O imbecil é sempre o outro
Mauai M. H. Toledo, Inteligência Democrática (16/08/2026)
Valter Hugo Mãe escreveu um livro chamado O Século dos Imbecis. O título, convenhamos, ajuda. Você passa por ele numa livraria e alguma coisa reconhece alguma coisa.
É isso.
Estamos cercados deles.
No trabalho tem um. No grupo da família, dois ou três. Nas redes sociais, uma multidão. Dependendo do dia, no trânsito parece haver uma concentração nacional.
Há apenas um pequeno problema nessa contabilidade: o imbecil é sempre o outro.
E talvez seja justamente aí que o livro comece a ficar perigoso.
No romance, Valter Hugo Mãe cria uma imagem simples e difícil de esquecer. Agilulfo, um marquês em tempos de República, sofre uma condição curiosa: quando sobe a montanha, fica mais lúcido; quando desce, emburrece. E há mais tentação para descer do que para subir.
A imagem quase dispensa explicação. Subir exige esforço. O corpo inclina, a perna pesa, o ar muda. Para descer, basta em algum momento deixar o peso trabalhar.
Talvez tenhamos construído uma época muito boa para descidas.
Você abre o celular, passa o dedo e encontra um título. Passa de novo e assiste a quinze segundos de alguém falando. Mais um movimento e aparece uma frase arrancada de uma entrevista. Alguém comenta: “É exatamente isso!”. Você lê, concorda, compartilha e, em menos de um minuto, já sabe o que pensa sobre um assunto no qual, sessenta segundos antes, nem estava pensando.
A montanha ficou para trás.
Mas atribuir tudo isso às redes sociais seria confortável demais. Elas aceleram, amplificam, recompensam certos comportamentos, mas a questão pode ser anterior ao celular. Há alguma coisa em nós que aprecia a certeza.
Estar certo dá uma sensação boa. O mundo se ajeita. Se eu sei quem está errado, sei onde devo ficar. Se reconheço o ignorante, preservo minha inteligência. Se encontro o intolerante, confirmo minha tolerância. E há uma vantagem adicional: não preciso me examinar.
Posso examinar você.
A imbecilidade do outro chega até nós pronta, iluminada, às vezes em alta definição. A nossa é mais discreta. Pode estar sentada conosco à mesa e ainda pedir sobremesa.
Por isso, é insuficiente tratar a imbecilidade como falta de inteligência. Pessoas inteligentes simplificam. Pessoas cultas deixam de escutar. Especialistas defendem territórios. Professores interrompem. Comunicadores podem falar sobre escuta enquanto esperam impacientemente sua vez de falar.
Eu mesmo posso conhecer teorias sobre comportamento humano, comunicação e presença e, numa conversa difícil, não perceber o instante em que deixei de ouvir. O outro continua falando, faço que sim com a cabeça, posso até produzir uma expressão facial bastante convincente, mas já não estou lá. Estou dentro de mim preparando a resposta.
Posso saber muito sobre escuta e não escutar, estudar presença e me ausentar, defender o diálogo enquanto afio silenciosamente meu próximo argumento.
Conhecimento acumulado não garante consciência em funcionamento.
Isso desloca o problema. A imbecilidade pode não ser apenas uma condição intelectual. Pode ser também um modo de relação.
Posso ter repertório, experiência, livros lidos, títulos, argumentos e ainda assim tornar-me impermeável. Nada entra sem antes apresentar passaporte para aquilo que já penso. Se concorda comigo, entra. Se ameaça minhas certezas, é barrado na fronteira.
E o mais interessante é que essa passagem pode acontecer muito depressa.
Alguém diz alguma coisa com a qual discordamos e o corpo costuma chegar antes. O maxilar prende um pouco, o peito muda, a respiração encurta. Enquanto o outro continua falando, uma frase começa a ser montada dentro de nós. Depois outra. Encontramos o argumento, lembramos do exemplo, recuperamos aquela informação decisiva que finalmente encerrará o assunto.
O outro ainda não terminou.
Mas nós terminamos.
Já sabemos.
Em poucos segundos, uma pessoa curiosa pode se transformar numa pessoa certa. A inteligência continua ali. O repertório não desapareceu, nenhum livro precisou ser esquecido, nenhum ponto de QI evaporou. O que se estreitou foi o campo de possibilidades. Já não estou diante do outro para descobrir alguma coisa. Estou diante dele para confirmar, corrigir, vencer ou me proteger.
Perdeu-se disponibilidade.
Uma pequena descida da montanha.
Faço isso. Você faz. Imagino que Valter Hugo Mãe também faça, embora seja prudente não colocar palavras na boca de um escritor português só porque gostamos do romance dele.
Talvez a pergunta, então, não seja quantos imbecis existem no mundo, mas em que condições cada um de nós se torna um deles.
Hoje mesmo essa pergunta me pegou numa esquina.
Eu conversava com dona Celina, que voltava da fisioterapia apoiada numa bengala. Tínhamos acabado de subir uma rua e paramos um pouco na esquina. Ela de bengala ao meu lado, eu com o celular numa mão e o carrinho da feira na outra. Não formávamos exatamente uma instalação urbana, mas ocupávamos algum espaço.
