Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (17/09/2026)
Os historiadores podem ratificar ou contradizer o que vou afirmar aqui, mas há bastante semelhança entre o período que vivemos e aquele que testemunhou a ascensão dos totalitarismos no século XX. O ponto que quero enfatizar é o ataque massivo ao liberalismo, visto por populistas de direita e de esquerda como o que de mais abjeto pode haver na humanidade.
Os sinais estão aí para ser detectados: a ascensão de populistas como Trump e a aliança tácita desses líderes — incluindo Lula — com os principais agressores da ordem democrática no mundo, agressão que envolve a mortandade de civis na Ucrânia e táticas diversas no interior das sociedades democráticas.
O último episódio de avanço da estratégia iliberal pode ter sido a vitória contundente da chamada extrema-direita em uma disputa regional na Alemanha. A insistência em definir a AfD apenas como organização extremista obscurece a principal ameaça que está por trás dela: o governo russo.
São movimentos constantes de posição que estabelecem um padrão de guerra. Neutralizar eventuais apoios que possam ser dados à ordem liberal também faz parte dessas movimentações.
O Brasil está alinhado a essa estratégia, por mais que haja, na imprensa e na academia, defensores do posicionamento do presidente frente aos grandes conflitos no mundo — a saber, na Ucrânia e no Oriente Médio. A suposta dubiedade em relação a agressores russos ou a terroristas palestinos revela apenas um descompromisso com a ordem liberal-democrática.
Em sintonia com isso, o lulopetismo sempre dividiu o mundo entre “nós” e “eles”. Os liberais só foram úteis quando se precisou de apoio para vencer a eleição. Com isso, contam com a maleabilidade de agentes como Simone Tebet e Alckmin para dar o devido lastro a um organismo predominantemente iliberal.
O que fizeram com essa tática eleitoreira foi apenas enfraquecer quem defende a democracia como forma de controlar o poder. O furor pelo poder arrasou qualquer possibilidade de alternância democrática. O que estamos testemunhando hoje é apenas uma disputa de visões iliberais de mundo, tendo como palco uma democracia cada vez mais fragilizada.
Pode ser difícil transitar no mundo defendendo um ponto de vista atacado inúmeras vezes pelo furor dos iliberais. Numa lógica de guerra, em que a vitória é exaltada, fazer parte do “time dos perdedores” pode parecer ruim para os negócios, mas tal postura fere a dignidade de quem se posiciona assim e também dificulta a vida de quem ainda defende a democracia liberal.
O jornalismo precisa adotar uma postura inflexível em defesa da democracia. Pode ser o pouco que nos resta em termos de resistência política.



