Lula não é de esquerda?
Desmascarando a enganação de Lula
No artigo de hoje (15/08/2026), na Folha de São Paulo, Demétrio Magnoli, que acerta em muitas coisas, errou desta vez em um ponto: ao endossar a malandragem de Lula de dizer que não é de esquerda.
Ele é. Se não fosse, não teria topado entrar no Foro de S. Paulo (não se venha questionar: eu estava de corpo presente na reunião de fundação do Foro, no Hotel Danúbio, na Brigadeiro Luis Antônio, em São Paulo, nos idos de 1990): uma articulação de partidos da esquerda revolucionária e populista da AL articulada por Fidel em operação com o G2 cubano e Marco Aurélio Garcia.
Se Lula não fosse de esquerda, não teria escolhido priorizar alianças, não com as democracias liberais da Costa Rica, do Chile e do Uruguai e sim com as ditaduras de Cuba, Venezuela e Nicarágua e com os governos neopopulistas, muitos de raízes marxistas, da Bolívia, da Argentina, do Equador, de Honduras, de El Salvador, do Paraguai, da Colômbia, do México.
Ora… Evo Morales e Luis Arce da Bolívia não eram de esquerda? Cristina Kirchner e Alberto Fernández da Argentina não eram de esquerda? Rafael Correa do Equador não era de esquerda? Manoel Zelaya e Xiomara de Honduras não eram de esquerda? Maurício Funes e Salvador Cerén de El Salvador não eram de esquerda? Fernando Lugo do Paraguai não era de esquerda? Gustavo Petro da Colômbia não era de esquerda? López Obrador e Cláudia Sheinbaum do México (aliás, a única governante de esquerda aliada de Lula que sobrou) não é de esquerda? Se não eram (ou não são) de esquerda, foram (ou são) o quê então? Populistas de direita? Democrata-liberais de centro? Quem acredita nisso?
Isso para não falar dos ditadores Fidel Castro, Raul Castro e Diáz-Canel de Cuba (marxistas-leninistas), de Nicolás Maduro da Venezuela e de Daniel Ortega e Rosário Murillo da Nicarágua. Esses também não são de esquerda?
Pois é. Lula e o PT apoiaram todos esses populistas e ditadores… de esquerda! Mas, por algum motivo, ele mesmo não seria de esquerda? Não faz sentido.
Se Lula não fosse de esquerda, não estaria alinhando o Brasil ao eixo autocrático - Rússia, China, Irã etc. - contra as democracias liberais. Não teria ficado do lado do ditador Vladimir Putin na sua guerra de invasão da Ucrânia e nem teria tentado ridicularizar Zelensky. Não teria justificado a atuação dos grupos terroristas Hamas e Hezbollah como legítima resistência ao colonialismo genocida de Israel. Não estaria pronto para apoiar o ditador Xi Jinping no seu projeto de anexação da democracia liberal de Taiwan.
Se Lula não fosse de esquerda, não teria concordado em dividir o poder do PT nascente com os revolucionários marxistas que voltaram do exílio, sairam da prisão ou emergido da clandestinidade (eu, inclusive).
Mas há algo ainda pior. Lula não é de esquerda como é dita de esquerda uma social-democrata como Mette Frederiksen da Dinamarca. Ou como foi Gabriel Boric do Chile; ou mesmo como é Yamandú Orsi do Uruguai, que também governaram ou governam regimes democrático liberais. Essa história de que Lula é social-democrata foi uma invenção dos universitários que querem incensar seu edulcorado líder e salvar o PT de si mesmo (e que acham que entendem qualquer coisa do PT). Não! Lula é da esquerda populista que parasitou os regimes políticos da América Latina desde o início do presente século e que agora está em franco declínio.
Claro que, para conquistar mais um mandato presidencial, Lula falará qualquer coisa. Somente nesse estrito sentido ele não é de esquerda: entre se manter no poder e se dizer de esquerda, ele ficará com a primeira opção, pois é - antes de tudo - um populista oportunista eleitoreiro. Ou seja, ele é de esquerda, mas não terá nenhum problema em dizer que não é para vencer qualquer eleição, enganando o distinto público.
