O jornalismo fala de Ala Moraes x Ala Mendonça. Mas ontem, na sessão do STF - que deveria abrir uma investigação sobre Alexandre de Moraes diante das gravíssimas evidências de ter enriquecido com dinheiro dos crimes do Master e atuado como uma espécie consigliere da máfia de Vorcaro - ficou claro que não existe tal "Ala Mendonça". Fachin e Carmem não são de ala nenhuma. Kassio foi chantageado e se acovardou. Fux e Mendonça não se alinham politicamente e não são suficientes para formar uma ala. Só há uma ala: a facção governista.
Já não é apenas de polarização que se trata. É de divisão e de avanço de uma facção oficial autoritária contra dissidentes. Mendonça, como um dissidente na Venezuela de Maduro, ficou sozinho e foi humilhado e massacrado pela facção composta por Moraes, Gilmar, Dino e Zanin.
Sob o comando dessa facção governista, o STF já se comporta como um tribunal venezuelano. Quem diverge dessa facção passa a ser encarado como um dissidente numa ditadura: será ameaçado, chantageado, humilhado, inculpado e destruído.
Quer dizer que o PT conseguiu transformar o STF num tribunal venezuelano (aquele que existia muito antes de Trump capturar Maduro). Esse é o perigo real. Não a hipótese delirante, espalhada por socialistas e "progressistas" desonestos, de que temos de reeleger Lula, do contrário Trump converterá o Brasil num protetorado americano.
Socialistas (como Flávio Dino) e liberais sem espinha-dorsal (mas por enquanto não vou citar os nomes) começaram a envenenar a opinião pública com a hipótese de que Trump vai fazer no Brasil o que fez na Venezuela. A mensagem é clara: não temos alternativa a não ser votar em Lula.
É um espantalho! Não é crível a hipótese de que tal possa acontecer num país com o tamanho e a complexidade do Brasil. E se Trump quisesse mesmo fazer isso, como Lula seria capaz de resistir? Colocando nas ruas o exército do MST? Prestando vassalagem à China e pedindo ajuda às ditaduras amigas do BRICS?
Sim, alguns ditos liberais estão fazendo a mais solerte campanha Lula. Evidenciam o perigo de Flávio chegar à presidência e não falam uma palavra sobre o perigo do PT continuar no governo. É uma campanha de nicho, dirigida àqueles 10% de moderados que podem decidir a eleição.
Mas passemos à conclusão sobre o que aconteceu ontem (15/09/2026), naquela que os meios de comunicação rotularam de uma “sessão histórica” (mas só se for da história universal da infâmia). O STF não entrou no mérito do envolvimento criminoso de Moraes com Vorcaro. Não deu a resposta que devia à sociedade brasileira. Admitiu uma manobra protelatória vergonhosa para não investigar Moraes. E, como consequência, levou a corte a se afundar ainda mais na própria lama. Paradoxalmente, tudo isso pode acabar repercutindo negativamente na campanha Lula. A ver. Talvez o impacto não seja mensurável na próxima semana, mas em 10 a 15 dias sim. E o impacto vai alcançar os anos vindouros, seja qual for o resultado eleitoral.
Não se enganem. Do ponto de vista político só havia um tema em tela. O julgamento que teve seu anticlímax ontem no STF foi sobre até que ponto a abertura (ou não) de investigação sobre o escândalo de Moraes terá o potencial de interferir negativamente na reeleição de Lula.
Fala-se muito que o STF está em crise. Mas a crise, na verdade, é da estratégia petista de conquista de hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido para se delongar no governo indefinidamente, espancando a rotatividade ou alternância democrática. Essa estratégia de ocupar as instituições numa boa (até esvaziá-las transformando-as numa casca, como está acontecendo com o STF) para perpetrar o equivalente a “um golpe em doses homeopáticas” mostrou que está em vias de esgotamento. O PT recalcitra nisso há mais de 30 anos. Quer fazer maioria em todo lugar: no condomínio residencial, no grêmio estudantil, nos departamentos acadêmicos, na diretoria da escola de samba ou do time de futebol de várzea e - por que não? - no STF. Para tanto, organiza seus militantes em facções para lutar, lutar, lutar. Mas chega uma hora em que as facções começam a exorbitar - seja adotando práticas autoritárias, seja roubando e praticando outros crimes - e aí fica tudo insustentável.
Uma força constituída na base do "nós contra eles" só podia dar nisso. Não me refiro ao ocorrido ontem, no STF. E sim ao que ocorre desde o início do século. Tudo virou uma questão de lado. Não há mais o que é certo e errado. E sim quem está do lado certo contra o lado errado. Ou seja, quem está do lado certo (o lado do PT), pode agir errado, pois o que importa é que já está absolvido preventivamente de qualquer erro, falha moral ou crime. Por que? Ora, por estar no lado certo.
É grave! Será impossível a manutenção da democracia no Brasil nessas circunstâncias. Sobretudo se Alexandre de Moraes, além de ser inocentado preventivamente, assumir a presidência do STF em 2027. E Lula, se for reeleito, nomear mais quatro "Dinos" para a suprema corte. Já imaginaram?



