Lavajatismo como marca
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (12/03/2026)
Lembro bem da operação lava-jato. Qualquer brasileiro em idade adulta deve se lembrar, acredito. Muita revelação ali, das partes escondidas do poder.
Obviamente uma parte expressiva da população não acreditava ou não queria acreditar no que foi apurado ali. O comportamento dos protagonistas Moro e Dallagnol aderindo ao governo Bolsonaro não ajudou a desfazer essa crença, pelo contrário cristalizou uma versão que pode ser resumida como uma conspiração de grupos com interesse na derrubada de Lula e seus próceres do socialismo.
Houve instrumentalização política da operação sim, mas a disseminação de uma teoria conspiratória onde grupos oligárquicos e poderosos atuam contra um ‘representante das massas’ não elimina as evidências do mal feito envolvendo o principal líder petista e seus braços empresariais. O desastre do mandato de Jair Bolsonaro é que criou o ambiente propício para que essa versão preponderasse e servisse como suporte à volta do ‘ungido pelo povo’.
Mesmo que esse ‘povo’ só tenha ultrapassado numericamente nas eleições de 2022 com pouquíssima margem de diferença o ‘povo’ do lado de lá, a narrativa se reinstalou como modo de enxergar o mundo no qual há um lado garantidor da democracia e outro que o ameaça. A ideia de que democracia é questão de lado passou a nortear a percepção de atores vinculados ao governo envolvendo escolhas políticas.
A aparição do Supremo Tribunal Federal como aliado político do governo se deu nesse contexto. O juiz delegado que passou a operar como agente punidor daqueles representantes do chamado outro lado virou herói improvável na luta pela consolidação do poder ‘dos oprimidos’, ‘dos democratas’.
Agora, informações aparecem evidenciando o envolvimento do mencionado ministro do Supremo com um banqueiro preso em operação da Polícia Federal, e o gatilho do ataque ‘ao meu lado’, ‘ao lado da democracia’ aciona o modo de pensar de um raciocínio que se lastreou na ideia de que democracia é questão de lado. O lavajatismo é identificado como marca denegridora daqueles que pedem por apurações. Marca que facilmente é associada por qualquer militante à direita reacionária, aos interesses dos poderosos, contra a democracia.
Uma jornalista dedicada a investigar esquemas de poderosos, com livro publicado sobre o assunto inclusive, vira representante da imprensa lavajatista. A máquina de destruição de reputações é acionada como um rastilho. Nem é um fenômeno fabricado por robôs e alimentado artificialmente, apesar de também ser. A lógica é facilmente acionada com o pressuposto da ideia de que a democracia é uma questão de lado.
Se você ataca o representante da democracia, ora essa, você ataca a democracia. A representação de uma ideia abstrata como democracia só pode ser traduzida na figura de alguém que diz defendê-la. O outro lado defende o golpe ou são falsários a serviço do poder opressor.
Triste nisso tudo é que perdemos uma oportunidade de colocar em pauta questões relacionadas à melhoria da representação política, a sistemas mais eficientes de freios e contrapesos. Pautas que agradariam a qualquer democrata, menos àqueles que, pelo jeito, só estão interessados na manutenção de um projeto de poder.



