Mudanças moleculares
Os efeitos invisíveis das manifestações sociais
No artigo Manifestações de rua não dão em nada? (publicado aqui e aqui em 26/01/2026) falei das possíveis “mudanças moleculares” que grandes manifestações de rua provocam, mas que só aparecem muito depois e, por isso, dão a impressão de que não tiveram nenhum (ou pouco) efeito. Neste artigo vou tratar mais diretamente dessas mudanças.
Há muita confusão entre mudanças políticas e mudanças sociais que, talvez, tenha a ver com uma incompreensão do que chamamos propriamente de ‘social’. E há ainda um grande desconhecimento sobre o funcionamento das redes sociais propriamente ditas (e é bom não confundi-las com as mídias sociais: redes sociais são pessoas interagindo, enquanto estão interagindo, por qualquer meio - não plataformas, programas, algoritmos, tecnologias, dispositivos). É disso que vou tratar neste artigo, que deve ser visto como uma segunda parte do anterior.
As manifestações de rua, por maior tamanho que tenham, na maior parte dos casos, desencadeiam modificações na sociedade, não nos regimes políticos. Não tomam o poder - a menos que haja uma força organizada para tal no seu interior; ou dissensões graves nas forças que conduzem ou apoiam o regime; ou, ainda, ameaça externa de uma força superior beligerante. Como, na maior parte dos casos, não tomaram o poder, não derrubaram governos, então muitos analistas decretam que não tiveram efeito ponderável.
Comecemos com alguns exemplos do que manifestações sociais provocam (ou podem provocar) nas sociedades onde ocorrem.
Elas aumentam a confiança, a cooperação, a reciprocidade e a solidariedade entre os que se manifestam.
Elas inaguram novas práticas comunitárias que estão na base da democracia como modo-de-vida. Ampliam as conversações com novos interlocutores confiáveis e aumentam a frequência dessas conversações quando se faz necessário mobilizar e organizar a ação coletiva.
No limite, elas podem ser embriões daquele “governo comum” - ou do ‘common government’, associado à ‘grassroots democracy’ - de que falava Jefferson ou daquele “governo civil” de que falava Tocqueville.
Elas permitem que as pessoas reconheçam e valorizem o seu próprio modo de vida quando esse modo de vida está sendo ameaçado por interferências abusivas de um poder exercido top down.
Quando são gigantes - ou verdadeiros swarmings - elas tornam visível a dimensão do poder que a sociedade tem quando não está fragmentada em indivíduos, grupos ou tribos isolados ou com poucos atalhos entre si. Os manifestantes são, em geral, os primeiros a se surpreender com isso. Mas é o principal recado que elas enviam ao poder estatal.
Elas aproximam pessoas que não se relacionavam diretamente por pertencerem a clusters ou tribos diferentes, dando a base de um sentido comum para que possam interagir. Promovem assim uma oportunidade de “miscigenação cultural” entre pessoas de diferentes extrações ou profissões: histórias de vida, classes sociais, gêneros, etnias, nacionalidades, idade, escolaridade, tipos de trabalho e posições funcionais etc.
Elas aumentam a desconfiança no governo, sobretudo quando há repressão. Esse é um “gene” liberal importante: nas democracias (liberais ou plenas) a sociedade deve controlar o governo e não ser controlada por ele.
Elas ficam marcadas na memória coletiva (dos que participaram e dos que viram o fenômeno acontecer) como um atestado indelével de que, sim, é possível. Como dizia Václav Havel, elas são o poder dos sem-poder.
Mas elas são a expressão de um outro tipo de poder. É óbvio que o poder do Estado - em termos de força para normatizar comportamentos, exercer controle, conquistar alinhamento e submissão, conter e reprimir descontentamentos - é assimétrico em relação ao poder da sociedade. Tal comparação, porém, é inadequada porque não são o mesmo tipo de poder. O poder do Estado é vertical e se exerce pela sua capacidade de alterar a topologia e a dinâmica da rede (a rigor excluindo nodos, eliminando conexões ou cortando atalhos entre clusters). O poder da sociedade é um poder horizontal. Opera por contágio (como na reprodução bacteriana, em que o material genético não está aprisionado em um núcleo e se transfere de um doador a um receptor por uma ponte citoplasmática). É um poder de rede, de transmissão de influência.
Grandes manifestações sem coordenação centralizada, quando acontecem, são manifestações da fenomenologia da interação em mundos altamente conectados, ou seja, fenômenos próprios de redes sociais stricto sensu (não confundir isso - insista-se - com mídias sociais). Ou reconhecemos que existe rede realmente e entendemos a sua estrutura e o seu funcionamento ou não há como explicar as mudanças moleculares provocadas por protestos de rua e manifestações sociais em geral.
Aqui começa a nossa conversa. Basicamente, é necessário compreender:
Como as pessoas se aglomeram (clustering).
Como uma aglomeração enxameia (swarming).
Como as pessoas, sem intenção de imitação, reproduzem comportamentos que percebem em outras pessoas (cloning).
Como, quando esses fenômenos ocorrem, o mundo social se contrai, diminuindo a extensão característica de caminho e fazendo despencar os graus de separação (crunching).
Como tudo isso pode começar a partir de uma pequena perturbação, mesmo que parta da periferia do sistema (feedback positivo e múltiplos laços de retroalimentação de reforço).
Como, cada vez que rodam com o sistema aparentemente parado, os impulsos se potencializam (looping de recursão) e tudo reverbera.
Responder essas questões é o desafio para um terceiro artigo.



