Fronteira ou butim
Fui duas vezes à Rússia. Admiro sua literatura, sua música, sua ciência e a grandeza trágica de sua história.
Putin, em fevereiro de 2022, ordenou invadir a Ucrânia tentando manter e aumentar o seu poder.
Nos primeiros dias da guerra, Zelensky decidiu ficar em Kyiv, pedir resistência e transformar a defesa ucraniana em causa internacional. Sua reação imediata foi a de negar a oferta de refúgio no exterior: pedia munição para resistir.
Desde então, a Ucrânia defende famílias, cidades, língua, memória, instituições e o direito elementar de escolher seu destino. Luta por si e preserva algum sentido prático para a palavra “soberania”. Estimativas do Center for Strategic and International Studies indicaram que as forças ucranianas já sofreram entre 500 mil e 600 mil baixas, incluindo mortos, feridos e desaparecidos.
O Tribunal Penal Internacional expediu, em 17 de março de 2023, mandados de prisão contra Putin em conexão com a deportação e a transferência ilegal de crianças ucranianas de áreas ocupadas para a Federação Russa. A Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre a Ucrânia também registrou crimes atribuídos a autoridades russas, incluindo desaparecimentos forçados e tortura.
Esses fatos formam o núcleo moral do conflito. Se Moscou conservar ganhos territoriais obtidos pela força, o princípio básico da ordem internacional sofrerá corrosão grave: um país nuclear, grande e violento, pode invadir um vizinho, produzir sofrimento em escala e receber terras como prêmio.
O European Council on Foreign Relations advertiu que uma vitória de Moscou poderia deixar a Ucrânia derrotada, dividida, desmoralizada e despovoada, além de abrir novas possibilidades para desinformação e desestabilização política na Europa. O Lowy Institute também argumentou que uma vitória de Putin enfraqueceria qualquer ordem internacional baseada em regras.
Caso a Rússia obtenha sucesso, a fronteira oriental da Europa se tornará zona de chantagem permanente. Países bálticos, Polônia, Moldávia, Geórgia e outros vizinhos saberão que sua soberania dependerá do humor do Kremlin. Uma Rússia vencedora procuraria a próxima margem frágil.
Derrotar a Rússia nesta guerra significa frustrar os objetivos imperiais de Moscou: a ocupação territorial, a destruição da soberania ucraniana, a normalização da agressão e a conversão da violência em título de propriedade.
Nada garante que o próximo governo russo seja menos autocrático ou mais moderado que o atual. Ele pode tornar-se ainda mais repressivo, ressentido e revanchista. A derrota russa impedirá que essa tradição continue gerando destruição.
A sociedade russa vive sob longa história de autocracia, repressão e propaganda estatal. Essa realidade ajuda a explicar a dificuldade de formação de uma oposição pública capaz de enfrentar o Estado.
A melhor forma de os estrangeiros ajudarem é garantir que a Ucrânia se defenda, recupere o território que lhe pertence e derrote a lógica imperial russa em campo político, moral e militar.
A política externa de um governo revela sua idoneidade política e a sua relação com a liberdade. No Brasil, a esquerda neopopulista e a direita nacional-populista de extrema direita convergiu em uma tolerância injustificável diante dos abusos de Putin.
A derrota da Rússia é moral: crimes jamais devem ser premiados. É jurídica: a soberania ucraniana foi violada. É estratégica: uma Rússia vencedora tornaria o mundo mais perigoso. É humana: vidas estão sendo esmagadas para satisfazer uma ambição imperial e pessoal.
Enquanto Moscou tenta impor o direito da força, Kyiv tenta evidenciar a força do direito.
Slava Ukraini!





Texto excelente que nos faz pensar muito... Na minha singela opinião, o melhor título de "Soberania" de um país é o bem estar de seu povo e a diplomacia com o próximo, fora isso, restam apenas justificativas para imperialismo, egocentrismo, acúmulo de riquezas e tudo o mais que não faz sentido algum para uma sociedade civilizada moderna, democrática e pacífica.