O Corredor Estreito da Liberdade
Daron Acemoglu e a fragilidade da democracia liberal
João Francisco Lobato, Inteligência Democrática (25/04/2026)
Entre o despotismo estatal e a anarquia social — uma leitura institucional
Daron Acemoglu, laureado com o Prêmio Nobel de Economia de 2024 ao lado de Simon Johnson e James A. Robinson, ocupa um lugar central na reflexão contemporânea sobre desenvolvimento econômico, instituições políticas e destino da democracia liberal. Sua trajetória intelectual, consolidada no MIT, é inseparável de uma questão fundamental da ciência social moderna: por que algumas sociedades conseguem combinar crescimento, liberdade e estabilidade institucional, enquanto outras permanecem presas à extração, à desigualdade e à fragilidade política?
A originalidade de Acemoglu está em deslocar a explicação da pobreza de fatores morais, culturais ou geográficos para a arquitetura institucional. Ele demonstra que os arranjos institucionais são decisivos para determinar se uma sociedade permitirá participação ampla, inovação e proteção de direitos, ou se favorecerá a captura do excedente por elites restritas. Em sua obra seminal, Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza, escrita com James A. Robinson, a dicotomia entre instituições inclusivas e extrativas é central. As instituições inclusivas distribuem poder político e econômico, protegem direitos de propriedade, abrem espaço para concorrência e estimulam inovação—como exemplificado pela Revolução Gloriosa inglesa (1688), que estabeleceu limites ao poder monárquico e criou espaço para competição política. As instituições extrativas, ao contrário, concentram autoridade e riqueza em mãos limitadas, restringem inovação e produzem estagnação—como no caso do colonialismo extrativista nas Américas, que capturou recursos para elites europeias sem criar estruturas de inclusão local. A história, para Acemoglu, não é um caminho linear para o progresso, mas uma série de escolhas institucionais que moldam o destino das nações.
Nesse quadro, a democracia liberal não é um ponto de partida natural da modernidade, mas uma conquista institucional precária, permanentemente ameaçada pela concentração de poder. Ela depende de configurações institucionais capazes de conter a captura oligárquica e de garantir que o poder político seja amplamente distribuído e contestável. A base empírica para essa tese é vasta, abrangendo desde a análise das instituições coloniais em “The Colonial Origins of Comparative Development” até estudos sobre o impacto de diferentes desenhos de autoridade no crescimento econômico. Aqui, Acemoglu se aproxima de Douglass North, que definiu as instituições como as “regras do jogo” da vida social, mas avança além dele ao dar centralidade explícita ao conflito político. Essa progressão teórica estrutura sua própria obra: se Por que as nações fracassam estabelece os fundamentos da teoria das instituições, O corredor estreito: Estados, sociedades e o destino da liberdade, também com Robinson, aprofunda a compreensão de como a liberdade política emerge e se sustenta. A liberdade, argumentam, reside em um “corredor estreito” entre um Estado despótico (que esmaga a sociedade) e um Estado ausente (que permite a anarquia). A chave é um equilíbrio dinâmico entre o poder do Estado e a capacidade de contestação da sociedade civil, onde nenhum dos dois domina completamente.
A obra de Acemoglu também se debruça sobre a relação entre tecnologia e poder. Em Poder e progresso: nossa luta milenar por tecnologia e prosperidade, coescrito com Simon Johnson, ele argumenta que o progresso técnico não é neutro. Inovações podem ampliar liberdade, produtividade e bem-estar, mas também podem ser capturadas por elites para concentrar poder e renda. A Revolução Industrial, por exemplo, embora tenha gerado imensa riqueza, inicialmente resultou em condições de trabalho brutais e desigualdade crescente, até que a pressão social e as reformas institucionais forçaram uma distribuição mais equitativa dos benefícios. Essa crítica à captura tecnológica ressoa com as análises sobre a erosão democrática contemporânea. Uma democracia com eleições regulares, mas com desigualdade extrema e instituições capturadas, pode conservar a forma eleitoral e perder o conteúdo liberal. A tecnologia, nesse sentido, não é uma força autônoma, mas um instrumento que reflete e amplifica as estruturas de poder existentes.
