Não há democracia sem democratas, sentenciou o saudoso Ralf Dahrendorf em meados dos anos 90. Mas é preciso fazer uma distinção importante.
Muitas pessoas concordam com a democracia (como o melhor regime político) ou a aceitam (como o menos pior). Essas pessoas podem ser chamadas de democratas, porém no sentido passivo do termo. Deve-se distingui-las, entretanto, dos democratas no sentido ativo do conceito, que são os agentes democráticos.
O que fazem os agentes democráticos?
1 - Se opõem e resistem a qualquer tirania (seja dita de esquerda ou de direita, religiosa ou laica) e às tentativas de autocratização do regime democrático (quer pelo golpismo, quer pelo hegemonismo - que leva à erosão lenta e gradual do regime, como se fosse um golpe de Estado em doses homeopáticas).
2 - Recusam a guerra como modo de regulação de conflitos (e não praticam a política como continuação da guerra por outros meios): repudiam o majoritarismo, o hegemonismo e o “nós contra eles” (que transforma adversários em inimigos), pois política não é guerra e sim evitar a guerra.
3 - Ajudam a fermentar o processo de formação de uma opinião pública democrática (que não é a mesma coisa do que a soma das opiniões privadas dos cidadãos).
Os agentes democráticos compõem uma ínfima minoria quando comparados aos que concordam ou apenas aceitam a democracia em qualquer sociedade, inclusive naquelas onde vige uma democracia liberal ou plena. São o fermento, não a massa.
Os principais agentes da primeira democracia - Clístenes, Efialter, Péricles, Aspásia, Protágoras e outros sofistas - foram minoria em Atenas. Dois milênios depois, os democratas continuaram sendo minoria quando a democracia fez acenos de que ia renascer: no parlamento inglês dos Bill of Rights do século 17, na revolução americana do século 18, na revolução francesa também do século 18 (onde parece que o único democrata identificável era um americano em missão diplomática: Thomas Jefferson).
Até que a democracia renasceu de fato com a primeira democracia liberal que surgiu na mundo, na Suíça do século 19 (em 1849). E depois, na condição de democracia liberal ou apenas eleitoral: na Austrália (em 1858), na França (em 1874), na Nova Zelândia (em 1887), na Dinamarca (em 1902), na Islândia (em 1904), na Noruega (em 1906), na Holanda, na Finlândia e na Argentina (em 1918), na Inglaterra e na Alemanha (em 1919), no Uruguai (em 1920), nos Estados Unidos e no Canadá (em 1921). Durante toda essa primeira onda de democratização, os democratas foram minoria.
Bem... depois vieram mais duas ondas de democratização: a segunda (1945-1961) e a terceira e última (1989-1999). E os democratas continuaram sendo minoria.
Mas como isso é possível? Como podem ter surgido todas essas democracias, estando sempre em minoria os agentes democráticos?
Pois é, eram minoria, mas em número suficiente para resistir às tiranias, recusar a degeneração da política como continuação da guerra por outros meios e fermentar o processo de formação de uma opinião pública democrática.
Se não houver um número crítico (mínimo) de agentes democráticos: a) a democracia entra em processo de autocratização; ou b) o processo de democratização fica paralisado (como um regime apenas eleitoral ou defeituoso e não alcança o patamar de uma democracia liberal ou plena).
No Brasil de hoje não temos uma democracia liberal ou plena, mas um regime eleitoral defeituoso parasitado por populismos de esquerda e de direita. Por que? Porque temos um deficit de agentes democráticos na sociedade.
Entretanto, não há a mais remota possibilidade de alguém se tornar um agente democrático sem interagir recorrentemente em uma comunidade política. Não é uma conversão individual. Ninguém consegue, sozinho, desempenhar as funções - mencionadas e repetidas acima - que caracterizam um agente democrático.
Isso é uma pista sobre o que nos resta fazer.



