Escrevi as primeiras notas deste artigo antes do resultado do primeiro turno. Volto a elas depois de ver Flávio Bolsonaro terminar à frente de Lula, ainda com a sensação de que precisaremos de algum tempo para compreender direito o que aconteceu. Mas uma interpretação já começa a se consolidar e me incomoda: a de que assistimos a uma demonstração inequívoca da força do bolsonarismo, de uma extrema direita coesa e de uma família Bolsonaro que, mesmo depois de tudo, teria demonstrado novamente uma extraordinária capacidade de mobilização.
Acho essa leitura bem ruim. Não só por ser rasa em análise, mas por projetar perspectivas distorcidas de poder que podem ter consequências nas ações práticas de um futuro eleito.
E não é porque o bolsonarismo seja irrelevante ou porque suas premissas anti-democráticas tenham desaparecido. Depois da pandemia, do 8 de Janeiro e de tudo o que aconteceu desde então, seria absurdo dizer isso. Minha pergunta é outra: quanto do voto em Flávio expressa propriamente a força do bolsonarismo e quanto expressa a força do antipetismo?
A diferença é fundamental porque, se diagnosticarmos errado o fenômeno, podemos produzir novamente aquilo que acreditamos estar apenas descrevendo.
Existe uma parte da esquerda brasileira que nunca foi propriamente petista, mas desenvolveu uma relação afetiva com Lula suficientemente forte para retornar à sua órbita sempre que a disputa política é apresentada como existencial. Pode criticar o PT, discordar do governo e votar em outras candidaturas. Quando a escolha volta a ser apresentada como democracia contra fascismo, porém, retorna. Tenho chamado esse campo, com alguma liberdade, de uma esquerda lulo-afetiva. E boa parte dos analistas políticos nacionais, além de boa parte da classe artística, principalmente os que se intitulam progressistas, se enquadram nessa categoria.
O que ela parece não compreender é que hegemonia produz ressentimento e força de rejeição durante sua trajetória. Mas o problema, que a maior parte dos analistas não vê, é maior: a hegemonia Lulopetista tenta fazer confundir sua própria preservação com a preservação da democracia enquanto usa das forças do poder para se manter, corroendo a democracia por dentro.
Essa corrosão não precisa acontecer com tanques nas ruas ou fechamento do Congresso. Pode ocorrer pela normalização da excepcionalidade, pela redução do espaço legítimo de contestação e pela transformação progressiva do adversário em ameaça existencial. Criticar o governo passa a significar ajudar a extrema direita. Criticar o STF passa a significar atacar a democracia. Questionar determinadas condutas de ministros passa a ser interpretado como adesão ao bolsonarismo.
É impossível separar essa dinâmica do protagonismo político (inadequado) adquirido pelo Supremo nos últimos anos. O STF teve papel importante diante de ameaças reais às instituições. Mas o movimento recente de autodefesa em torno de Alexandre de Moraes, somado a decisões de Flávio Dino de caráter predominante político, produziu um problema que o campo progressista parece subestimar: a percepção de que existe um sistema institucional fechando-se sobre si mesmo, protegendo seus próprios integrantes e atuando politicamente.
Podemos discutir juridicamente cada decisão e discordar dessa percepção. Politicamente, porém, ignorá-la não faz com que desapareça.
Ela produz raiva. Produz ressentimento. Produz antipetismo. E também produz votos.
Não dá para afirmar que o STF tenha sido responsável por esse resultado — a eleição sequer terminou e qualquer explicação será necessariamente multicausal. Mas houve uma reação que não deveria ser ignorada: as pesquisas e os movimentos dos últimos dias sugerem uma migração de parte do eleitorado de centro-direita, inclusive de pessoas que não se identificam com o bolsonarismo, para Flávio. As ações mais recentes do STF, percebidas por esse grupo como abruptas e politicamente interventivas, parecem ter contribuído para esse movimento. Esse é o ponto incômodo: na tentativa de conter o bolsonarismo, o sistema pode estar empurrando para ele pessoas que até então procuravam outra opção.
É por isso que considero perigoso olhar para o resultado e concluir imediatamente que existe uma força bolsonarista avassaladora, ideologicamente organizada e socialmente consolidada. Há uma direita forte, movimentos radicalizados e grupos efetivamente bolsonaristas. Mas existe também uma certa coalizão eleitoral difusa muito mais heterogênea, reunida por rejeições comuns e com enormes divergências internas. Hoje, uma das poucas pautas capazes de agregar boa parte desse campo é justamente a reação ao STF. Nem mesmo a anistia parece produzir convergência.
