Quando Lula ganhou em 2022, tive algumas conversas com amigos que voltaram à minha cabeça agora. Havia naquele momento uma crença de que, para além de tirar Bolsonaro, sua eleição representaria uma recomposição democrática por meio de uma “frente ampla”. Eu nunca acreditei nisso. Já vinha havia quase dez anos estudando democracia, redes, centralização e distribuição de poder e minha leitura do lulopetismo já era bastante crítica: um movimento populista, de natureza iliberal e com profunda vocação hegemônica. Não no sentido simplório de acabar com eleições ou instalar uma ditadura, mas de expandir poder por dentro das instituições, ocupar progressivamente espaços de mediação e produzir uma narrativa na qual seu próprio campo vai se confundindo com “a democracia”, enquanto adversários passam a representar ameaças à própria ordem democrática. A frente ampla de 2022 existiu como aliança circunstancial para derrotar Bolsonaro. Como projeto pluralista de poder sempre foi uma farsa.
Isso não alterava uma questão concreta: Bolsonaro precisava sair. Eu dizia aos meus amigos, com todas as letras, que as duas coisas eram verdadeiras ao mesmo tempo. Tirar Bolsonaro era necessário, mas Lula não resolveria o problema que nos havia levado até ali e havia grandes chances de agravá-lo. Lula não estava fora da polarização. Era um de seus polos. E a fórmula que havia possibilitado aquela eleição — transformar o adversário numa ameaça excepcional, diante da qual medidas e alianças excepcionais se tornam justificáveis — dificilmente desapareceria depois dela.
Quatro anos depois, uma provocação do Augusto de Franco no site X me parece muito pertinente para pensar o cenário atual:
“Mesmo que Lula vença a eleição, depois de fazer o diabo para isso (às custas da destruição da independência das instituições, como vem fazendo), seu quarto governo (e o sexto do PT) será altamente instável. Será crise seguida de crise e, o pior, sem instituições capazes de mediar o conflito. Só restará a repressão. Mas não é possível transformar o Brasil numa Cuba, numa Venezuela, num Irã ou numa Rússia. Então podemos afirmar, com quase 100% de certeza, que vai dar errado.”
“Flávio está empatando com Lula não porque a sociedade concorde com suas ideias, muito menos porque morra de amores por ele e sim porque não aguenta mais o PT no governo. Chega uma hora que não dá mais. O Brasil está cansado de Lula.”
Para mim, o ponto mais grave está justamente nas instituições capazes de mediar o conflito. Porque, quatro anos atrás, não tínhamos um Supremo tão deteriorado, tão exposto e tão profundamente inserido no centro da disputa política quanto temos agora. A crise recente deixou de ser uma impressão externa: o próprio STF aparece dividido em grupos. O núcleo formado em torno de Alexandre de Moraes, acompanhado nas disputas mais recentes por Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin, tem demonstrado comportamento político e acusado outros membros da corte de fazer o mesmo.
Isso é muito grave. Não porque esses ministros votem sempre juntos ou porque exista evidência irrefutável de que recebam ordens do governo — não é esse o argumento. O problema é chegarmos ao ponto em que a instituição que deveria ser uma das últimas instâncias de mediação do conflito nacional passa ela própria a ser compreendida em termos de blocos, alianças e estratégias políticas. Quando o árbitro entra no campo, mesmo que inicialmente tenha entrado para defender as regras do jogo, recuperar depois sua posição de árbitro é muito difícil.
E aqui existe um assombro venezuelano que eu acho irresponsável simplesmente descartar como paranoia. Brasil não é Venezuela, Lula não é Chávez e nossa estrutura institucional é diferente. Mas deveríamos estudar seriamente como democracias se deterioram por dentro. Chávez não começou extinguindo eleições. Um dos momentos fundamentais da captura institucional venezuelana ocorreu justamente no Supremo: em 2004, sua maioria legislativa ampliou a Corte de 20 para 32 integrantes e preencheu as novas cadeiras com aliados. A Human Rights Watch descreveu posteriormente esse processo como uma tomada política do Judiciário e concluiu que a Corte deixou progressivamente de funcionar como contrapeso ao Executivo.
Não estamos lá. Mas é justamente por não estarmos que deveríamos prestar atenção antes.
