O Brasil do lado errado na terceira guerra mundial
A guerra do Hamas não é em Gaza e a guerra do Irã não é no Oriente Médio
O Brasil não é uma democracia liberal ou plena. Mas é uma democracia (eleitoral) e flawed (defeituosa). Dois dos principais institutos que monitoram os regimes políticos no mundo (o V-Dem e a The Economist Intelligence Unit) dizem isso.
É preciso partir dessa constatação para avaliar nossa situação política e divisar as tarefas dos democratas. Se o Brasil já fosse uma ditadura (autocracia eleitoral ou autocracia fechada, regime autoritário ou mesmo híbrido) então tudo mudaria de figura e as oposições não teriam razões para obedecer as leis e acatar as decisões das instituições.
Mas é preciso ver que somos uma democracia não-liberal ou não-plena em processo de transição autocratizante, seja por via do golpismo (do nacional-populismo bolsonarista), seja por via do hegemonismo (do neopopulismo lulopetista).
Hoje o golpismo (a ruptura ou quebra do arcabouço legal-institucional) tem menos chances de acontecer do que o hegemonismo (a ocupação das instituições para colocá-las a serviço de um partido). Portanto, o risco maior para a democracia (para alcançarmos uma democracia liberal ou plena), no Brasil de hoje, é a continuidade do processo de conquista de hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido para se prorrogar no governo indefinidamente, ganhando tempo para alterar, "por dentro", o DNA da democracia (transformando-a em cidadania para "o povo" ofertada pelo líder populista ou seu partido e alçando a noção de soberania nacional como um valor acima da democracia como valor universal).
É esta via (a hegemonista) - atualmente a mais perigosa - que está alinhando o Brasil ao eixo autocrático (Rússia, China, Irã et coetera) que trava uma netwar global contra as democracias liberais.
A discussão sobre se estamos caminhando para uma terceira guerra mundial (como a de ontem no WW Especial da CNN, com o William Waack), não está bem colocada. Já estamos numa terceira guerra mundial, mas não como foram a primeira e a segunda guerras mundiais e nem como foi a primeira guerra fria e sim na sua nova forma, própria de uma sociedade-em-rede do século 21. Essa nova forma é a netwar global (não apenas uma guerra cibernética e sim uma guerra que se instala na base das sociedades de todos os países) que opõe um eixo autocrático (Rússia, China, Irã etc.) às democracias liberais (com a paradoxal ajuda tácita dos Estados Unidos sob o trumpismo MAGA em aliança tática com os distopistas das Big Techs).
As guerras quentes regionais são gatilhos para a netwar global e sua fonte permanente de alimentação. É por isso que a guerra do Hamas não é por território em Gaza e sim no mundo todo: nos campi das universidades americanas, nas praças de Berlim e na Avenida Paulista. É por isso que a guerra do Irã (que começou em 1979 e não em 2026) não é apenas contra Israel e sim contra os infiéis do mundo inteiro, como pregava o Ayatollah Mosavi Khomeini ao defender o Islã como uma religião revolucionária. E o Hamas e o Irã estão vencendo essa guerra.
Eis a segunda grande guerra fria, fomentada por guerras quentes regionais (Rússia x Ucrânia e OTAN, Irã x Israel e países aliados dos EUA no Oriente Médio). Mas agora essa guerra fria global com conflitos quentes regionais é a nova forma de guerra mundial (a netwar). Portanto, a rigor, já estamos numa terceira guerra mundial.
E nessa guerra o Brasil, sob o comando do populismo de esquerda (o neopopulismo lulopetista), infelizmente, está no lado errado: contra as democracias liberais. O mais preocupante é que, se estivesse sob o comando do nacional-populismo bolsonarista (aliado ao trumpismo), seria a mesma coisa.



