Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (20/08/2026)
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, afirmou que “não se pode transformar a demolição de instituições em método de atuação política, de propaganda pessoal e de patrocínio de interesses privados e segmentos econômicos”. Para emendar, finalizou: “Estamos atentos” (1).
É muito bonito um servidor, mesmo que no alto de sua posição hierárquica, defender as instituições públicas contra “interesses privados e segmentos econômicos”. O problema é esse servidor ter o poder que tem e ainda dizer: “Estamos atentos”.
Aqui estamos tratando de um servidor público qualquer, que trabalha no dia a dia da repartição e conhece os meandros dos interesses que ameaçam o bom atendimento às pessoas, sem distinção de classe social, gênero ou posição hierárquica? Ou trata-se de um graduado funcionário, com autoridade de representação política de uma instituição bastante questionada, que vem a público defender o interesse de uma corporação?
O ponto nevrálgico da declaração do ministro é esse alerta: “Estamos atentos”. É, mal comparando, o oposto daquele comercial antigo: parece uma ameaça, e é!
Diz a lenda republicana que o bom servidor não precisa apenas ser honesto, mas também parecer honesto. Um bom democrata, diria eu, também tem que parecer e ser democrata.
Ora, o que significa dizer “Estamos atentos” com relação ao que os candidatos vão dizer? Significa que aquilo que eles disserem, se for considerado ofensivo pela autoridade do Poder Judiciário, será censurado? Ou seja, uma autoridade tem o poder de definir o que se pode ou não dizer à população, antes mesmo de ser dito?
Minha opinião pessoal vale quase nada: tenho poucos leitores e nenhuma influência política. Só que, mesmo sendo um sussurro, continuarei a emiti-la. E a minha opinião é que o ministro parece ter compromisso apenas com a sua corporação. No fim das contas, parafraseando a famosa propaganda, ele pode até ser um ‘ministro bem-intencionado’ — mas a história política nos lembra que não há nada mais perigoso para a liberdade do que o poder absoluto exercido sob o pretexto de boas intenções.



