O fator extraordinário
Infelizmente a polarização entre dois populismos (o lulopetismo e o bolsonarismo) não diminuiu e, ao que tudo indica - se nada de extraordinário acontecer - não vai diminuir e sim aumentar.
Mas o bolsonarismo hoje não é mais o que foi. Só permanece como alternativa competitiva em razão do antipetismo. Se não houver uma alternativa com chances de crescimento, muitas pessoas - que não suportam mais um sexto mandato do PT - votarão num candidato bolsonarista não por opção e sim por falta de opção. Isso, porém, não será suficiente para impedir a reeleição de Lula.
A única maneira de Lula não vencer é o surgimento de uma candidatura que expresse o sentimento difuso, mas generalizado, de cansaço com a polarização e que consiga captar partes expressivas do não-voto desiludido e do voto antipetista. Mas para conseguir ir ao segundo turno é necessário ainda que essa alternativa consiga captar também uma parte significativa do voto antibolsonarista. É difícil, mas impossível não é.
Para os democratas (não-populistas), entretanto, não há outro caminho. Ainda que essa alternativa aos dois populismos só se concretize em 2030, ela passa por 2026.
Os novos populismos do século 21 são resilientes. Na verdade, digam-se de direita ou de esquerda, são antipluralismos e, assim, são não-liberalismos. Podem durar décadas pairando como forças dementadoras sobre nossas consciências. Ainda que todos os populismos não sejam necessariamente autocráticos, eles se inscrevem na terceira onda de autocratização das democracias em curso neste século. Ou se alinham a Putin ou a Trump - ou a ambos. Ou se alinham à Hungria e a El Salvador ou ao Irã e à Cuba.
A polarização tóxica não é um efeito colateral da disputa entre dois populismos. Ela é funcional para a manutenção desses populismos. E ela é um elemento da netwar (a segunda grande guerra fria global) movida pelo eixo autocrático contra as democracias. Ela instala a polarização para provocar a divisão dentro das sociedades e, com isso, fragilizar os regimes democráticos, sobretudo os liberais.
Não se conseguirá superar os populismos por um golpe de sorte eleitoral. É necessário um movimento político democrático com um programa para o país. No Brasil, se não houver um movimento desse tipo em torno de uma candidatura não-bolsonarista e não-lulopetista para 2026, esses populismos podem continuar parasitando nosso regime político por muitos e muitos anos, em 2030 e além.
Eis a responsabilidade que cai agora sobre os ombros de jovens líderes políticos democráticos - como Eduardo Leite e Alessandro Vieira - que não são bolsonaristas nem lulopetistas. Se eles conseguirem pensar mais no país do que nos seus próprios interesses políticos individuais, devem entrar nesse movimento democrático pela superação dos populismos que estão envenenando o espaço público brasileiro.
Se um movimento desse tipo crescer é sinal de que aquele fator extraordinário, tantas vezes evocado, estará presente nas próximas disputas, quebrando a dependência da trajetória que dá como quase certa a eleição de um populista para, mais uma vez, presidir a nossa república.



