O erro de 2013
Quando o Brasil trocou potência por polarização
Nos últimos textos que venho escrevendo, tenho tentado estruturar uma reflexão que parte da crítica à forma como nos agarramos a narrativas simplificadoras e ideológicas para lidar com a realidade, e à dificuldade crescente de operar a democracia como prática no presente, sem depender de promessas de futuro ou de estruturas fechadas de interpretação, e essa linha de pensamento ganha um contorno muito mais agudo se olharmos para o Brasil da última década, porque aquilo que parecia um problema mais difuso — uma certa incapacidade de lidar com a complexidade — se revela como um erro bastante específico: o de não termos conseguido interpretar corretamente uma crise que exigia novas linguagens, novos repertórios e um salto de maturidade política.
Essa crise se manifesta de maneira mais contundente nos movimentos de junho de 2013, e talvez o maior erro que cometemos não tenha sido político ou institucional, mas cognitivo e cultural, ao insistirmos em compreender um fenômeno novo com as lentes do passado, transformando uma crise que poderia ter ampliado as possibilidades da democracia em um sistema de reprodução contínua de polarização.
Quando não foi só a política que entrou em crise, mas principalmente a forma de compreendê-la
Talvez a maneira mais honesta — e ao mesmo tempo mais desconfortável — de iniciar essa reflexão seja deslocando o ponto de análise para um lugar menos habitual, porque, ao longo da última década, fomos sistematicamente induzidos a interpretar o que vivemos no Brasil como uma crise somente política, institucional ou econômica, quando, na verdade, o que parece ter se rompido de maneira mais profunda e silenciosa foi a própria forma através da qual compreendíamos a política, isto é, um conjunto relativamente estável de pressupostos, linguagens e expectativas que, mesmo com todas as suas limitações e contradições, ainda organizava o campo democrático dentro de certos limites de convivência e contenção, e que, ao se desfazer, deixou não apenas um vazio de governabilidade, mas um vazio de interpretação, um tipo de desorientação coletiva que não foi reconhecida como tal e que, justamente por isso, passou a ser tratada com as mesmas ferramentas analíticas que haviam se tornado insuficientes para dar conta da realidade emergente.
Esse deslocamento é importante porque permite compreender que o problema que enfrentamos não é apenas o da polarização enquanto fenômeno visível, mas o de uma necessidade de transformação mais profunda da cultura política, entendida aqui não como um conjunto de ideias abstratas, mas como um modo de operar a democracia no cotidiano, de reconhecer limites, de sustentar diferenças e de aceitar a existência de adversários sem que isso implique necessariamente a construção de inimigos, e é precisamente essa cultura — imperfeita, muitas vezes hipócrita, frequentemente instrumental — que parece ter sido progressivamente corroída ao longo dos anos que antecedem 2013, até o ponto em que já não era mais capaz de sustentar o tipo de mediação que vinha garantindo, ainda que de forma precária, o funcionamento do sistema.
A leitura de Eles em nós, de Idelber Avelar, oferece aqui uma lente particularmente potente, porque ao deslocar o foco dos eventos para a retórica, isto é, para a forma como o discurso político constrói o outro, organiza o conflito e estabelece fronteiras simbólicas, ele revela que a lógica do antagonismo já estava presente, já era operada e já fazia parte da gramática política brasileira muito antes da sua radicalização recente, mas que ela ainda coexistia com mecanismos de contenção — institucionais, morais e culturais — que impediam que essa lógica se tornasse totalizante, funcionando mais como um recurso retórico do que como estrutura organizadora do sistema.
O que se torna evidente, no entanto, ao olhar para o período mais recente, é que esses mecanismos de contenção não apenas se enfraquecem, mas deixam de ser reconhecidos como necessários, abrindo espaço para que a linguagem do antagonismo deixe de ser episódica e passe a se consolidar como a forma dominante de organização do campo político, e se quisermos identificar o momento em que essa transição se torna irreversível, é inevitável voltar a 2013, não como origem do problema, mas como o momento em que a crise deixa de ser apenas institucional ou econômica e passa a ser, fundamentalmente, uma crise de falta de repertório analítico-político para sustentar as mudanças que precisam ser propostas.
