O declínio do populismo de esquerda na América Latina
Apesar do que diz a maioria dos acadêmicos que se dedicam ao estudo do populismo, existe, sim, populismo de esquerda (e não apenas de direita ou de extrema-direita).
Sempre é bom lembrar que o que caracteriza o populismo não é a presença de um líder demagógico. Ainda que o populismo opere sempre por meio de lideranças com alta gravitatem, o que caracteriza o populismo é o seguinte:
√ A divisão da sociedade em uma única clivagem: povo versus elite.
√ O encorajamento de uma polarização política a partir dessa divisão: a política praticada como guerra do “nós” contra “eles”.
√ A ideia (majoritarista) de que é preciso fazer maioria em todo lugar, acumulando forças para conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido (ou de um grupo ideológico que faz as vezes de partido).
Cabe ressaltar que o populismo de esquerda na América Latina foi uma variante marxista. E, como tal, tem fundamentos contrários aos princípios liberais da democracia. Os três fundamentos principais do neopopulismo são:
1 - O historicismo (a ideia de que há uma imanência na história, de que a história vai para algum lugar, de que a história é regida por leis que podem se conhecidas por quem tem a teoria verdadeira e o método correto de interpretação da realidade).
2 - A luta de classes como motor da história (inclusive na sua variante contemporânea de luta identitarista).
3 - A concepção (e a prática) da política como continuação da guerra por outros meios (já que, em sociedades de classes, a luta de classes seria uma espécie de guerra permanentemente presente): o que leva ao “nós” contra “eles”.
Na América Latina o populismo de esquerda (ou neopopulismo) floresceu no início do século 21, com a chegado ao poder do ex-golpista Hugo Chávez, na Venezuela. Antes tivemos o castrismo em Cuba e o sandinismo de primeira geração na Nicarágua, mas naquela época esses dois governos pós-revolucionários não poderiam ser adequadamente caracterizados como populistas.
Ocorre, porém, que a ditadura cubana tem muito a ver com o nascimento e a expansão do populismo de esquerda (como patrocinadora ideológica - e não apenas) e que a Frente Sandinista de Libertação Nacional nicaraguense virou neopopulista com a volta de Daniel Ortega ao governo por via eleitoral em 2007.
O fato é que, em meados de 2026, só restaram dois populistas de esquerda parasitando regimes democráticos na América Latina.
O auge do populismo de esquerda
O populismo de esquerda na AL já teve seu auge. Em um certo período tivemos:
Fidel e depois Raul em Cuba (ditadores patrocinadores)
Ortega na Nicarágua (ditador patrocinado por Cuba)
Chávez e depois Maduro (ditador patrocinado por Cuba) na Venezuela
Lula e depois Dilma no Brasil
Evo e depois Arce na Bolívia
Correa no Equador
Lugo no Paraguai
Funes e depois Cerén em El Salvador
Manoel Zelaya e depois Xiomara em Honduras
Cristina Kirchner e depois Fernández na Argentina
Obrador e depois Cláudia no México
Pedro Castillo no Peru
Começou então o declínio
Restaram apenas:
Canel em Cuba (ditador)
Lula no Brasil
Ortega-Murillo na Nicarágua (casal de ditadores)
Delcy (refém de Trump) na Venezuela (ditadora)
Petro na Colômbia
Cláudia no México
E agora?
Agora Petro saiu (não podia ser reeleito e seu candidato foi derrotado). Tirando as três ditaduras de esquerda que permanecem (Cuba, Nicarágua e Venezuela), de democracias parasitadas pelo populismo de esquerda sobraram somente:
Lula no Brasil
Cláudia Sheinbaum no México
Convenhamos: de 20 para 2 governantes neopopulistas é uma queda considerável. Se esse quadro vai se alterar a favor do neopopulismo nos curto ou médio prazos, não sabemos. Por enquanto nada indica isso.



