Kassab apostou na covardia
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (02/04/2026)
Ronaldo Caiado acabou sendo o escolhido para concorrer a presidente no partido do presidente do PSD. Era uma probabilidade mais do que uma possibilidade. Kassab optou por uma democracia de baixa qualidade.
Antes de mais nada é importante deixar claro: democracia de baixa qualidade é melhor do que nenhuma. Ronaldo Caiado nunca tentou golpe contra as instituições. Por mais reacionário que seja, sempre atuou dentro da institucionalidade. Foi deputado, senador, governador e tem legitimidade política para pleitear um cargo de presidente.
Em 1989, participou da primeira eleição presidencial após a redemocratização. Perdeu. Foi sua única participação.
Caiado faz parte do ecossistema da política tradicional brasileira que vive em função das eleições. Além disso, é um nome de enfrentamento mais do que de construção de ambiente de conversação política. Sua aproximação com o bolsonarismo é evidente pela observação de seu comportamento em vários momentos do mandato do ex-presidente e, hoje, quando propõe anistia para os golpistas.
O que provavelmente sustentou a decisão pelo nome que veio a ser escolhido foi o fator eleição dos agentes regionais do partido que foram os consultados e são a base de apoio de Kassab. Um nome alinhado com padrões oligárquicos e que não afeta a chance eleitoral de cada chefe político nos Estados. Além disso, um nome que não representa risco de afetar o eleitorado de Lula. Que o nome para presidente não tenha viabilidade eleitoral não atrapalha esses planos, ao contrário, pode até ajudar nas costuras do segundo turno.
O V-Dem tem uma classificação de sistemas políticos em que caracteriza democracias em transição como democracia eleitoral. Países que têm eleições livres e competitivas, mas que não protegem minorias ou que não tem um funcionamento pleno de freios e contrapesos. O The Economist Intelligence Unit - EIU usa a categoria Democracia Imperfeita e enfoca a questão da governança e da cultura política, e a Freedom House, a categoria Parcialmente Livre, que foca na questão da transição de regime, que pode ir no sentido de mais democracia ou mais autocracia. Independente das categorizações, o Brasil se encontra nesse grau intermediário.
A diferença entre uma candidatura Eduardo Leite e Ronaldo Caiado é que a primeira seria uma aposta na possibilidade de nos alçarmos em vôos maiores para alcançar níveis de confiança entre as pessoas e também entre as instituições. Uma aposta numa transição para mais democracia. A escolha recaiu em alguém que não ajuda a diminuir o risco embutido na polarização que é o sentido de continuarmos caminhando cada vez mais na direção de menos democracia.
Kassab apostou na covardia. Eleger bancada e fortalecer oligarquias regionais é onde transita com desenvoltura. Talvez fosse demais exigir dele aquilo que ele não é.



