O estado de guerra permanente do Irã
E a única maneira de enfrentá-lo é contraditória e trágica
Nada o que os EUA possam fazer, pela diplomacia, vai parar o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica (IRGC). Quando Khomeini, em 1979, fundou a "SS" chamada IRGC, iniciou uma guerra (um 'estado de guerra') permanente (1). O mundo democrático vai acordar para ver isso em que século?
Sim, a guerra do Irã não começou em 2026 e sim em 1979. É a essência do regime teocrático que agora virou policial-militar. A autocracia iraniana (como qualquer autocracia) não faz guerra: ela é a guerra! O Irã teocrático (e agora policial-militar) manteve essa guerra viva por meio de cerca de 20 organizações terroristas coordenadas pelo IRGC. Quem duvida? (2)
Sobrou, para os amantes da paz, uma única saída. Uma saída contraditória e trágica.
Contraditória porque democratas não fazem guerra, a não ser quando seus países são invadidos por forças beligerantes estrangeiras. Mas feita a besteira de abrir uma guerra quente contra o Irã (do modo como foi feito), agora não há saída para os EUA e Israel a não ser fazer o que a Ucrânia está fazendo na sua guerra de defesa contra a Rússia: desabilitar as fontes de circulação e de energia iranianas. Nas circunstâncias atuais, para neutralizar o Irã, em termos militares, seria necessário:
Atacar e destruir as principais estradas, pontes, portos e aeroportos.
Atacar e desabilitar as 10 refinarias de petróleo do Irã (Abadan, Isfahan, Tehran, Bandar Abbas, Arak, Tabriz, Shiraz, Lavan, Kermanshah, Persian Gulf Star).
Atacar e avariar as suas 400 usinas de energia (térmicas, hidreléticas, nuclear e renováveis).
Atacar parte considerável dos cerca de 5 mil poços de extração de petróleo e gás.
É uma saída trágica porque as consequências dessa escalada serão horríveis para a população iraniana (que ficará paralisada no escuro), para os EUA, para Israel e para o mundo. Mas ou é isso ou a derrota (em termos militares) com gravíssimas consequências políticas para a própria democracia.
A vitória do regime policial-militar do Corpo da Guarda da Revolução Islâmica (IRGC) significa que o eixo autocrático (sobretudo as ditaduras do Irã, da Turquia e do Paquistão, da China e da Rússia) passa a comandar o Oriente Médio, controlando definitivamente boa parte do fluxo de combustível para todo o planeta.
Os democratas não dizemos que isso (a busca de vitória militar a qualquer preço) deva ser feito. Assinalamos que a derrota de Trump e Bibi não afetará apenas os EUA e Israel, mas todo o mundo, com terríveis consequências para as democracias liberais.
Enquanto isso vai se tornando enfadonho ouvir os analistas políticos, ditos progressistas, criminalizarem os atos cometidos em uma guerra. Quando os atacados são seus aliados ou seus regimes preferidos, gritam: "Isso é crime de guerra!". A Ucrânia bombardeia usinas de energia da Rússia, mas EUA e Israel não podem fazer a mesma coisa no Irã. Ora... a guerra já é um crime de guerra.
Notas
(1) É bom ler o primeiro capítulo do The Little Green Book do Ayatollah Mosavi Khomeini (1985):
O Islã como uma religião revolucionária
O Islã é a religião daqueles que lutam pela verdade e pela justiça, daqueles que clamam por liberdade e independência. É a escola daqueles que combatem o colonialismo.
Nosso único remédio é derrubar esses sistemas de governo corruptos e corruptores, e depor as gangues traidoras, repressivas e despóticas no poder. Este é o dever dos muçulmanos em todos os países islâmicos; este é o caminho para a vitória de todas as revoluções islâmicas.
Os muçulmanos não têm alternativa, se desejam corrigir o equilíbrio político da sociedade e forçar aqueles no poder a se conformarem às leis e princípios do Islã, a não ser uma jihad armada contra governos profanos.
Embora você possa não ter os meios para impedir a heresia ou combater a corrupção, não se cale. Se lhe baterem na cabeça, proteste! Resignar-se à opressão é mais imoral do que a própria opressão. Argumente, denuncie, oponha-se, grite. Espalhe a verdade: a justiça islâmica não é o que dizem que é. Jihad significa a conquista de todos os territórios não muçulmanos. Tal guerra poderá ser declarada após a formação de um governo islâmico digno desse nome, sob a direção do Imã ou por suas ordens. Será então dever de todo homem adulto e capaz voluntariar-se para esta guerra de conquista, cujo objetivo final é impor a lei corânica de um extremo ao outro da Terra. Mas o mundo inteiro deve compreender que a supremacia universal do Islã é consideravelmente diferente da hegemonia de outros conquistadores. É, portanto, necessário que o governo islâmico seja criado primeiro sob a autoridade do Imã, para que ele possa empreender essa conquista, que será diferente de todas as outras guerras de conquista, que são injustas e tirânicas e desconsideram os princípios morais e civilizatórios do Islã.
Quem libertou nosso país e nosso povo da vergonha do Zoroastrismo, senão o exército vitorioso do Islã?
