Jornalismo laudatório
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (25/06/2026)
Gilmar Mendes foi entrevistado no Roda Viva da última segunda-feira. Eu não vi a entrevista. Já conheço de cor e salteado a postura do ministro. A mim me espanta que o jornalismo ainda dê espaço. Só posso atribuir a iniciativa de convidá-lo a algum medo ou troca de favores. Novidade dali não vem nenhuma. Só arrogância e desprezo pela inteligência das pessoas.
Um poder que não aceita ser controlado é um poder ilegítimo. Dar voz a quem defende isso é compactuar com a ilegitimidade.
O que precisamos investigar como sociedade é o que podemos fazer efetivamente para que o sistema de freios e contrapesos dos poderes volte a funcionar, se um dia já funcionou a contento. Como alterar a correlação de forças que está permitindo um crescente distanciamento do poder em relação às pessoas comuns. Quais ideias factíveis podemos explorar para melhorar a representatividade política.
Que os jornalistas ainda se debrucem sobre o que pensam autoridades que nada tem a acrescentar para o debate público revela a dificuldade que temos de agir com independência, de nos pautarmos com autonomia. Grande parte da responsabilidade por estarmos sem propostas efetivas nesse sentido se deve a esse tipo de jornalismo laudatório que gasta boa parte do tempo buscando informações dentro do poder quando poderia estar incensando uma civilidade transformadora.
Engana-se quem entende que esse tipo de proposta se confunde com militância. Em vez de guerra contra inimigos de classe ou bandidos corruptos, o que está em jogo aqui é a possibilidade de se abrir para uma atitude independente que implica assumir o protagonismo como proponente de mudanças democratizantes.
Numa democracia falha como a nossa, a imprensa é o último, senão o único, bastião que contamos na resistência à privatização do Estado, entendida essa como apropriação dos espaços e instituições públicos por partidos, pessoas e grupos. Abrir mão desse papel de agente da sociedade contra o Estado controlador e sem freios é desistir da função que deveria exercer.



