Kompromat
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (05/02/2026)
Kompromat. A palavra russa já entrega seu significado. Comprometimento. Segundo a IA Gemini o termo surgiu na Rússia Soviética como uma contração das palavras komprometiruyushchiy (comprometedor) e material (material).
A evidência do termo ressurgiu nos últimos dias com a divulgação de mais documentos dos arquivos de Jeffrey Eduard Epstein, relacionados ao personagem de mesmo nome envolvido nos crimes mais conhecidos de prostituição, pedofilia e tráfico sexual. Se antes referia-se a práticas adotadas pela União Soviética a fim de desestruturar os inimigos externos, hoje continua sendo método empregado pelos herdeiros daquele império, sob a liderança de seu maior líder, Vladimir Putin.
O que as investigações têm apontado sobre o caso Epstein é que os crimes mais conhecidos ocultam outros ainda não revelados em sua real dimensão e que apontam para a participação da Rússia em manipulações de diversas figuras conhecidas do mundo político americano e europeu.
O que o termo revela é a ideia do uso de táticas de neutralização de adversários e conexão de atores políticos envolvidos usando ferramentas que podem comprometer a reputação dos agentes. Como se sabe a partir do que já foi revelado, Epstein usava câmeras e instrumentos de espionagem em todos os recintos de suas instalações onde recebia personagens ilustres do mundo político e empresarial com o objetivo de comprometê-las e fazê-las servir a seus objetivos de criação de redes de contatos e influências.
O Kompromat se tornou célebre como ferramenta de manipulação com os comunistas soviéticos na guerra fria. A disseminação de seu uso por Putin e oligarcas que o cercam revela como o instinto de guerra está presente na sociedade russa. A julgar pelos nomes já revelados e que figuram como elos importantes construídos pela rede de Epstein, o uso da tática de comprometimento evidencia o quanto a política pode ter sido contaminada por esse instinto.
Trump, Steve Bannon, Marine Le Pen, Salvini e Orbán são só alguns dos mais conhecidos. Mas o método pode não ser exclusividade da extrema-direita. O populismo não tem coloração ideológica quando o objetivo é ganhar eleições. O que o Kompromat faz e os arquivos de Epstein revelam é literalmente comprometer atores espalhados em diversos países com objetivo de desestruturar sociedades democráticas por meio de uma ligação com o principal agente a instruí-los, a Rússia.
‘Os estrategistas do Kremlin gradualmente perceberam que “kompromat” é muito mais do que um meio de controlar líderes estrangeiros. É o equivalente a uma arma nuclear contra democracias: tudo o que você precisa fazer é arrastar todas as elites, políticos, empresários, estudiosos e clero pela lama para que as instituições representativas percam sua razão de ser’ (*).
A sofisticação das armas usadas pelos russos na nova guerra mundial que se instala contrasta com o nível de pobreza em que a população russa vive. Fosse só a economia o motor da história, o material revelado pelos arquivos Epstein seria algo anedótico a ilustrar o teatro das nações. A eleição de Trump e a complexidade da rede de relações criadas através da conexão Epstein demonstra, pelo contrário, o quanto personagens reais podem alterar o curso dos acontecimentos.
Nota
(*) Thom, Françoise (30/07/2025). A Fossa e o Caos: a Conexão Russa no Caso Epstein.