2013 como aquilo que não soubemos ver: o momento em que a realidade superou o nosso repertório
Junho de 2013 se apresenta, sob essa perspectiva, não como um ponto de partida, mas como um ponto de inflexão, um momento em que o sistema político — entendido aqui de forma ampliada, incluindo partidos, mídia, academia, intelectuais e sociedade civil organizada — se depara com um fenômeno que escapa completamente às categorias disponíveis para interpretá-lo, e que, justamente por isso, exige uma mudança de nível na forma de compreensão da política, uma abertura para a complexidade que não se limita a incorporar novas demandas, mas implica revisar os próprios instrumentos de leitura da realidade.
O que emerge naquele momento não é apenas uma soma de reivindicações, mas uma transformação na forma de organização social, caracterizada por uma multiplicidade de pautas, uma ausência de liderança central, uma dinâmica descentralizada de mobilização e uma linguagem que não se encaixa nas divisões tradicionais entre esquerda e direita, o que torna o fenômeno simultaneamente potente e difícil de capturar, e é exatamente essa dificuldade que revela o limite do repertório analítico disponível.
Diante dessa ruptura, o sistema se vê diante de uma escolha que, retrospectivamente, se revela decisiva: ou reconhece ali um sinal de transformação estrutural e se abre para reinterpretar suas próprias categorias, ou tenta enquadrar o novo dentro da linguagem antiga, preservando suas formas de operação ao custo de distorcer a realidade emergente, e o que se observa, de maneira bastante clara, é que a segunda opção prevalece, não necessariamente por cálculo deliberado, mas por uma combinação de inércia cultural, interesses estabelecidos e incapacidade cognitiva de lidar com a complexidade.
Ao optar por traduzir 2013 a partir das categorias do passado, o sistema não apenas deixa de compreender o fenômeno, mas passa a operar sobre uma versão distorcida dele, na qual a multiplicidade é reduzida a polarização, a ambiguidade é transformada em ameaça e a abertura é convertida em risco, criando as condições para que a energia originalmente difusa e potencialmente transformadora seja progressivamente capturada por estruturas que operam melhor dentro da lógica da simplificação e do antagonismo.
Esse é, talvez, o ponto mais importante a ser estabelecido: o erro não está em 2013, mas na forma como 2013 foi interpretado e operado a partir disso.
A transformação da crise em método: como a simplificação substituiu a compreensão
A partir do erro de leitura de 2013, o que se inaugura não é apenas uma sequência de eventos políticos tensionados, mas um processo mais profundo de reorganização do sistema em que diferentes esferas institucionais — jurídica, política, policial, militar — passam progressivamente a operar fora dos seus limites tradicionais, não necessariamente por uma intenção explícita de ruptura, mas por uma combinação de pressão social, demanda por respostas rápidas e uso de referências analíticas que não eram adequadas para a complexidade do momento, gerando um efeito cumulativo de desorganização que, ao invés de resolver a crise, acaba por amplificá-la.
Nesse contexto, a Lava Jato precisa ser compreendida de forma mais sofisticada do que a leitura binária que frequentemente se faz dela, porque, em sua origem, ela incorpora inovações relevantes dentro do arcabouço institucional brasileiro, seja na articulação entre Ministério Público, Polícia Federal e Judiciário, seja na utilização de instrumentos jurídicos mais agressivos para enfrentar estruturas complexas de corrupção que, de fato, operavam com características próximas a organizações mafiosas, inspirando-se inclusive em experiências internacionais como a operação italiana Mani Pulite, que buscou desarticular redes de corrupção sistêmica na Itália, o que demonstra que havia ali uma tentativa legítima de enfrentar um problema real com ferramentas que ampliavam a capacidade do Estado de agir.
