Tem alguma coisa estranha nessa catarse toda. A festa. O choro. O alívio. O medo. A sensação de salvação. Como se alguma coisa definitiva tivesse acontecido. Não aconteceu.
Estamos operando no límbico.
Em 2018 escrevi algo parecido, na época olhando para o outro lado. O bolsonarismo entendeu muito bem esse lugar. Medo. Raiva. Ressentimento. Pertencimento. Um inimigo suficientemente grande para organizar todo o resto. A sensação de que não estávamos simplesmente escolhendo um presidente, mas participando de alguma coisa maior. Uma batalha. Uma ruptura. O fim de alguma coisa.
Oito anos depois, estamos aqui novamente. E mais fundo.
A polarização opera assim. Não basta discordar. É preciso temer. Não basta perder. É preciso ser derrotado. Não basta ganhar. É preciso sobreviver. E aí aparecem os heróis, os salvadores, as últimas barreiras, a última chance. O fascismo. O fim da democracia. O abismo logo ali.
Tudo fica enorme.
Só que política não deveria ser enorme. Política é prosaica. É orçamento. Negociação. Limite. Concessão. Regra. Fiscalização. Instituição. É chata. Democracia é ainda mais. Ela não é uma epopeia. Não é romântica. E não deveria precisar de heróis.
Uma democracia saudável deveria conseguir nos devolver ao enfadonho. Ao adversário que continua sendo adversário. À derrota que continua sendo derrota. À vitória que continua sendo apenas uma vitória. Ao dia seguinte.
Porque existe algo perigoso quando tudo vira vida ou morte. Quando o outro deixa de ser alguém que precisa perder uma eleição e passa a ser alguém de quem precisamos ser salvos. Nesse lugar, o excepcional começa a parecer razoável. Os limites ficam inconvenientes. Os excessos ficam justificáveis. E a defesa da democracia começa, estranhamente, a aceitar coisas que em tempos menos histéricos reconheceríamos como pouco democráticas.
É isso que me incomoda nessa catarse toda. Não a alegria de quem ganhou. Nem a tristeza de quem perdeu. É a intensidade. Essa necessidade permanente de viver a política como experiência existencial. De precisar salvar alguma coisa. Derrotar alguma coisa. Sobreviver a alguma coisa.
Estamos operando no límbico.
E política não deveria morar lá.




