O eleitor espectador
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (04/06/2026)
O acaso me apontou um livro da Hannah Arendt numa pequena biblioteca que visitei. A Vida do Espírito. O nome engana quem está à procura de ensinamentos espirituais. Na verdade é um livro sobre a atividade do pensar, querer e julgar ao longo da história da humanidade.
Com pouco tempo para folhear, abri no capítulo sobre os pré-socráticos, contemporâneos dos democratas gregos. A preferência me rendeu uma atenção que honrou minha expectativa. Ali, naquelas poucas páginas, a surpresa por encontrar uma reflexão que faz eco a questões caras para mim.
Claro que a leitura é totalmente pessoal. Talvez eu estivesse vendo e lendo ali só um reflexo das minhas preocupações. Mas assim podem ser os insights. Ou não.
Onde uma genealogia da ideia do pensamento, nos gregos, reverberou nas minhas dúvidas contemporâneas?
O que Arendt chama atenção nessa pequena passagem é para a ideia de que o pensamento para os pré-socráticos ganha estatuto por se associar a uma condição divina de contemplação. Enquanto a ação se reveste de uma característica de efemeridade e impermanência, a contemplação e a narração busca o sentido oculto e a permanência.
Para quem já me conhece sabe como gosto de tratar dos processos de escolha na democracia e como questiono a ideia corrente de distinção do indivíduo nas eleições. Pois bem, a questão colocada pelos gregos para valorizar o pensamento me remete a uma reflexão que sintoniza com essa necessidade de distinção envolta na figura do eleito, que eleva o humano para uma esfera quase divina.
O pensamento e a contemplação são os elementos fundamentais para a construção do que hoje chamamos de narrativa e que os gregos entendiam como o lugar por excelência para encontrar a ideia oculta da permanência. Ali na posição de espectador, o intelectual, o jornalista, o analista de pesquisa eleitoral e essa figura tão contemporânea do influenciador digital exercem o papel de criador do mundo distintivo, aquele que exalta o herói e o vilão a partir da disputa acirrada do ringue eleitoral. Por mais isentos que sejam os observadores, a batalha por votos exige que as características diferenciadas sejam colocadas num patamar elevado.
Podemos dizer que somos, eleitores, todos espectadores. A posição de quem expõe o pensamento e narra o acontecimento, no entanto, consolida uma imagem, um sentido que ultrapassa o componente limitador da condição humana do erro e do fortuito. O protagonista precisa ser exaltado como a se equiparar a um mito.
O ritual das eleições reproduz um tipo de narrativa em que heróis e vilões retornam como arquétipos de um tempo que não muda. O populista, mais do que ninguém, sabe manejar essas cordas. Já tem com ele muitos profissionais que vivem de exaltar o vitorioso mesmo sem admitir que isso é o que importa.