O ponto de inflexão, no entanto, ocorre quando esse processo, que inicialmente se desenvolve dentro de um espaço institucional relativamente delimitado — jurídico, investigativo, policial — começa a transbordar para o campo político, não apenas em seus efeitos, que seriam inevitáveis, mas na sua própria forma de operação, passando a incorporar elementos de narrativa moral e de mobilização pública que o deslocam do lugar de instrumento de justiça para o de agente ativo na reorganização do campo político, e é nesse deslocamento que reside uma das principais tensões do período, porque ao tentar operar uma jornada de limpeza ética que se coloca, em certa medida, acima da política, o processo acaba por tensionar limites que são fundamentais para o funcionamento do próprio sistema democrático.
Esse transbordamento não ocorre de maneira abrupta, mas progressiva, e se manifesta na medida em que decisões jurídicas passam a ter efeitos políticos diretos e, ao mesmo tempo, passam a ser interpretadas e utilizadas dentro de narrativas que reforçam o antagonismo, criando uma situação em que o espaço institucional da justiça, que deveria operar com critérios próprios e limites claros, passa a ser percebido — e em alguns momentos a operar — como parte de um jogo mais amplo de disputa política, o que fragiliza sua legitimidade e abre espaço para reações que, por sua vez, também tensionam os limites institucionais.
O impeachment de Dilma Rousseff, nesse contexto, precisa ser recolocado em um lugar analítico mais preciso, porque, ao contrário da leitura recorrente que o trata como ruptura institucional, ele é, na verdade, um instrumento previsto e legítimo dentro do sistema democrático, uma ferramenta política que se inicia a partir de fundamentos jurídicos, mas que se resolve no campo político, e que, portanto, faz parte do funcionamento do sistema e não da sua quebra, sendo inclusive um mecanismo que, em outras configurações institucionais, como o parlamentarismo, poderia ser operado com maior frequência como forma de ajuste do próprio sistema.
O problema, portanto, não está no impeachment em si, mas na forma como ele é interpretado e narrado, porque ao ser recorrentemente enquadrado como ruptura, ele passa a ser percebido como ilegítimo, o que gera um efeito paradoxal: deslegitima-se uma ferramenta democrática que poderia ser utilizada em momentos posteriores, como no caso do governo Bolsonaro, onde, diante de uma série de tensionamentos institucionais e comportamentais, o uso desse instrumento se torna politicamente mais difícil, justamente porque o precedente foi reinterpretado como exceção indevida, e não como parte do funcionamento regular do sistema.
Essa mesma lógica de transbordamento pode ser observada em outros momentos posteriores, como na atuação mais recente do Supremo Tribunal Federal em torno da ideia de “democracia militante”, em que, diante de ameaças reais ao sistema democrático, a corte passa a operar de forma mais ativa, expandindo seus limites de atuação em nome da defesa da própria democracia, mas ao fazer isso também tensiona as fronteiras entre os poderes, gerando novos debates sobre o equilíbrio institucional e o risco de que, ao tentar proteger o sistema, se acabem fragilizando alguns de seus princípios estruturais.
De maneira semelhante, a aproximação de setores das Forças Armadas com o governo Bolsonaro representa outro exemplo de deslocamento institucional relevante, na medida em que militares passam a ocupar espaços e desempenhar papéis que extrapolam sua função tradicional dentro do Estado, contribuindo para uma confusão de esferas que reforça a percepção de instabilidade e dificulta a reconstrução de limites claros entre os diferentes poderes e instituições.
O que se observa, portanto, ao longo desse período, não é apenas uma radicalização política, mas uma série de movimentos em que diferentes estruturas passam a operar a partir de referências que não são próprias ao seu campo, seja a justiça incorporando elementos de disputa política, seja a política sendo moralizada em termos jurídicos, seja o militar sendo politizado, seja o judiciário assumindo funções de contenção ativa do sistema, e esse conjunto de deslocamentos, embora muitas vezes motivado por intenções legítimas ou por respostas a crises reais, acaba produzindo um efeito sistêmico de desorganização, na medida em que rompe com a lógica de diferenciação funcional que sustenta o equilíbrio institucional.
