Inovação política
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (02/07/2026)
O Instituto Millenium publicou recentemente uma postagem no Instagram sobre o voto ranqueado (1). A Irlanda usa esse tipo de votação já há algum tempo e recorre também a sorteios para decidir sobre temas complexos e divisivos como aborto (2). Trata-se de um país com níveis significativamente menores de polarização, demonstrando uma abertura institucional para inovar na gestão do conflito democrático.
Em nosso contexto, cabe questionar: por que é tão difícil tentar inovar nas formas de escolha? É certo que a Constituição limita mudanças eleitorais ao legislativo federal — cujos representantes muitas vezes estão distantes do eleitor comum. No entanto, seria esse distanciamento um impeditivo absoluto para buscarmos alternativas que mitiguem a polarização e a crescente rejeição aos políticos?
Quantos de nós, ao participarmos de condomínios, conselhos, clubes ou grupos que exigem a escolha de gestores, deixamos de refletir sobre soluções inovadoras? Frequentemente, abdicamos desse papel em favor de terceiros que nos representem, o que acaba por nos desobrigar do esforço de pensar.
Até que ponto estamos realmente abertos a propostas que exigem inovação? Ou será que aceitamos passivamente o “pacote” imposto por cartórios e instâncias superiores, que estipulam modos convencionais de assembleias e eleições? Muitas vezes, esses conselhos acabam ocupados por quem apenas “performa” uma função, sem plena consciência de suas reais atribuições.
É possível que já existam inovações em curso sem o devido registro, mas o fato é que as instituições permanecem presas a modelos que apenas replicam o sistema político tradicional. Mesmo o sorteio — já adotado na formação de jurados — ocorre dentro de um leque pré-definido e sob obrigatoriedade, carecendo do elemento da voluntariedade.
Há um aspecto da inovação política que costuma ser subestimado: a aposta na possibilidade de convivência. Argumenta-se muito sobre a suposta incapacidade de os eleitores compreenderem formatos diferentes de escolha. A meu ver, essa avaliação mascara uma postura paternalista de querer “proteger as pessoas delas mesmas” ou, pior, de tutelá-las sob a crença de que um guia forte é sempre indispensável. Permitir que as pessoas escolham a partir de critérios próprios, sendo informadas sobre prós e contras, desloca o foco da liderança pré-estabelecida para uma liderança que emerge de um ambiente favorável à convivência.
No mundo real, enfrentaremos este ano eleições no modo tradicional e majoritário. Enquanto um ganha e o outro perde, a rejeição a ambos os pólos provavelmente sairá vencedora. Trata-se de um sistema que incrementa o antagonismo e a exclusão; não é por acaso que regimes autoritários ainda encontram defensores por aqui.
O desafio que proponho é passarmos a pensar em modos de transformar esse modelo de escolha em formatos que expandam a ideia de que é possível compor com o diferente. O fato de não encontrarmos ressonância de nossos pensamentos em nossos representantes não deve significar a paralisia das propostas. Pelo contrário: isso nos chama à responsabilidade de criar as condições para uma democracia mais robusta na forma como gerimos nossos conflitos. É preciso começar de algum lugar.
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