italianos e iugoslavos, cada partida assistida por um público misto de 100.000 espectadores. Não estou, é claro, sugerindo que o esporte seja uma das principais causas da rivalidade internacional; o esporte em grande escala é, em si, a meu ver, apenas mais um efeito das causas que produziram o nacionalismo. Ainda assim, você piora as coisas enviando um time de onze homens, rotulados como campeões nacionais, para batalhar contra um time rival, e permitindo que todos sintam que a nação derrotada “perderá a face”.
Espero, portanto, que não demos seguimento à visita do Dynamos enviando uma equipe britânica à URSS. Se tivermos mesmo que fazê-lo, que enviemos uma equipe de segunda categoria, que certamente será derrotada e não poderá ser considerada representante da Grã-Bretanha como um todo. Já existem causas suficientes para problemas reais, e não precisamos agravá-los incentivando jovens a se chutarem nas canelas em meio aos gritos de espectadores enfurecidos.