Nesse sentido, a transformação da crise em método não se dá apenas pela simplificação das narrativas, mas por um processo mais amplo de desajuste entre esferas, no qual cada tentativa de resposta à crise, ao operar fora de seus limites originais, contribui para aprofundar o próprio problema que busca resolver, criando um ciclo de retroalimentação que amplia a polarização e reduz progressivamente o espaço para a mediação, tornando cada vez mais difícil a reconstrução de uma ambiência democrática baseada na coexistência, no equilíbrio e na capacidade de operar a complexidade sem recorrer à destruição do outro como forma de ação política.
Quando a política abandona a contenção e passa a se alimentar da própria destruição
É nesse ambiente já fragilizado — marcado por erros sucessivos de leitura desde 2013, pela captura de uma crise que poderia ter sido transformadora e pela reorganização do campo em torno de simplificações morais e institucionais — que o bolsonarismo emerge não como um desvio isolado ou uma anomalia do sistema, mas como a expressão mais acabada de uma lógica que vinha sendo construída ao longo do tempo e que, naquele momento, encontra condições ideais para se radicalizar, sobretudo porque já não existem mais, de forma consistente, os mecanismos de contenção que anteriormente limitavam o antagonismo político, permitindo que ele ultrapasse o campo retórico e se torne princípio organizador da própria ação de governo.
A diferença fundamental em relação ao período anterior não está apenas no grau de radicalização do discurso, mas na mudança de natureza da operação política, na medida em que o antagonismo deixa de ser um recurso estratégico utilizado em momentos específicos e passa a ser adotado como método permanente de mobilização, sustentado por uma lógica de campanha contínua que se inspira em movimentos populistas globais — especialmente na experiência de Donald Trump, na atuação de figuras como Steve Bannon e no uso intensivo das redes sociais como ferramentas de amplificação de afetos, simplificação de narrativas e desintermediação dos canais tradicionais de debate — criando um ambiente em que a política não apenas se aproxima de uma lógica de guerra, mas passa a depender dela para se sustentar.
Esse movimento de “dobrar a aposta” no antagonismo não se limita ao campo simbólico ou retórico, mas se desdobra concretamente nas práticas cotidianas de governo, nas decisões institucionais, na forma de relacionamento com outros poderes e na maneira como a própria realidade é constantemente reinterpretada para manter ativa a lógica do conflito, o que produz um efeito simultaneamente destrutivo e reprodutivo, porque, ao mesmo tempo em que corrói as bases da mediação democrática, também recria as condições de existência do polo oposto, tornando-o necessário para a continuidade do próprio sistema.
É nesse ponto que o argumento ganha sua dimensão mais estrutural, porque o bolsonarismo, ao se alimentar do antipetismo e amplificá-lo até seus limites mais extremos, não apenas aprofunda a crise, mas contribui diretamente para a rearticulação do lulopetismo como força política, criando as condições para que um campo que já apresentava sinais claros de esgotamento — seja em termos de narrativa, de liderança ou de capacidade de mobilização — renasça a partir da própria radicalização do seu antagonista, o que revela um padrão recorrente: a polarização não apenas destrói, ela reorganiza e recria aquilo que aparentemente combate.
O processo que se inicia com a crise pós-2013, intensificado pela Lava Jato e reorganizado pela dinâmica do impeachment, encontra no bolsonarismo um catalisador que leva essa lógica ao seu extremo, transformando o antipetismo em força estruturante e, ao fazer isso, reacendendo o próprio petismo, agora reconfigurado dentro de um novo ambiente de conflito, no qual sua existência volta a ser não apenas possível, mas necessária, criando um circuito de retroalimentação que consolida o lock-in da polarização tóxica.
