Mercado eleitoral
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (12/02/2026)
O mercado eleitoral categoriza os produtos/candidatos em vieses ideológicos. Direita e esquerda são elementos dominantes quando o assunto é análise política dado que o componente eleição é fundamental nas democracias hoje existentes.
Ocorre que o mercado eleitoral não substitui a sociedade e o interesse das pessoas comuns. Se eleições são suficientemente reconhecidas como procedimento de averiguação dos interesses isso não quer dizer que seja imune a defeitos sujeitos a correções.
Essas correções devem acontecer no sentido de garantir um controle maior da sociedade contra o poder, o que vou chamar de inovação. Mas nem sempre essas correções ocorrem nesse sentido, no entanto.
Não são poucos os exemplos de regimes que adotaram práticas que dificultaram o acesso da oposição ao poder. Para aproveitar um caso recente, as medidas que Trump tenta adotar nos Estados Unidos para redividir distritos visa aumentar a chance dos republicanos vencerem as próximas eleições, não tem nada a ver com inovação.
Erdogan, na Turquia, Orban, na Hungria, são exemplos de autocratas que usaram e usam o poder para corrigir o processo eleitoral no sentido que os favoreçam. O mencionado mercado eleitoral nesses países está bastante viciado a ponto de garantir vantagem desigual a detentores do poder, tornando esses países regimes já não considerados como democracia pelos institutos que aferem graus de liberdade política.
Dito tudo isso, a análise política e o jornalismo político precisam prestar mais atenção a outras categorias além de esquerda e direita, que diz muito sobre o mercado eleitoral existente, mas não sobre o tipo de correção que esse mercado eleitoral precisa sofrer para tornar menos desigual a disputa em relação aos detentores de poder e, principalmente, evitar que descambe para um caminho autocratizante.
Num cenário hipotético em que eleições são substituídas parcial ou totalmente por sorteio, que já foi usada na Grécia e tem sido adotada paulatinamente em algumas democracias liberais, cabe imaginar se faria algum sentido a divisão entre esquerda e direita. Na análise política hoje, parece que não conseguimos relativizar essa lógica e colocá-la sob outros parâmetros vinculados ao impulso por mais democracia ou menos.