Uma senhora vinha pela calçada acompanhada do filho. Aproximou-se, parou diante de mim e ficou me olhando. Não pediu licença, não tentou passar pelo lado. Apenas me olhou com uma expressão que eu imediatamente li como raiva.
Meu primeiro pensamento?
Olha como estão as pessoas.
Pronto.
Ela nem precisava mais fazer nada.
Uma mulher numa esquina tinha acabado de se transformar, dentro da minha cabeça, em “as pessoas”.
É impressionante a eficiência dessa pequena fábrica. O acontecimento era simples: uma mulher parou diante de mim e me olhou de um jeito que interpretei como hostil. Em poucos segundos, porém, eu já tinha saído daquela calçada e começado a produzir uma tese sobre a humanidade.
Essa mulher é grosseira.
As pessoas estão grosseiras.
Olha como o mundo está.
Três degraus.
Acontecimento. Pessoa. Humanidade.
E o melhor — ou o pior — é que bastava eu responder.
“Minha senhora, é só passar pelo lado.”
Dependendo do tom, ela responderia. Eu devolveria. Ela aumentaria um pouco. Eu também.
Pronto.
Dois imbecis plenamente constituídos numa esquina de São Paulo.
E provavelmente cada um iria embora levando consigo provas bastante convincentes da imbecilidade do outro.
Ela poderia contar em casa sobre o sujeito sem noção que bloqueava a calçada com um carrinho de feira. Eu poderia contar sobre a mulher grosseira que não era capaz de pedir licença.
Os dois certos.
Os dois ofendidos.
Os dois descendo a montanha.
O que me interessa nessa cena não é descobrir quem tinha razão. Nem transformar aquela senhora em personagem de um diagnóstico sobre o nosso tempo. É justamente o contrário.
Eu não sei de onde ela vinha. Não sei para onde ia. Não sei se estava atrasada, cansada, preocupada, irritada ou se aquele era apenas um mau minuto de um dia qualquer.
Sei o que aconteceu comigo.
Em poucos segundos, deixei de descrever um acontecimento e comecei a explicar quem o outro era.
E quase expliquei quem “as pessoas” eram.
A imbecilidade pode começar aí: quando paramos de perceber o que aconteceu e começamos depressa demais a explicar quem o outro é.
A montanha de Valter Hugo Mãe, naquele momento, deixou de ser metáfora literária.
Virou esquina.
Há um instante entre aquilo que acontece e aquilo que fazemos com o acontecido. Na maior parte das vezes ele passa despercebido. Alguém fala, meu corpo responde, interpreto, sinto e, quando percebo, já estou devolvendo alguma coisa.
Mas o intervalo existe.
Às vezes cabe nele apenas uma pergunta: o que está acontecendo comigo agora?
Não com o outro. Comigo.
Por que essa frase me apertou? Por que preciso responder tão rápido? Quando foi que parei de ouvir? O que estou tentando proteger?
Há outra pergunta ainda mais incômoda: o que precisaria acontecer para eu mudar de ideia?
Vale experimentar com uma certeza das boas. Daquelas que sabemos que sabemos. Não escolha uma bobagenzinha qualquer só para cumprir o exercício e sair intelectualmente ileso. Escolha uma convicção estimada, dessas que mantemos bem alimentadas.
O que me faria mudar de ideia?
Se a resposta for “nada”, talvez tenhamos encontrado uma trilha descendo a montanha.
É tentador olhar para nosso tempo e concluir que as pessoas ficaram mais burras. Não sei. Desconfio de diagnósticos que colocam o diagnosticador automaticamente entre os lúcidos.
Pode ser mais interessante observar os ambientes e relações que favorecem nossas descidas. Há situações em que a resposta rápida encontra aplauso, a indignação encontra companhia, a certeza encontra seguidores e a dúvida chega atrasada à conversa, meio sem graça, procurando uma cadeira vazia.
Subir continua possível. Só dá mais trabalho.
Às vezes subir é terminar de ouvir a frase. Suportar alguns segundos sem resposta. Perguntar antes de concluir. Perceber o maxilar. Soltar o ar. Admitir que aquilo que o outro disse talvez contenha alguma coisa que ainda não cabe no que já sabemos.
E aceitar uma hipótese que não costuma render muitos aplausos: posso estar errado.
Não algum dia. Não teoricamente. Agora. Nesta conversa. Neste assunto. Nesta certeza que estou defendendo com tanta competência.
Essa é uma das provocações mais saborosas de O Século dos Imbecis. O título permite que entremos olhando para a rua.
Olha lá.
Um imbecil.
Outro.
Mais um.
A literatura tem dessas coisas. Enquanto estamos distraídos fazendo o censo dos imbecis do mundo, alguém coloca discretamente um espelho na nossa frente.
Hoje, por alguns segundos, o meu estava numa esquina.
E aí a pergunta deixa de ser quem são eles.
Passa a ser outra: em que momento eu comecei a descer a montanha?