Nesse cenário, cada ciclo político tende a reforçar ainda mais os seus polos, porque as ferramentas analíticas utilizadas para interpretar a realidade continuam sendo aquelas herdadas do passado — instrumentos de “retrovisor” que simplificam fenômenos complexos, reduzem a multiplicidade a dicotomias e reforçam a percepção de que o mundo só pode ser compreendido a partir da lógica do conflito — fazendo com que indivíduos que anteriormente ocupavam posições mais moderadas ou ambíguas sejam progressivamente deslocados para dentro dessa estrutura polarizada, não necessariamente por convicção, mas por incapacidade de encontrar outras linguagens disponíveis para interpretar o que está acontecendo.
O resultado é um sistema que, ao longo do tempo, vai esvaziando o espaço do centro não apenas como posição política, mas como possibilidade cognitiva, isto é, como capacidade de sustentar uma leitura da realidade que não esteja subordinada à lógica do antagonismo, fazendo com que a política se transforme cada vez mais em um campo de guerra permanente, no qual a mediação deixa de ser possível e a própria ideia de convivência democrática passa a ser substituída por uma dinâmica de enfrentamento contínuo, sustentada por narrativas que se reforçam mutuamente e que tornam cada vez mais difícil a emergência de alternativas fora desse circuito.
E é precisamente nesse ponto que a polarização deixa de ser um problema a ser resolvido e passa a ser o próprio mecanismo de funcionamento do sistema, um sistema que não apenas tolera o conflito, mas depende dele para existir, e que, ao fazer isso, transforma a política em um processo contínuo de destruição das condições que poderiam, em algum momento, permitir a sua própria superação.
O bloqueio da saída e a tarefa em aberto: por que não conseguimos sair — e como talvez possamos começar
Se há algo particularmente frustrante no momento atual brasileiro não é propriamente a ausência de alternativas, mas a incapacidade de articulá-las de maneira minimamente consistente, o que faz com que o sistema se mantenha não por sua força, mas pela inércia de um campo que não consegue operar fora das categorias que ele próprio ajudou a consolidar, criando uma situação paradoxal em que o cansaço com a polarização cresce de forma evidente, mas não se traduz em reorganização política efetiva, justamente porque os instrumentos disponíveis para interpretar e agir sobre a realidade permanecem presos à lógica que produziu o problema.
Esse bloqueio não é homogêneo, mas se manifesta de forma bastante clara em três dimensões que se sobrepõem e se reforçam mutuamente, começando por um bloqueio de linguagem, no qual qualquer tentativa de deslocamento da lógica binária é imediatamente capturada e neutralizada por rótulos que a deslegitimam, como a figura do “isentão”, que transforma uma tentativa de operar fora do antagonismo em sinônimo de fraqueza, omissão ou falta de posicionamento, quando, na verdade, o que está em jogo é uma tentativa — ainda incipiente e pouco articulada — de mudança de lógica, de sair do campo da guerra para o campo da construção, o que exige não apenas novas ideias, mas uma nova forma de falar e de significar a política.
A esse bloqueio de linguagem se soma um bloqueio de expectativa, profundamente enraizado na cultura política brasileira, que insiste em buscar soluções centralizadas para problemas sistêmicos, projetando a saída em figuras individuais — líderes, gestores, salvadores — que, supostamente, seriam capazes de reorganizar o sistema a partir de sua própria capacidade, como se a crise pudesse ser resolvida por substituição de personagens e não por transformação de estruturas, o que impede o reconhecimento de que, em sistemas complexos, as soluções mais robustas tendem a ser distribuídas, emergentes e coletivas, e não centralizadas e personalistas.
Por fim, há um bloqueio de medo, talvez o mais silencioso e ao mesmo tempo mais determinante, que atua sobre aqueles que começam a perceber os limites do sistema, mas que, diante dos custos associados a um posicionamento fora da lógica dos polos — seja em termos de exposição pública, de perda de pertencimento, de desgaste profissional ou mesmo de isolamento social — optam por não se articular, contribuindo involuntariamente para a manutenção de um sistema que depende exatamente dessa ausência de coordenação para continuar operando.
