Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós
“Liberdade! Liberdade! Abre as Asas sobre Nós” foi o enredo apresentado pela Imperatriz Leopoldinense no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro do carnaval de 1989.
Walter Alberto Topfstedt, Inteligência Democrática (12/06/2026)
Temos um hino onde está expresso o nosso mais sincero e singelo sentimento coletivo. Só que não nos damos conta disso.
Evitamos — ou mesmo rejeitamos — as amarras de um processo mais “rígido”, sem alternativas; ou melhor, em certos casos, preferimos nenhum processo. Adoramos viver em liberdade, e isso está expresso em nosso cotidiano: no comportamento, na cultura, na arte, na moda e na sociedade. Os estrangeiros percebem essa dinâmica e também se contagiam com a vibração coletiva.
A maioria da população procura soluções imediatas no cotidiano, sem um planejamento a médio ou longo prazo. A realidade acaba por exigir de cada um que utilize caminhos “alternativos”, pois o cenário é truncado e funciona, muitas vezes, por trás das cortinas. Assim, se levarmos em conta que o valor maior de uma democracia é a liberdade, podemos considerar que, de uma forma ou de outra, nós, brasileiros, sempre fomos democráticos, mas não sabíamos.
Quinze anos após o pós-Guerra, nos Estados Unidos, o movimento hippie pregava praticamente o mesmo: “Amor e Paz” e “Faça amor, não faça a guerra”. Seus membros queriam contestar a “sociedade ocidental capitalista” e viver de forma libertária. No Brasil, a versão local desse movimento teve uma adaptação até no nome: “Tropicalismo”. Nele, as mesmas ideias e ideais foram adaptados à nossa versão de liberdade, inclusive com um grande hit musical baseado nesse conceito, de autoria de Caetano Veloso: “É Proibido Proibir”.
Se a liberdade está em nosso DNA e ela é o valor central de uma democracia, essa configuração acaba por gerar exatamente o ambiente de ambiguidade e ambivalência — entre liberdade e regulação — que é o oceano no qual nós, brasileiros, navegamos com desenvoltura para fazer análises históricas, antropológicas, econômicas etc.
Menciono a ambiguidade e a ambivalência pois, como em outras nações, temos nossos bolsões conservadores que, assim como valorizam e usufruem da liberdade, também operam dentro de uma lógica hierárquica, de controle e de manutenção ou mudança gradual. Um mínimo de regulação é necessário, mas onde está o equilíbrio para se ter uma sociedade produtiva e criativa depende de o ambiente democrático ser constantemente ajustado. Isso também pode ser comparado a outras regiões do globo, pois a dicotomia entre livre interação e comando-controle existe em várias nações.
O sociólogo Domenico de Masi, como o psicanalista Jorge Forbes sempre menciona, proferiu a máxima de que “gostaria de acompanhar como o Brasil encontrou as soluções para a convivência na globalização”. Essa frase já tem um certo tempo, mas o seu mais profundo significado — ao menos para mim, que agora (só agora) consigo “perceber” que as coisas têm “várias camadas” de significados — é o de liberdade de ser e fazer, que representa a nossa realidade histórica e contemporânea, cada uma dentro de seu contexto e “espírito do tempo”.
Jorge concebeu o conceito de “Terra 2”, no qual o mundo físico continua o mesmo, mas as dinâmicas de interação social se transformam a todo momento, complementando um pouco o conceito de “modernidade líquida” do filósofo polonês Zygmunt Bauman. Ele elenca a globalização como sendo uma forma “feminina” de atuar no mundo, apresentando vários tópicos do que seriam os tempos “verticais” ou “lineares” em contraponto com o hoje, em tempos “líquidos” e mais “horizontais”.
Foi dele, aliás, talvez a mais técnica, acadêmica e psicanalítica definição do “jeitinho” brasileiro: “um povo que sabe organizar a dispersidade de uma satisfação despadronizada”, mencionada durante sua apresentação em um Café Filosófico da CPFL, com o tema “A Globalização é Feminina”.