A perspectiva de Acemoglu dialoga intensamente com outros teóricos da democracia. Ele se alinha a Robert Dahl, que em sua obra “Polyarchy” enfatizou a importância da contestação e da participação para a vitalidade democrática. Contudo, Acemoglu vai além, ao insistir que a contestação não é apenas um direito formal, mas uma capacidade real de influenciar as decisões políticas e econômicas, enraizada em instituições que distribuem poder. Essa visão o afasta de abordagens que veem a democracia como um mero conjunto de procedimentos eleitorais. A fragilidade democrática, para ele, não é um fenômeno recente, mas uma constante histórica. Essa perspectiva estrutural aproxima-o de diagnósticos contemporâneos sobre a fragilidade democrática. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em Como as democracias morrem, mostraram que a erosão democrática raramente ocorre por golpe abrupto; ela se desenvolve por dentro, em pequenas deformações normativas. Acemoglu oferece a essa análise uma base institucional mais profunda: tais processos se tornam possíveis quando instituições deixam de distribuir poder e passam a concentrá-lo. Yascha Mounk, em “The People vs. Democracy”, descreve a tensão entre democracia e liberalismo, e Acemoglu radicaliza essa análise ao localizar o problema nas estruturas institucionais que permitem a captura do Estado. Para Mounk, a solução passa por renovação cívica; para Acemoglu, por redistribuição real de poder. Fareed Zakaria, em “The Rise of Illiberal Democracy”, já havia alertado para a possibilidade de eleições sem liberalismo, um cenário que Acemoglu explica pela ausência de instituições inclusivas que protejam direitos e limitem o poder.
A obra de Acemoglu também se insere no debate da economia política comparada. Ele compartilha com Adam Przeworski, autor de “Democracy and the Market”, a preocupação com a sustentabilidade da democracia em contextos de desigualdade, mas enfatiza mais as raízes institucionais dessa desigualdade. Enquanto Przeworski foca nas condições econômicas que levam à transição e consolidação democrática, Acemoglu investiga as instituições que perpetuam ou mitigam a concentração de renda e poder. Ele se distancia de visões que celebram modelos autoritários de desenvolvimento, como o “The China Model”, que Daniel Bell defende como uma alternativa viável à democracia liberal. Um regime que concentra poder, limita a contestação e subordina a inovação à lógica do partido pode exibir crescimento acelerado por certo período. No entanto, esse crescimento tem custos estruturais elevados: liberdades fundamentais são sacrificadas, e os mecanismos de autocorreção institucional são desmantelados. A questão chinesa é decisiva porque condensa uma das tensões mais importantes do nosso tempo: seria possível obter desenvolvimento e estabilidade sem democracia liberal? Acemoglu argumenta que, sem instituições inclusivas, a prosperidade tende a ser seletiva e, a longo prazo, insustentável, pois é vulnerável à captura de renda e à falta de inovação disruptiva. Ele se alinha a Wolfgang Streeck, que em “Buying Time” critica a mercantilização da política, mas oferece uma solução mais estrutural, focada na reforma das instituições de poder.
Acemoglu, portanto, se posiciona em uma rica tradição intelectual que compreende a liberdade política como uma construção frágil e contingente. Ele ecoa Karl Popper, que em A sociedade aberta e seus inimigos defendeu a democracia como o único sistema capaz de autocorreção e de evitar a tirania. Sua obra também se conecta com a de Hannah Arendt, que via a política como o espaço da ação e da liberdade, e com a de Charles Tilly, que em “Coercion, Capital, and European States” analisou a formação dos Estados e a relação entre poder e capital. A contribuição de Acemoglu para a democracia liberal reside em ter transformado uma intuição clássica—a de que a liberdade requer limites ao poder—em um programa analítico robusto. Suas teses sobre instituições inclusivas, sobre o corredor estreito entre Estado e sociedade, sobre a captura tecnológica e sobre a fragilidade das democracias diante da concentração de poder oferecem uma interpretação coerente da crise contemporânea. Mais importante: elas sugerem que a solução não é escolher entre eficiência autoritária e caos democrático, mas renovar permanentemente as estruturas que distribuem poder e garantem contestação. A democracia liberal, com todas as suas imperfeições, permanece a forma política mais capaz de combinar prosperidade, pluralismo, autocorreção e proteção da autonomia humana—não por ser perfeita, mas por ser corrigível.
Referências
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