O resultado da combinação desses três bloqueios é um sistema que se mantém funcional mesmo sendo amplamente percebido como insatisfatório, um sistema em que a polarização não precisa mais convencer, porque ela já se tornou a linguagem dominante, a forma mais disponível de interpretar o mundo, e, portanto, o caminho mais fácil de mobilização, o que dificulta ainda mais a emergência de alternativas que exigiriam um esforço maior de articulação, de compreensão e de construção coletiva.
Diante desse cenário, a tentação de buscar uma saída na forma de uma nova narrativa totalizante — uma nova ideologia, um novo projeto de país, uma nova promessa de reorganização — se torna compreensível, mas talvez seja justamente aí que resida um dos principais riscos de reprodução do problema, porque ao tentar substituir uma narrativa por outra, corre-se o risco de manter intacta a estrutura que transforma a política em disputa de verdades fechadas, impedindo que o sistema avance para formas mais maduras de operação.
Se há uma saída possível, portanto, ela não parece vir na forma de ruptura abrupta ou de solução definitiva, mas como um processo gradual de reorganização que exige, antes de tudo, uma mudança ética, operacional e cultural na forma como a política é compreendida e praticada, começando por uma recusa consciente da linguagem da guerra, mesmo quando ela se mostra eficaz no curto prazo, o que implica abrir mão de certas vantagens táticas em nome de uma reconstrução mais sustentável do campo democrático.
Essa mudança ética precisa ser acompanhada por uma mudança operacional, que envolva a construção de articulações fora da lógica dos polos, tanto dentro quanto fora das estruturas partidárias, sem a dependência de uma figura central que concentre expectativas e responsabilidades, o que exige um tipo de coordenação distribuída que ainda é pouco comum no ambiente político brasileiro, mas que se mostra cada vez mais necessária diante da complexidade dos problemas enfrentados.
Ao mesmo tempo, é fundamental uma mudança cultural mais profunda, que passe pela desconstrução de ideias cristalizadas que continuam a organizar o pensamento político de forma simplificadora, como a dicotomia rígida entre esquerda e direita, a associação do centro à fraqueza, a redução da política a disputa de egos e a crença de que a identidade política precisa necessariamente estar ancorada em uma ideologia fechada, o que limita a capacidade de experimentação e de construção de soluções mais flexíveis e adaptativas.
Esse conjunto de transformações não é trivial, nem rápido, e certamente não ocorrerá de forma homogênea ou coordenada, mas talvez seja justamente essa característica distribuída que permita que ele aconteça, não como um novo “2013” — um evento pontual, explosivo e difícil de sustentar —, nem como a emergência de um líder capaz de capturar e reorganizar o sistema, mas como um processo mais lento, mais difuso e mais profundo de mudança de mindset, no qual indivíduos e grupos começam a operar de maneira diferente, encontram ressonância em outros e, progressivamente, criam novas formas de articulação que podem, ao longo do tempo, reconfigurar o campo político.
Nesse sentido, a releitura de 2013 deixa de ser um exercício histórico e passa a ser uma tarefa prática, na medida em que permite identificar não apenas o que deu errado, mas o que foi perdido e o que ainda pode ser recuperado, entendendo aquele momento não como uma origem da polarização, mas como uma possibilidade de transformação que não foi realizada, e que continua, de certa forma, disponível, desde que sejamos capazes de abandonar as lentes do passado e desenvolver novas formas de pensar e operar a política em um mundo que já não pode mais ser reduzido às categorias que nos trouxeram até aqui.
Se o erro que nos prendeu foi a recusa em fazer esse salto, talvez a saída dependa exatamente da capacidade de realizá-lo agora, não como um movimento coletivo imediato, mas como um processo contínuo de reconstrução de linguagem, de prática e de convivência, que permita, pouco a pouco, reabrir o campo do possível e criar as condições para que a democracia volte a ser não apenas uma narrativa desejada, mas uma forma efetiva de viver e operar o presente.




