Mauai M. H. Toledo, com IA, Inteligência Democrática (25/10/2026)
Nota editorial: esta crônica foi desenvolvida em colaboração com inteligência artificial, a partir da concepção, orientação e curadoria editorial de Mauai M. H. Toledo.
Na dia eleição, o país descobre que sua maior dificuldade não é escolher um vencedor. É continuar convivendo depois da escolha.
O Brasil conseguiu uma façanha eleitoral inédita: elegeu dois presidentes antes mesmo de abrir as urnas.
Lula venceu, segundo os lulistas. Flávio Bolsonaro venceu, segundo os bolsonaristas. Ambos deram demonstrações definitivas de superioridade, humilharam o adversário e saíram dos debates praticamente empossados.
Resta apenas um inconveniente burocrático: o eleitor.
A democracia tem dessas manias. Insiste em contar votos quando a torcida já conhece o resultado.
Na Band, os candidatos protagonizaram um confronto que, em determinados momentos, parecia dispensar o cargo de presidente para disputar o cinturão.
Na Globo, houve uma evolução. Durante boa parte do encontro, os dois conseguiram discutir propostas, apresentar números e falar sobre problemas nacionais.
Foi um avanço civilizatório.
Até chegar o bloco de tema livre.
Sem a obrigação de seguir uma pauta determinada, os candidatos recuperaram o prazer de atacar o adversário. O debate voltou a ser aquilo que boa parte da política brasileira pratica com especial competência: uma conversa em que ninguém pretende descobrir nada.
Terminada a transmissão, começou outra disputa.
Cada lado selecionou as melhores frases do seu candidato, os piores momentos do outro e as análises mais convenientes.
A tecnologia tornou o processo extraordinariamente eficiente. Ninguém precisa assistir a um debate inteiro para ter certeza de quem venceu.
Bastam trinta segundos de vídeo e a confirmação de três amigos.
A polarização brasileira atingiu um estágio curioso: já não basta discordar do adversário. É necessário desconfiar da inteligência, do caráter e, dependendo do entusiasmo, até da condição humana de quem vota nele.
O outro deixou de ser alguém com uma opinião política diferente.
Transformou-se num problema moral ambulante.
E o fenômeno não acontece apenas entre militantes profissionais.
Aparece no almoço de família, no grupo de condomínio, nas conversas entre amigos e até entre pessoas que passaram décadas convivendo sem precisar consultar a preferência eleitoral umas das outras.
O brasileiro descobriu que pode conhecer alguém durante quarenta anos e, por causa de um voto, concluir que nunca soube com quem estava falando.
É uma extraordinária revisão biográfica produzida por uma urna eletrônica.
O problema é que a democracia não foi inventada para reunir pessoas que pensam igual.
Para isso já existem os fã-clubes.
A democracia começa a fazer diferença justamente quando aparece alguém que discorda, contraria nossos interesses, ameaça nossas certezas ou decide votar no candidato que consideramos inadequado.
E aqui surge uma pequena dificuldade.
Somos excelentes defensores da liberdade de expressão.
Especialmente da nossa.
Também gostamos muito do pluralismo, desde que o plural não se torne excessivamente inconveniente.
Defendemos o diálogo, mas frequentemente o entendemos como a oportunidade de explicar ao outro, mais uma vez, por que ele está errado.
E temos uma curiosa interpretação da tolerância: toleramos perfeitamente quem concorda conosco.
A eleição de hoje é importante. Muito importante.
As diferenças entre Lula e Flávio Bolsonaro são reais. Seus projetos, trajetórias, compromissos e responsabilidades precisam ser examinados. A democracia não exige que essas diferenças sejam apagadas nem que todas as condutas sejam tratadas como equivalentes.
Exige algo mais trabalhoso.
Que os fatos continuem sendo fatos, mesmo quando prejudicam nosso candidato.
Que uma vitória eleitoral não se transforme em autorização para fazer qualquer coisa.
Que uma derrota não seja confundida com a perda do direito de participar da vida pública.
E que ninguém imagine ter recebido, junto com o voto vencedor, a propriedade exclusiva do país.
É possível vencer uma eleição sem vencer a democracia.
Também é possível perder uma eleição e continuar trabalhando para que ela exista.
Na verdade, é justamente assim que ela funciona.
O vencedor recebe um mandato. Não recebe uma escritura do Brasil.
O derrotado perde a disputa. Não perde a cidadania.
Parece elementar.
Mas chegamos a um ponto em que repetir o elementar já exige alguma coragem.
Durante semanas, milhões de brasileiros foram convidados a acreditar que a sobrevivência do país dependia exclusivamente da derrota do outro.
Hoje, domingo, alguém perderá.
E o Brasil continuará tendo que existir na segunda-feira.
Os eleitores continuarão frequentando as mesmas ruas, dividindo elevadores, trabalhando juntos, esperando atendimento nos mesmos hospitais e reclamando dos mesmos buracos.
Alguns continuarão amigos.
Outros terão que reaprender.
Porque democracia não é apenas um procedimento para escolher quem governa. É também uma maneira de conviver com quem não escolheu a mesma coisa que nós.
A urna resolve a disputa eleitoral.
Não resolve, sozinha, nossa dificuldade de reconhecer o outro.
Domingo 25 de outubro de 2026: o Brasil escolherá um presidente.
Na segunda-feira, terá uma escolha que não aparece em nenhuma urna:
Continuar sendo um país onde o outro também cabe.




Muito bom, Mauai!