Não existe populismo de esquerda?
Por que jornalistas, analistas e acadêmicos de ciência política têm tanta dificuldade de entender o PT
Jornalistas, analistas e acadêmicos de ciência política conseguem perceber, com alguma facilidade, ameaças golpistas à ordem democrática, mas têm imensa dificuldade de entender a natureza de uma estratégia hegemonista (que não quer destruir as instituições e sim ocupá-las e fazer maioria em seu interior para colocá-las a serviço de um projeto particular - e privado - de poder). Em outras palavras, compreendem o perigo do populismo de direita (ou extrema-direita), mas não o perigo do populismo de esquerda (muitas vezes nem reconhecendo a sua existência).
Mas como dizer que Chávez e Maduro, Ortega e Murillo, Lula e Dilma, Morales e Arce, Correa, Cristina e Fernandez, Funes e Cerén, Lugo, Petro, Manoel e Xiomara Zelaya, Obrador e Cláudia não foram ou são populistas?
Analfabetismo democrático, falta de experiência política e alinhamento ideológico
Em primeiro lugar, isso ocorre porque predomina nesses meios uma visão precária de democracia (reduzida à eleições, ao império da lei ou Estado de direito, não raro igualada à cidadania ou até à soberania).
Em segundo lugar porque jornalistas, analistas e acadêmicos da política não têm experiência política suficiente para detectar sinais fracos e pequenas alterações na correlação de forças que podem levar à degradação da democracia liberal (ou dificultar que regimes democráticos eleitorais alcancem a condição de democracia liberal). São habilidades e competências que dificilmente podem ser adquiridos apenas pelo acompanhamento de notícias diárias, pela leitura de teses universitárias ou pelo debate teórico de salão.
Para resumir, esses atores (jornalistas, analistas e acadêmicos) raramente são quadros políticos. Bastaria fazer uma pesquisa nesse universo com perguntas simples para verificar quantos já organizaram comunidades políticas democráticas ou, na medida em que a política vem sendo praticada como continuação da guerra por outros meios, quantos já fundaram ou dirigiram algum partido ou organização política como destacamento de combate em condições adversas que ameaçam a sua vida ou a vida de parcelas da população. O resultado dessa investigação revelará que esses atores, em sua maioria, não têm aquela experiência prática suficiente para ser dirigentes políticos e, mais importante do que isso, para entender o que está em jogo em cada instante e quais as linhas temporais mais prováveis de evolução da conjuntura política nos curto, médio e longo prazos.
Para dar um exemplo, ao analisar uma determinada correlação de forças numa democracia formal eles superestimarão potenciais eleitorais dos atores políticos e subestimarão os movimentos que indicam quem está na ofensiva política. Desprezarão ou não considerarão os graus de hegemonia conquistados por uma força política nas instituições do Estado e da sociedade ou seu nível de enraizamento social. Se guiarão por pesquisas de opinião sem entender que a opinião pública não é a soma das opiniões privadas da maioria e nem como se forma, por emergência, a opinião pública; e, mais importante ainda, não saberão como fermentar o processo de formação de uma opinião pública democrática (o papel precípuo dos agentes democráticos) ou de uma opinião pública avessa à democracia como valor universal (como pretendem tanto forças golpistas quanto forças hegemonistas, embora por caminhos diferentes).
Não basta a inteligência e nem os títulos que atestam a capacidade de absorver e reproduzir conhecimento ensinado. Como no exercício da medicina o que conta é a experiência clínica, aquela condição que se alcança em anos de observação sistemática de sinais que não estão nos livros, não se revelam diretamente pelos resultados de exames e que levam à apreensão holística do significado do conjunto de sintomas e estados do paciente.
Em terceiro lugar, isso ocorre por força de alinhamento ideológico. Jornalistas, analistas e acadêmicos das áreas de humanas foram formados em universidades, onde professores e alunos, em sua maioria, reproduzem a visão da esquerda, de raízes marxistas ou identitaristas. A academia é um dos campos de conquista de hegemonia da esquerda populista.
Então, quando assistimos as interpretações (e os vaticínios) de jornalistas, analistas e especialistas políticos, devemos dar um desconto. Em geral, a rigor, eles não entendem bem do que estão falando ou estão tomando partido. Frequentemente acham que basta não ser golpista para ser democrata. Ou de que basta ser antifascista para ser democrata, sem ver que boa parte dos ditadores atuais de esquerda ou socialistas (como Canel de Cuba, Ortega da Nicarágua e Xi Jinping da China) são antifascistas.
É por tudo isso que, via de regra, alertam para os perigos da extrema-direita populista (nacional-populista) para as democracias, mas se abstêm de apontar os perigos da esquerda populista (neopopulista). E é por tudo isso que jornalistas, analistas e acadêmicos de ciência política têm tanta dificuldade de entender o PT.




