Jamais imaginei que estaria escrevendo isso. Há um golpe em curso no Brasil, mas não é um golpe de Estado como o intentado por Bolsonaro. E sim um golpe dos que acusaram o golpe bolsonarista, aquele que jamais chegou a se concretizar porque foi abortado pelos próprios golpistas por falta de força político-militar para desfechá-lo.
Não é um golpe apenas da ala governista do STF. É um golpe do consórcio formado para reeleger Lula de qualquer maneira. Dele participam Lula e seu governo, a banda podre do STF, a direção e as facções petistas da Polícia Federal, o Procurador Geral da República, os presidentes da Câmara e do Senado e parte da imprensa comprada pelo governo ou colonizada por militantes petistas.
No embate que se tornou público dentro do Supremo Tribunal Federal, o propósito da ala governista é retirar das mãos de André Mendonça todas as relatorias que ele exerce (INSS-Lulinha e Master). Se isso não der certo, David Alcolumbre já sinalizou que poderia pautar seu pedido de impeachment no Senado.
Sim, agora o Brasil tem que decidir se quer continuar sendo uma democracia ou se quer manter no STF o monocrata Alexandre de Moraes comandando há mais de 7 anos o chamado Inquérito das Fake News e usando esse instrumento de exceção como arma política para praticar corrupção em larga escala e cometer outros atos ilegais e autoritários, incriminar quem denunciá-lo e perseguir adversários da sua facção na corte e inimigos do governo Lula a ela consorciado.
Há muitas evidências de que a democracia no Brasil corre perigo. Comecemos com as coincidências.
Menos de 24 horas depois do levantamento do sigilo do relatório da Polícia Federal revelando as relações promíscuas e criminosas entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, Paulo Gonet, Procurador Geral da República, citado no relatório, soltou um documento pedindo a sua anulação.
Para incriminar Mendonça, Moraes se baseou num documento anônimo da Polícia Federal chamado de “relatório de inteligência”. Não é um documento tipicamente policial. O estilo é de um documento político (vazado em termos lulopetistas). Quem encomendou esse documento? Se foi Moraes, ele não pediu autorização ao presidente da suprema corte. Quem o assina? Ninguém.
Jogo de cartas marcadas. Ontem (03/09), pouquíssimo tempo depois do despacho de Moraes acusando Mendonça, Fachin já estava com outro documento pronto dando cinco dias de prazo para Mendonça, Moraes, Gonet e Andrei se explicarem sobre as acusações do relatório clandestino da PF. Não daria tempo de redigir tal documento se ele, Fachin, já não soubesse do golpe que seria desferido por Moraes. Hoje (04/09) percebendo a mancada, para disfaçar ou tentar consertar as coisas, Fachin determinou que as acusações de Moraes sejam retiradas do inquérito das fake news e o caso seja incluído no procedimento aberto sobre os indícios encontrados pela PF contra Moraes.
Passemos agora às tentativas de transformar o escândalo em uma briga de egos entre Mendonça e Moraes.
Parte da imprensa comprou a narrativa da equivalência entre os erros de ambos. Ou seja, caiu no truque sujo de estabelecer uma equivalência entre dois supostos desviantes das regras. E, com isso, absolver preventivamente Moraes de seus crimes.
Para desmascarar esse truque bastaria fazer algumas perguntas:
A mulher de Mendonça assinou um contrato de 130 milhões com Vorcaro?
Vorcaro deu cartões de crédito com limite de 300 mil para os filhos de Mendonça?
Vorcaro colocou avião e helicoptero à disposição da família de Mendonça?
Mendonça avisava Vorcaro para que ele pudesse escapar da polícia?
Mendonça foi na degustação de whisky em Londres às expensas de Vorcaro (como foram Moraes, Gonet e Andrei)?
Mendonça organizou em sua própria casa uma reunião dos chefes dos poderes executivo e legislativo para que todos apoiassem a reeleição de Lula?
Até hoje Alexandre de Moraes não se explicou sobre nada disso. André Mendonça, entretanto, não tem que se explicar sobre nada disso, porque não cometeu nada disso.
Voltemos, porém, ao início. Há um golpe em curso. O golpe em curso é um golpe para impedir que Lula perca a eleição - o que, segundo os petistas, seria um verdadeiro golpe de Estado (uma espécie de continuidade do 8 de janeiro, nos seus delírios).
Para tanto, é necessário afastar todos aqueles que podem revelar escândalos que prejudiquem a reeleição de Lula:
As relações do Careca do INSS com o filho de Lula, Marcola, Berger e outros ministros lulistas.
O envolvimento de Frei Chico, irmão de Lula, com o roubo dos aposentados.
O envolvimento do PT da Bahia e de Jaques Wagner, líder de Lula, com o caso Master.
A investigação sobre os negócios escusos de Dias Toffoli (indicado por Lula para o STF) com Daniel Vorcaro.
A investigação sobre as conexões (e traficâncias) de Alexandre de Moraes (aliado de Lula), Paulo Gonet (indicado por Lula para a PGR) e Andrei Rodrigues (ex-segurança pessoal de Lula e Dilma - indicado pelo PT para chefiar a Polícia Federal) com Daniel Vorcaro.
Tudo isso tem que sumir para que não atrapalhe mais a eleição de Lula. E tudo vai começar pelo afastamento de André Mendonça, das relatorias que estão nas suas mãos ou do próprio STF.
Ano que vem Moraes, impune, assume a presidência do STF. De 2027 a 2030, se Lula for reeleito, nomeará mais quatro membros para a suprema corte, consolidando uma maioria governista incontornável naquele que se transformou, em aliança com a PGR, com o chefe do governo e com os presidentes da Câmara e do Senado, num poder monárquico absoluto no Brasil. Se isso acontecer, não estaremos mais numa democracia.
E vai acontecer. A menos que a sociedade brasileira se manifeste vigorosamente, nas ruas e em todo lugar.




Qualquer golpe nesses moldes, para ser dado precisa ser arquitetado com bastante antecedência, cooptando e corrompendo aliados em diversas frentes (classe política, jurídica, militar e até civil, via mídia e entidades sociais), avaliando alternativas robustas para possíveis contratempos e reações contrárias. E tempo não faltou para essa gente. Deixamos, enquanto sociedade, chegar nesse ponto e não sei se ainda temos voz e força, dentro da legalidade e por vias pacíficas, para barrar o processo. Nossa democracia, que nunca foi plena, torna-se cada vez mais restrita.
A questão é: conta quem e o que a sociedade brasileira vai se manifestar nas ruas? Se cada time sair às ruas protestando contra o que identifica como inimigo, será uma verdadeira guerra civil. É preciso deixar bem claro o alvo das manifestações.