Transformar toda essa heterogeneidade em “bolsonarismo” pode produzir justamente aquilo que estamos supondo existir.
Flávio fez, em vários momentos, muito pouco. E isso importa. Enquanto ele permanecia relativamente contido, o PT, o governo, o STF e o próprio debate público continuavam produzindo antagonismo. Por isso, talvez o resultado diga menos sobre uma genialidade política dos Bolsonaro e mais sobre algo que conhecemos há muito tempo:
o antipetismo continua sendo uma das maiores forças eleitorais brasileiras.
E chegamos ao paradoxo desta eleição.
O lulopetismo queria enfrentar Flávio. Fazia sentido: Bolsonaro é o adversário perfeito para reconstruir a narrativa de 2022, convocar novamente uma frente democrática e trazer para perto a esquerda não petista e setores do centro. Só existe um pequeno problema nessa estratégia: escolher o adversário que você acredita ser mais fácil significa aceitar o risco de que ele ganhe.
Do outro lado, Flávio também precisa de Lula. Diante de uma candidatura moderada e não petista, teria de explicar muito mais claramente qual país pretende construir. Contra Lula, pode simplesmente mobilizar o antipetismo.
Um precisa do outro. Um justifica o outro. Um produz o eleitor do outro.
É esse mecanismo que parte da esquerda ainda não conseguiu compreender desde 2013. Para cada crise surgiu uma explicação externa: Junho, Lava Jato, Moro, impeachment, redes sociais, extrema direita, Bolsonaro. Existem verdades importantes em praticamente todas essas explicações. O problema está na hipótese sistematicamente excluída: a de que o próprio lulopetismo também tenha participado da produção das condições de sua rejeição.
Quando todas as causas estão fora de você, você nunca precisa mudar.
É também por isso que a recente provocação de Mano Brown sobre a juventude é tão interessante. Para alguém que nasceu neste século, Lula já não representa necessariamente ruptura. Representa também establishment. Uma geração inteira nasceu e cresceu vendo Lula ou o PT ocuparem o centro da política brasileira. E establishment produz contestação. Quando essa contestação é imediatamente classificada como fascismo, ignorância ou manipulação, oferece-se ainda mais combustível para quem pretende convertê-la em identidade política.
Agora existe outro risco.
Se Flávio vencer e interpretar o resultado como mandato para uma revanche contra o STF, a imprensa e seus adversários, podemos entrar numa crise institucional ainda maior. Um Executivo em confronto permanente com o Supremo, eventualmente acompanhado pelo Congresso, seria uma combinação extremamente ruim. Não tenho nenhuma expectativa de que Flávio seja o agente capaz de desarmar essa dinâmica. Mas se for impulsionado pela ideia imaginária que o bolsonarismo tem toda essa força é certeza que vai.
Mas a reação do outro lado também importa. Se transformarmos imediatamente seu eleitorado numa extrema direita monolítica; se toda disputa institucional for antecipadamente chamada de tentativa de golpe; se concedermos novamente aos Bolsonaro a identidade de uma força política avassaladora, podemos ajudar a consolidar aquilo que pretendemos combater.
E então a próxima reação virá.
Alguma liderança da esquerda poderá reorganizar o ressentimento produzido por esse governo e construir um novo polo populista. Depois virá novamente uma reação da direita. Mais medo, mais excepcionalidade, mais inimigos e mais uma eleição apresentada como a última oportunidade de salvar o país.
Talvez seja essa a principal conclusão deste primeiro turno: lulismo e bolsonarismo podem estar menos fortes do que parecem. O que está extraordinariamente forte é a rejeição recíproca que os mantém vivos.
Nós já tínhamos perdido quando nenhuma alternativa conseguiu furar essa bolha.
Por isso, colocar ainda mais energia na mitologia de um bolsonarismo irresistível me parece exatamente o caminho errado. Assim como continuar tratando o lulopetismo como última barreira de proteção democrática apenas reproduzirá o mesmo mecanismo.
O problema brasileiro não é o Lula ou o Bolsonaro.
O problema é a máquina que precisa permanentemente de um para justificar o outro.
Enquanto continuarmos confundindo essa máquina com a normalidade da democracia, seguiremos discutindo quem tem culpa por cada nova volta.
E andando, cada vez mais rápido, em direção ao muro.




