Fiasco trumpista
COM A AJUDA DE TRUMP, O EIXO AUTOCRÁTICO VENCE MAIS UMA BATALHA DA SUA NETWAR CONTRA AS DEMOCRACIAS LIBERAIS
O Estado judeu de Israel está em sério risco. Já perdeu a netwar no mundo todo. E corre o risco de perder seu principal aliado (os EUA). Sem os Estados Unidos e sem quaisquer aliados fortes, Israel não será capaz de resistir às autocracias (mais de vinte) que o cercam no Oriente Médio estendido. No pior cenário (que ainda não é o mais provável) isso poderia até provocar uma nova diáspora. Claro que muita coisa pode ainda acontecer. Estamos olhando desdobramentos possíveis - e trágicos - de algumas linhas temporais antevistas desde agora.
Alguns antissionistas (inclusive antissemitas disfarçados) dizem que é tudo culpa da extrema-direita incrustada no governo Netanyahu. Mas o que está acontecendo não decorre apenas dos erros do governo nacional-populista de Netanyahu e dos desvarios das correntes messiânicas de extrema-direita, abrigadas no atual governo Bibi, que sonham com o “Grande Israel”. O principal responsável por tudo isso é o Irã, quer dizer, a guerra movida pelo regime da revolução islâmica iraniana contra as democracias liberais. Israel paga o pato não apenas pelo atual governo ter se deixado levar por delírios ideológicos do messianismo judaico e sim porque, com todos os seus problemas, é a única democracia (embora já cadente) do Oriente Médio.
Na verdade, com a ajuda - consciente ou inconsciente de Trump, pouco importa - o eixo autocrático venceu mais uma batalha da sua netwar contra as democracias liberais.
Não deveria ter passado tão despercebido o fato de Trump ter elogiado Xi Jinping, da China e Vladimir Putin, da Rússia, por ajudarem a garantir o “acordo”. Aliás, um dos “negociadores” do falso acordo foi o Paquistão, um país ditatorial tenebroso, mais populoso que o Brasil e com armas nucleares, que atuou neste caso teleguiado pela China.
Fica claro que o cara que escreveu The Art of the Deal não passa de um vigarista. Seu livro poderia ser renomeado como A Arte de Não Fazer uma Negociação (ou A Arte de Fazer um Não-Acordo). Na verdade, não havia arte alguma, só bravata, bullying e mentiras. E a negociação não chegou a acordo algum, só à rendição.
Vejamos um resumo de The Art of the Deal aplicada neste caso da guerra do Irã:
⚫️ O Irã diz que vai abrir o estreito de Ormuz, mas vai cobrar uma taxa de serviço (um disfarce para cobrar pedágio e, pior, para manter o controle sobre o tráfego naval no estreito).
⚫️ O Irã não vai parar de financiar, armar, treinar e coordenar cerca de vinte grupos terroristas cujo objetivo é aniquilar Israel (Hezbollah, Jihad Islâmica, Hamas e mais de uma dezena de grupos xiitas no Iraque e na Síria).
⚫️ O Irã não vai entregar seu estoque de urânio enriquecido com objetivos militares e vai manter seu programa nuclear (sempre declarando mentirosamente - como já fazia - que é tudo para fins pacíficos).
⚫️ O Irã não vai parar de produzir drones e mísseis (alguns de longo alcance) em escala industrial em quase trinta cidades subterrâneas (onde também esconde ou esconderá suas centrífugas).
⚫️ O regime policial-militar do Irã, comandado por uma SS chamada Guarda Revolucionária (IRGC), não caiu; pelo contrário, ficou mais forte e não vai parar de reprimir violentamente a maioria da sociedade iraniana.
NOTA
No Oriente Médio estendido há 22 autocracias e somente 1 democracia (cadente). Autocracias: Afeganistão, Arábia Saudita, Argélia, Bahrein, Catar, Egito, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Irã, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbano, Líbia, Marrocos, Omã, Palestina (Cisjordânia e Faixa de Gaza), Paquistão, Síria, Sudão, Tunísia, Turquia. Democracia: Israel.