Entretanto, não é aconselhável, para um analista, repetir suas enganações. Segue o artigo do Demétrio (que acerta em vários outros pontos e deve ser elogiado pelos seus acertos).
Lula, a última valsa
Demétrio Magnoli, Folha de São Paulo (15/08/2026)
A campanha do presidente tornou-se o guarda-chuva sob o qual articula-se a paz entre o Congresso e o STF, para que tudo permaneça como está
O PT veste vermelho, quando concorre para marcar posição, alternando às cores nacionais quando crê no triunfo. Lula vestiu branco, sob o fundo de uma bandeira verde-amarela, na convenção de lançamento de sua sétima candidatura presidencial. "Lulinha porreta", como se exibiu? Não: isso foi dirigido à militância. O sétimo Lula é o candidato da "ordem".
"Ordem", aí, com aspas. O certo é candidato do status-quo, ou seja, da desordem institucional. Sua campanha tornou-se o guarda-chuva sob o qual se articula a paz entre o Congresso e o STF, para que tudo permaneça como está.
Desde que Jair ungiu Flávio, delineia-se a reeleição de um presidente assombrado por crônica rejeição majoritária, que resiste às "bondades eleitorais" oferecidas às custas do endividamento público. As conexões de Flávio com o Master e sua submissão absoluta à Casa Branca foram lidas pela direita como atestado de óbito.
Daí, seguiram-se a retração de Tarcísio de Freitas à fortaleza paulista e a confirmação das candidaturas especulativas de Caiado e Zema, que sonham herdar a base eleitoral bolsonarista na hipótese de implosão do pretendente bolsonarista. Mas, sobretudo, o centrão extraiu do cenário a conclusão lógica de que deve concentrar seus esforços na apropriação do tesouro depositado no cofre das emendas parlamentares.
União Brasil, PP e Republicanos, principais partidos do centrão, assim como o MDB, declararam neutralidade no plano nacional e "flexibilidade" nas disputas estaduais. Hugo Motta, presidente da Câmara, fez suas contas antes de pronunciar o veredicto: "Lula é o presidente que converge com aquilo que pensamos ser o melhor para o país". Tudo indica que Alcolumbre, seu colega do Senado, siga na mesma direção.
O "país" mencionado por Motta não é o Brasil das ruas, mas um Brasil oficial vergado pelo desequilíbrio institucional. Seu objetivo é conservar a inflação de poderes do Congresso –isto é, o sequestro legalizado da prerrogativa de desviar recursos públicos para as bases dos parlamentares. Sob um governo Lula 4, isso solicita uma reconciliação com o STF, cuja maioria alinha-se ao presidente.
O STF reagiu à operação golpista de Jair Bolsonaro pela ampliação de seu próprio poder. Os juízes supremos gostaram e, passada a situação excepcional, prosseguiram a escalada. Censuram ilegalmente, indiciam arbitrariamente, ameaçam o sigilo de fontes jornalísticas, legalizam rendas abusivas do Judiciário, protegem seus colegas das investigações policiais no caso Master. Hoje, precisam evitar uma retaliação do Congresso que emanará das urnas. Lula, Alcolumbre e Motta surgem como intermediários na costura de um pacto de elites: as emendas em troca dos poderes excessivos dos juízes de capa preta.
O "Lulinha da dona Lindu" nunca foi de esquerda, algo que ele mesmo admite. No terceiro mandato, seu reformismo brando dissolveu-se em mera irresponsabilidade fiscal populista. Sua campanha atual, valsa derradeira, baseia-se em duas negativas: não ao autoritarismo dos Bolsonaro, em nome da democracia; não ao neoimperialismo de Trump, em nome da bandeira auriverde. Dois "nãos", nenhum "sim".
"Vai ter briga com emenda parlamentar", prometeu Lula no palanque da convenção. Esqueça: aos 80, o fiador do pacto das instituições representa uma ordem imune à mudança e carente de amparo popular.