Lula já indicou Zanin e Dino. O STF hoje está incompleto, com dez ministros, e novas aposentadorias compulsórias ocorrerão nos próximos anos. A combinação de um projeto político que considero hegemonista, permanência prolongada no Executivo e uma Corte já politicamente hipertrofiada já preocupa alguns amigos liberais que votaram em Lula em 2022 para retirar Bolsonaro e que sinalizaram estar repensando seu voto. O problema não é afirmar que Lula “controla o STF”. É perceber o risco de uma progressiva concentração de poder quando justamente os freios e contrapesos estão perdendo legitimidade.
Só que Flávio Bolsonaro também não resolve absolutamente nada disso.
É por isso que acho estranho ver gente se dizendo aliviada com seu crescimento. Aliviada com o quê, cara-pálida? Uma vitória de Flávio reorganizaria a mesma guerra do outro lado. Teríamos um governo bolsonarista enfrentando um Supremo já conflagrado, uma esquerda novamente organizada como resistência, uma direita mobilizada contra “o sistema” e outra eleição inteira transformada numa batalha existencial. Troca-se a direção do conflito e preserva-se sua estrutura.
Esse é o looping.
O lulopetismo precisa do bolsonarismo para continuar se apresentando como último anteparo contra uma ameaça autoritária. O bolsonarismo precisa do lulopetismo e do STF para se apresentar como última resistência contra um sistema capturado. Quanto mais assustador um parece, mais indispensável o outro se torna. Cada campo produz o argumento eleitoral do adversário. E quando uma nova crise explode, fazemos uma coisa ainda mais curiosa: inventamos explicações específicas para ela sem considerar que a própria polarização pode ser a máquina que produz crises sucessivas e cada vez mais profundas. A culpa é sempre do outro. Nunca da dinâmica que mantém os dois vivos.
É por isso que insistir em procurar, neste momento, “o candidato ideal” me parece perder parte do problema. Claro que competência, integridade, propostas e capacidade de governar importam. Mas chegamos a uma situação em que não pertencer a nenhum dos dois polos já possui valor institucional próprio. Quando digo provocativamente que quase qualquer um serviria para interromper esse processo, é nesse sentido. Um político convencional de centro, alguém do Centrão, alguém que eu provavelmente não escolheria em condições políticas normais. Não para salvar o Brasil ou fazer todas as reformas que precisamos. Para interromper.
O Brasil tem uma vantagem enorme para isso: não somos um país bipartidário e nossa eleição presidencial tem dois turnos. O primeiro deveria servir justamente para abrir possibilidades. Só que fazemos o contrário. Meses antes da eleição começamos a perguntar quem “tem chance”, entramos no voto útil, descartamos alternativas e produzimos coletivamente o segundo turno que depois lamentamos. Transformamos um sistema multipartidário numa espécie de bipartidarismo emocional.
Neste momento, é difícil imaginar alguém que está numa terceira posição conseguindo romper essa dinâmica ainda nesta eleição. Não é impossível — política nunca é completamente determinada —, mas parece pouco provável. E, se for assim, estaremos empurrando mais uma vez para a frente a possibilidade de quebrar o looping.
É isso que mais me preocupa.
Porque quatro anos atrás o STF não estava onde está hoje. A confiança institucional não estava onde está hoje. A tensão entre os campos não estava onde está hoje. Nós não permanecemos parados dentro desse ciclo. Estamos nos deteriorando dentro dele.
A próxima pernada, seja com Lula ou com Flávio, pode nos entregar em 2030 um país ainda mais polarizado, instituições ainda menos capazes de mediar conflitos e uma sociedade ainda mais convencida de que o problema é exclusivamente o outro lado. E provavelmente inventaremos novas explicações para a nova crise, novamente sem perceber a máquina que continua produzindo todas elas.
Por isso a responsabilidade não está apenas nos candidatos. Está também em quem forma opinião pública, nos intelectuais, jornalistas, empresários, artistas, professores e em todos aqueles capazes de recusar essa falsa escolha permanente. Enquanto continuarmos justificando nosso polo pelo horror ao polo adversário, estaremos alimentando exatamente aquilo que dizemos combater.
Em 2022 eu dizia aos meus amigos que tirar Bolsonaro era necessário, mas Lula não resolveria nosso problema e poderia agravá-lo. Quatro anos depois, estamos diante da possibilidade de escolher novamente entre Lula e um Bolsonaro, agora com instituições mais deterioradas do que estavam naquela época.
Se não conseguirmos interromper isso agora, teremos de tentar novamente daqui a quatro anos.
Espero que ainda haja tempo.
Porque o que realmente me assusta não é apenas chegar a 2030 numa situação pior.
É chegar lá e descobrir que deixamos a deterioração avançar tanto que quebrar o looping já não seja mais possível.