Há quem não se preocupe em desenvolver um movimento islâmico, mas sim em fazer a peregrinação a Meca com os irmãos muçulmanos, em paz e compreensão. Certamente não era assim na época do Profeta. As orações de sexta-feira eram o meio de mobilizar o povo, de inspirá-lo à batalha. O homem que vai para a guerra diretamente da mesquita teme apenas uma coisa: Alá. Morte, pobreza e falta de moradia não significam nada para ele; um exército de homens assim é um exército vitorioso. A fé e a justiça islâmicas exigem que, no mundo muçulmano, governos anti-islâmicos não tenham permissão para sobreviver. A instalação de um poder público laico equivale a opor-se ativamente ao progresso da ordem islâmica. Qualquer poder não religioso, seja qual for a sua forma, é necessariamente um poder ateu, instrumento de Satanás; é nosso dever opor-nos a ele e lutar contra seus efeitos.
Tal poder satânico só pode gerar corrupção na Terra, o mal supremo que deve ser combatido e erradicado impiedosamente. Para atingir esse objetivo, não temos outro recurso senão derrubar todos os governos que não se baseiam em princípios islâmicos puros e que, portanto, são sistemas administrativos traiçoeiros, corruptos, injustos e tirânicos a seu serviço. Esse não é apenas o nosso dever no Irã, mas também o dever de todos os muçulmanos no mundo, em todos os países muçulmanos: levar a revolução política islâmica à sua vitória final.
(2) O Hezbollah é o Irã, assim como as milícias xiitas no Iraque e na Síria e os demais grupos terroristas apoiados pelo Irã, como o Hamas, a Jihad Islâmica, os Houthis etc.
PRINCIPAIS MILÍCIAS XIITAS NO IRAQUE
Badr Organization, Organização Badr (Brigadas Badr). Uma das maiores e mais antigas (desde os anos 1980). Liderada por Hadi al-Amiri. Tem ala política forte e controla várias brigadas da PMF. Pró-Irã.
Kata’ib Hezbollah, Brigadas do Hezbollah. Uma das mais poderosas e ativas. Muito próxima do Irã e do Hezbollah libanês. Opera brigadas 45-47 da PMF. Acusada de ataques a forças americanas.
Asa’ib Ahl al-Haq (AAH), Liga dos Justos / Asa’ib Ahl al-Haq. Fundada em 2006 por Qais al-Khazali. Saiu do Exército Mahdi de Muqtada al-Sadr. Tem ala política (al-Sadiqoun) e é fortemente pró-Irã.
Kata’ib al-Imam Ali, Brigadas do Imam Ali. Ativa em combates contra o ISIS e na Síria. Recebeu treinamento do Hezbollah.
Kata’ib Sayyid al-Shuhada, Brigadas do Senhor dos Mártires. Focada em operações regionais, incluindo Síria. Pró-Irã.
Harakat Hezbollah al-Nujaba. Movimento Hezbollah al-Nujaba. Liderada por Akram al-Kaabi. Atua no Iraque e Síria. Muito ativa em ataques recentes.
Saraya al-Salam (Peace Companies), Companhias da Paz / Brigadas da Paz. Ligada a Muqtada al-Sadr. Evoluiu do Exército Mahdi.
Saraya al-Khorasani, Brigadas Khorasani. Fortemente alinhada ao Irã (seguidores de Khamenei).
Liwa Ali al-Akbar, Saraya al-Ataba al-Abbasiya e outras ligadas aos santuários xiitas de Najaf/Karbala (mais alinhadas a Sistani).
Kata’ib Jund al-Imam, Saraya Ashura, Saraya al-Jihad (ligadas ao ISCI, partido xiita).
PRINCIPAIS MILÍCIAS XIITAS NA SÍRIA
Ativas durante a guerra civil, quase todas coordenadas pela Força Quds do IRGC (Irã). Muitas se deslocaram para o Iraque após 2024 com o novo governo liderado pelo HTS (Hay’at Tahrir al-Sham, sunita islamista)
Hezbollah, Libanesa (xiita). A mais poderosa e influente. Enviou milhares de combatentes (pico de ~7-10 mil). Atuou em várias frentes, incluindo Qalamoun, Aleppo e fronteira com Israel.
Liwa Fatemiyoun (Brigada Fatemiyoun), Afegã (principalmente hazaras xiitas). Recrutada no Irã. Estimada em 5-14 mil combatentes no pico. Defendia santuários xiitas e atuava em Aleppo, Deir ez-Zor etc. Muitos se retiraram para o Iraque após 2024.
Liwa Zaynabiyoun (Brigada Zaynabiyoun), Paquistanesa (xiitas). Similar à Fatemiyoun, com 2-5 mil combatentes. Focada na proteção de santuários como Sayyida Zaynab (Damasco). Também realocada em grande parte.
Liwa Abu al-Fadl al-Abbas (LAFA), Iraquiana/síria (xiita). Uma das primeiras, focada na defesa do santuário de Sayyida Zaynab. Serviu de base para outras formações.
Kata’ib Hezbollah, Iraquiana (pró-Irã). Enviou combatentes via PMF (Forças de Mobilização Popular). Atuou em várias frentes junto com outras iraquianas.
Harakat Hezbollah al-Nujaba, Iraquiana. Ativa na Síria e no Iraque. Muito próxima do Irã.
Kata’ib Sayyid al-Shuhada, Iraquiana. Enviou forças para defender o regime e santuários.
Imam al-Baqer Brigade e Liwa al-Quds (sírias ou mistas, com apoio iraniano).
Milícias locais sírias xiitas ou pró-Irã em áreas como Aleppo (ex.: de Fu’ah e Zahra) ou sul da Síria.
Unidades mistas sob “Syrian Hezbollah” ou redes do IRGC.



