Hierarquia no Brasil como modelo mental-cultural
Walter Alberto Topfstedt, Inteligência Democrática (29/05/2026)
O modelo mental hieráquico, presente em nossa cultura nacional, se caracteriza por uma idéia central de que existem níveis de convivência, de várias atividades, onde os que ocupam posições superiores detém mais poder em detrimento dos que estão abaixo deles. Em inglês se utiliza a denomição “top-down”.
Uma situação oposta seria onde a base se articula para que as atividades aconteçam, sem influência das outras camadas mais superiores. A isto se denomina “de baixo para cima”, em ingles “bottom-up”.
Uma das formas mais evidentes de nosso modelo mental hierárquico é a atuação do Poder Judiciário.
Essencialmente, aquela atividade que se intitula como guardiã das liberdades e direitos dos indivíduos, em grande parte dos casos, acaba por prejudicar as mesmas.
Isso sem mencionar os cartórios, um “anexo” das ações judiciais, que por sj já são um corpo estranho, ainda mais em tempos de alta conectividade, tecnologia e inteligência artificial. É um reduto de difícil eliminação, pois possui capacidade de se adaptar aos tempos, cada vez mais entranhado e re-codificado.
A própria formação da área jurídica também é hierárquica. Desde os muros escolares, os futuros causídicos já se defrontam com os níveis de atuação e recursos, que levarão até o final da atividade. Alguns avanços pontuais, como juizados especiais e iniciativas de arbitragem podem ser detectadas, mas ainda são minoria.
As associações classistas também possuem sua hierarquia, espelhando a política partidária fora do âmbito político oficial. Isso acaba também por contaminar os interesses dos profissionais e quem atua em todo o campo de operadores do Direito.
Pode-se dizer que este cenário é influenciado, mas também influencia, pois vários expoentes políticos, no âmbito municipal, estadual ou nacional, são da área do direito.
Não é raro surgir uma notícia onde um juiz, desembargador ou procurador, “extrapolou” suas funções com o bem público, usando um veículo, ajudando um amigo ou frequentando algum ambiente onde normalmente não deveria estar. Podem prestar atenção todo dia, pois vai haver uma reportagem sobre alguma forma de atuação hierárquica, de algum poder, mas o mais frequente é do Judiciário.
Em um país com um cipoal legal, os operadores do Direito acabam por protagonizarem um papel relevante em qualquer atividade, visto que são necessários para interpretar, acionar, julgar e executar as ações, sentenças, pareceres e projetos que o país precisa.
Além do que, os ocupantes de posições mais “altas” na hierarquia da área, acabam por se tornar influentes em outras áreas também, com prestígio e atraindo mais possibilidades de atuar, como é característico de sociedades onde a influência, os bastidores e acordos são tramados fora do contexto da transparência e objetividade.
O mundo está ficando mais horizontal em alguns aspectos. Isto não se reflete na geopolítica, onde se observa uma evolução em autocracias, se organizando e associando para atuarem conjuntamente.
Não nos esqueçamos de uma frase que todo mundo conhece: “Você sabe com quem está falando?”



