Futebol democrático
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (18/06/2026)
Copa do Mundo está aí nas telas. Eu curto. Estou ao lado de Albert Camus, que era fã do esporte mais popular do planeta. O escritor, que chegou a pedir para assistir um jogo quando esteve no Brasil, se divertia com o esporte bretão e filosofava: “o pouco de moral que sei, aprendi nos campos de futebol”(1).
O futebol tem seu aspecto democrático. Roberto da Matta chegou a publicar um livro sobre o tema: “Universo do Futebol: Esporte e Sociedade Brasileira”. Segundo ele, essa modalidade no Brasil remete a uma igualdade que contrasta com nossa vida real, hierarquizada, onde a cultura do “você sabe com quem está falando?” prevalece.
No campo de jogo não tem Gilmar Mendes nem Alexandre de Moraes para fazer valer algum subterfúgio que impeça um time ou outro de ganhar. O juiz é o ‘natural’, está no gramado junto com os jogadores. Todos eles, independente de sua classe social, possuem o mesmo estatuto para participar da partida.
Claro que existe o aspecto do ‘fora do campo’ e não são poucas as narrativas de jogadas obscuras envolvendo a FIFA, a organizadora do torneio mundial de seleções. Afinal, o grau de engajamento das populações com a competição é elevado à décima potência, a audiência é enorme. Campo para manipulação existe, ainda mais com a proliferação de casas de apostas rodeando a copa.
Além disso, as torcidas usam o espaço de manifestação para dar apoio aos seus países em meio a disputas geopolíticas no mundo. O suporte ao time se confunde eventualmente com o grito de guerra, um outro componente do futebol. Cantados por seus jogadores em campo antes das partidas, as letras dos hinos nacionais majoritariamente retratam o ambiente da batalha, do sacrifício e da morte (2).
A disputa por mais civilizada que seja, onde as regras e os procedimentos inibem a prática da violência desmedida, implica a busca da prevalência de um sobre o outro. Humberto Maturana provavelmente veria nisso um espaço de exaltação da guerra.
Sou menos sombrio ou mais iludido nessa abordagem e me divirto com as partidas. Apesar de reconhecer o caráter beligerante e da dinâmica da escassez do esporte, entendo que o aspecto lúdico da brincadeira e da convivência que permeia o jogo suplanta a negatividade da simbologia guerreira e do uso que se faz da manipulação de massas para fins escusos.
Também podemos torcer para os países democráticos demonstrarem alguma resistência, pelo menos simbólica, ao avanço dos regimes autocráticos no mundo. É uma outra diversão acompanharmos o desempenho dos times seguindo o critério dos institutos que medem a democracia no mundo. As democracias estão vencendo as autocracias? Os resultados no campo podem renovar nossa esperança. Mas pode vir um mau agouro.
Posso dizer ainda que assistir às partidas é prazeroso, mas que jogar futebol como brincadeira é muito melhor. Como Camus, além (ou aquém) de brincar, tenho a oportunidade de observar o comportamento humano no campo de jogo. Do alto dos meus 61 anos, ainda pretendo jogar minhas peladas por um bom tempo. Como bom democrata, prezo a boa amizade que usufruo em torno do meu campinho.
Notas
(1) Cf. Todd, Olivier. Albert Camus: uma vida.
(2) HOC no Instagram:



