Existe uma frase que aparece em quase toda conversa política quando alguém começa a perder a paciência com a democracia: “o problema é que o povo não sabe escolher”.
Ela costuma vir acompanhada de um suspiro. Às vezes de uma taça de vinho, de um diploma, ou de uma planilha.
Às vezes de alguém que acabou de passar quarenta minutos explicando por que a população é manipulável, desinformada, emocional, ignorante, tribal, incapaz de compreender questões complexas e, portanto, não deveria ter tanta influência sobre decisões importantes. Curiosamente, a conclusão quase nunca é que essa pessoa também deveria abrir mão da própria influência. O ignorante é sempre o outro. O manipulado é sempre o outro. O eleitor emocional é sempre o outro. Nós, por alguma coincidência estatística extraordinária, estamos sempre no pequeno grupo que conseguiu atravessar a névoa e enxergar as coisas como realmente são.
É uma das tentações mais antigas da política. E a filosofia não está inocente nisso.
Platão desconfiava profundamente da democracia ateniense, e não é difícil entender de onde vinha parte dessa desconfiança. Ele viu a cidade que se orgulhava da palavra pública condenar Sócrates à morte. Viu demagogia, instabilidade, disputa entre facções, decisões coletivas ruins, líderes capazes de seduzir multidões, uma guerra desastrosa e uma cidade que podia oscilar entre democracia e oligarquia com a serenidade de quem troca de governo porque deu errado de novo. Não estamos falando de um filósofo sentado confortavelmente dois milênios depois julgando um sistema político por tabela de indicadores. Platão viveu o trauma daquela experiência e respondeu a ele com uma pergunta compreensível: se governar exige conhecimento, por que entregar decisões decisivas a quem não sabe?
Parece razoável.
É justamente por isso que a ideia é tão sedutora.
Se você vai operar meu coração, espero sinceramente que saiba mais de cirurgia cardíaca do que eu. Se o avião em que estou entrando apresentar algum problema, não quero uma assembleia participativa entre os passageiros para decidir o procedimento de pouso. Se uma ponte será construída sobre um vale, prefiro que o cálculo estrutural seja feito por alguém que conheça engenharia e não pelo vencedor de uma enquete no Instagram. Conhecimento importa. Competência importa. Experiência importa. Uma sociedade que despreza conhecimento em nome de uma caricatura de igualdade não fica mais democrática; fica burra.
O salto acontece depois.
Porque uma coisa é reconhecer que alguém sabe mais sobre determinado problema. Outra, completamente diferente, é concluir que saber mais lhe dá o direito de decidir qual mundo todos os outros devem habitar.
É nesse pequeno deslocamento que o especialista começa a sonhar com o trono.
Platão produz uma das imagens mais poderosas dessa tentação quando constrói a figura do filósofo-governante. Se existe alguém capaz de conhecer o Bem de maneira mais adequada, alguém educado para atravessar as aparências e alcançar uma compreensão superior da realidade, por que não entregar a cidade a essa pessoa? Parece quase irresponsável fazer o contrário. Afinal, se o navio enfrenta uma tempestade, não escolhemos o capitão por popularidade. Se estamos doentes, não fazemos uma votação entre os pacientes para decidir o tratamento. Então por que o governo da cidade, tarefa muito mais complexa, deveria ficar submetido à opinião de gente que não conhece aquilo sobre o que decide?
A pergunta é boa. O problema é que a resposta vem junto com a chave de uma prisão.
Porque cidade não é coração para ser operado. Sociedade não é ponte. O mundo comum não é um problema técnico cujo resultado correto existe antes das pessoas que precisarão vivê-lo. Quando um engenheiro calcula a resistência de uma viga, existe um domínio do real que impõe limites muito duros à opinião dele. A ponte não se emociona, não reivindica pertencimento, não muda de ideia, não sofre humilhação, não pergunta por que outro projeto de vida foi escolhido para ela. Pessoas fazem isso. Mundos sociais fazem isso. E a política começa justamente onde conhecimento técnico deixa de ser suficiente para responder a perguntas que envolvem valor, desejo, liberdade, risco, pertencimento, distribuição de custos e a simples questão incômoda de quem vai viver com as consequências da decisão.
Não existe fórmula científica capaz de dizer quanto de liberdade uma sociedade deve trocar por segurança, que tipo de cidade vale a pena construir, que desigualdade é aceitável, que futuro merece investimento, que tradição deve ser preservada, que sofrimento pode ser imposto em nome de um benefício coletivo, que vida é digna, que risco vale correr ou quanto de nossa própria autonomia estamos dispostos a entregar para alguém que promete nos proteger de nós mesmos.
Isso não significa que todas as opiniões tenham o mesmo valor.
Aqui mora outra confusão infantil.
A democracia não exige que você trate a opinião de um infectologista sobre uma epidemia como equivalente à opinião do seu cunhado que viu um vídeo de sete minutos e “pesquisou bastante”. Não exige que ciência seja decidida por votação. Não exige que qualquer bobagem seja elevada a conhecimento apenas porque alguém a pronunciou com convicção. Conhecimento possui critérios próprios. Evidência possui critérios. Ciência possui métodos. Filosofia possui exigências argumentativas. Técnica possui competência.
Mas a política pergunta outra coisa depois que todo esse conhecimento chega à mesa: quem tem autorização para transformar conhecimento em mundo obrigatório para os outros?
Essa pergunta muda a cena inteira.
Porque a fantasia do sábio governante não desapareceu junto com a pólis grega. Apenas trocou a barba do filósofo por outras roupas. Às vezes aparece no tecnocrata convencido de que o problema da democracia é haver gente demais atrapalhando decisões que seriam obviamente melhores se deixadas aos “competentes”. Às vezes aparece no empresário que diz que empresa não é democracia, frase verdadeira num sentido banal, e usa isso como autorização para tratar pessoas adultas como extensões operacionais da própria vontade. Às vezes aparece no professor que fala de pensamento crítico durante duas horas e se irrita quando o aluno pensa criticamente na direção errada. Às vezes aparece no líder espiritual que afirma que todos possuem sua verdade, desde que nenhuma delas contrarie a dele. E aparece com uma pureza especialmente engraçada em intelectuais que passam a vida denunciando estruturas de poder e, assim que alguém do próprio grupo discorda, descobrem subitamente as virtudes pedagógicas da obediência.
O problema nunca foi apenas não saber. O problema é o que fazemos quando acreditamos saber.
A democracia introduz uma humilhação muito específica para quem possui conhecimento: saber mais não transforma ninguém em dono do mundo comum.
Isso dói. E dói no filósofo, no cientista, no juiz, no economista, no empresário, no professor, dói até em mim.
Dói em qualquer pessoa que passou anos estudando uma coisa, olhando o problema por ângulos que os outros não olharam, desenvolvendo repertório, construindo critério, até chegar a uma reunião onde alguém que claramente sabe menos sobre aquele assunto recebe o mesmo direito de dizer: “não quero viver desse jeito”.
É irritante. Mas é exatamente aí que a democracia começa a mostrar sua natureza.
Porque conhecimento pode aumentar nossa responsabilidade na conversa, pode nos dar argumentos melhores, pode nos tornar capazes de prever consequências que outros não enxergam, pode nos conceder autoridade intelectual, profissional ou técnica, mas não nos entrega automaticamente autoria exclusiva sobre o mundo dos outros. Uma pessoa pode conhecer muito sobre planejamento urbano e ainda assim não saber como é criar três filhos no bairro que pretende redesenhar. Pode conhecer economia e ignorar o que uma determinada política faz com o corpo de quem precisa escolher entre comprar comida e pagar aluguel. Pode conhecer educação e jamais ter observado seriamente como uma criança aprende quando ninguém está ensinando. Pode conhecer política pública e não saber o nome do sujeito que abre a padaria às cinco da manhã na rua que seus modelos tratam como “unidade territorial”.
Jane Jacobs já tinha dado uma bela rasteira nessa arrogância quando mostrou que o conhecimento dos planejadores não substituía a inteligência viva das ruas. John Holt fez algo semelhante com a aprendizagem ao perceber que a criança não espera a pedagogia começar para aprender. A vida tem esse hábito inconveniente de produzir inteligência fora dos departamentos autorizados.
Democracia é, entre outras coisas, o sistema nervoso político dessa inconveniência.
Platão tinha razões para temer a opinião porque opinião pode ser péssima. Pode ser manipulada, preconceituosa, ignorante, cruel. Multidões podem ser estúpidas. Aliás, indivíduos também. Especialistas também. Filósofos também. A história possui um estoque bastante constrangedor de gente extremamente inteligente defendendo ideias monstruosas para que a inteligência, sozinha, continue sendo tratada como vacina contra barbárie.
Karl Popper atacou Platão justamente nesse ponto ao colocá-lo entre os adversários da sociedade aberta. Há controvérsia nessa leitura, como existe em qualquer interpretação forte de um autor com dois milênios e meio de comentários em cima, mas a provocação de Popper continua valendo porque percebe uma tentação política que atravessa o pensamento de diferentes épocas: a vontade de fechar a sociedade em torno de um conhecimento sobre aquilo que ela deveria ser. Quando alguém acredita conhecer a forma correta e final do mundo, o dissenso deixa de ser contribuição e começa a parecer defeito. A crítica passa a ser resistência. A diversidade deixa de ser realidade e passa a ser ruído. O futuro deixa de ser abertura e vira implementação.
Já vimos esse filme. O cenário muda, a trilha sonora também, mas a vontade de dirigir os outros continua.
E aqui Sócrates torna a história muito mais interessante do que a versão escolar em que um sábio inocente é morto por uma democracia burra, uma narrativa tão limpa que deveria gerar desconfiança imediatamente. I. F. Stone passou anos investigando o julgamento e fez uma leitura muito mais incômoda: Sócrates não vivia num vácuo filosófico. Seus vínculos, seus discípulos, sua crítica à democracia, o trauma recente da oligarquia dos Trinta Tiranos, figuras próximas a ele envolvidas em movimentos antidemocráticos e a fragilidade política de Atenas depois de guerra, derrota e violência compõem um contexto que a imagem romântica do mártir da liberdade costuma apagar.
Stone não precisava defender a condenação para perguntar o que havia acontecido ali. E essa é a parte boa. A democracia ateniense cometeu um erro enorme ao condenar Sócrates. Uma cidade que reivindica liberdade da palavra fracassa quando mata alguém pela palavra, mesmo quando aquela palavra é profundamente incômoda para a própria democracia. Ao mesmo tempo, transformar Sócrates apenas em vítima apolítica de uma massa ignorante também esconde o conflito real: sua relação com a democracia era problemática, sua concepção de conhecimento tinha consequências políticas e a cidade que o julgou ainda carregava cicatrizes muito recentes de gente convencida de que os muitos não deveriam governar.
É uma história melhor porque ninguém sai limpo.
E eu gosto mais quando ninguém sai limpo.
A democracia que abriu espaço para Sócrates filosofar não soube suportá-lo até o fim. O filósofo que ensinava a interrogar certezas desconfiava profundamente da capacidade política dos cidadãos comuns. A cidade aberta matou uma voz incômoda. A voz incômoda colocava em questão a própria abertura da cidade.
Pronto. Agora temos humanos. E temos um problema que continua vivo.
Porque a tensão entre conhecimento e opinião nunca desapareceu. Ela apenas cresceu em escala. Temos hoje uma quantidade de conhecimento técnico que um ateniense não conseguiria sequer imaginar, especialistas capazes de modelar epidemias, clima, economia, tráfego, segurança, comportamento, informação, redes, inteligência artificial, urbanização, risco. E isso é extraordinário. Seria imbecilidade transformar a crítica à tecnocracia numa guerra contra conhecimento. O que precisamos é justamente do contrário: mais conhecimento, mais ciência, mais acesso, mais inteligência distribuída, mais gente capaz de compreender problemas complexos.
Mas nenhum aumento de conhecimento resolve sozinho a pergunta democrática.
Quem decide?
E, sobretudo, quem decidiu que quem sabe alguma coisa sabe também o bastante sobre a vida dos outros para escolher em nome deles?
Rancière aperta essa ferida por outro lado ao insistir numa ideia particularmente ofensiva para qualquer ordem bem organizada: democracia começa com a igualdade política daqueles que não possuem título especial para governar. Não porque todos saibam igualmente, nem porque competência seja ficção, mas porque não existe diploma natural de senhor. Riqueza não dá direito de mandar. Nascimento também não dá, muito menos sabedoria, santidade, força, ou um diploma. Uma votação pode conceder mandato temporário, instituições podem atribuir competências específicas, conhecimento pode produzir autoridade localizada, mas nenhuma dessas coisas transforma alguém em fonte ontológica do mundo comum.
É por isso que a democracia sempre parece um pouco indecente para quem acredita muito em hierarquia.
Ela permite que o sujeito sem currículo levante a mão. Permite que a mulher da periferia diga ao urbanista que o projeto dele é uma porcaria para quem mora ali. Que o trabalhador pergunte ao economista quem vai pagar a conta daquela eficiência toda. Que o aluno encontre um erro no professor. Que o paciente faça perguntas ao médico. Que o eleitor rejeite uma proposta tecnicamente sofisticada porque não aceita o tipo de vida que ela produziria.
Isso pode produzir decisões ruins?
Claro.
E qual é exatamente a alternativa que produz apenas decisões boas?
Entregar tudo aos inteligentes?
Boa sorte escolhendo quais inteligentes.
Essa parte costuma desaparecer da conversa. “O povo não sabe escolher”, dizem. Certo. Então quem escolhe quem vai escolher pelo povo? Os mais escolarizados? Quem define escolarização relevante? Os cientistas? Quais disciplinas? Os economistas? Qual escola econômica? Os juízes? Nomeados por quem? Uma comissão independente? Independente de quê? Os empresários de sucesso? Vamos medir sucesso em dinheiro? Os filósofos? Deus nos livre de um conselho mundial de filósofos decidindo horário de padaria.
Toda tentativa de resolver a imperfeição democrática entregando o mundo a uma elite encontra, alguns metros adiante, exatamente o problema que tentou evitar: alguém precisa decidir quem são os sábios.
E esse alguém já ganhou poder demais.
Esse é o pequeno truque escondido em quase toda frase que começa com “as pessoas não têm preparo para decidir”. Pode ser verdade que muitas não tenham. O que não aparece na frase é a continuação: “portanto, alguém deve decidir por elas”. E é justamente aí que precisamos prestar atenção em quem está falando, porque a pessoa que diagnostica a incapacidade popular costuma apresentar, ainda que discretamente, a própria classe, formação, grupo, partido, profissão ou visão de mundo como candidata natural ao posto vago.
Não precisa usar coroa. Hoje o senhor pode usar crachá, jaleco, toga, TED Talk, perfil verificado, gráfico, e pode até usar a expressão “baseado em evidências” para uma parte da decisão e esconder dentro dela escolhas morais que evidência nenhuma resolveu. Todos estes, podem até falar em “defender a democracia”.
A roupa nunca foi o problema. O problema é o monopólio da criação do real comum.
A Ontogênese me leva a tratar essa questão num lugar diferente da velha oposição entre ignorância popular e sabedoria das elites. Mundos sociais não são apenas objetos que especialistas observam de fora. As pessoas que os habitam participam de sua existência, sofrem seus custos, sustentam suas regras, carregam suas reputações, recebem suas promessas, sentem no corpo aquilo que uma descrição técnica consegue apenas representar. Isso não significa que viver algo produza automaticamente compreensão sobre aquilo. Experiência também engana. A pessoa pode morar num mundo e não entender nada da estrutura que o produz. Mas significa que nenhum conhecimento sobre o mundo social pode justificar a expulsão ontológica daqueles cuja vida está sendo organizada por ele.
Conhecer melhor um mundo não faz dele seu.
É uma distinção brutalmente simples.
Um médico conhece meu corpo de maneiras que eu não conheço. Ainda assim, o corpo continua sendo meu.
Um arquiteto conhece uma casa de formas que o morador talvez jamais conheça. Ainda assim, é o morador que acordará ali numa terça-feira chuvosa.
Um economista consegue enxergar relações que escapam ao trabalhador. Ainda assim, é o trabalhador que encontrará determinado preço no supermercado.
Um professor estudou aprendizagem durante décadas. Ainda assim, nenhuma teoria autoriza transformar o aluno em objeto passivo do seu saber.
Conhecimento entra no comum oferecendo potência. Autocracia começa quando conhecimento exige propriedade.
E talvez essa seja uma das grandes confusões do nosso tempo, porque quanto mais complexos ficam os problemas, maior se torna a vontade de entregar tudo a quem “entende”. Faz sentido até certo ponto. Não quero decidir engenharia de barragem em plebiscito. Quero especialistas calculando a barragem. Mas decidir se determinado vale deve ser inundado, que comunidade será deslocada, que custo ambiental será aceito, quem recebe o benefício, quem carrega o prejuízo e que futuro será produzido não é apenas engenharia. Nesse momento o cálculo encontra o mundo, e o mundo contém pessoas.
O filósofo também precisa aprender isso.
A verdade não perde valor porque a democracia existe. A democracia apenas recusa que alguém converta sua relação privilegiada com uma verdade em título de propriedade sobre os outros.
Essa distinção salva duas coisas ao mesmo tempo: salva a verdade do relativismo idiota segundo o qual “cada um tem sua verdade”, e salva a política da arrogância igualmente idiota segundo a qual “quem conhece a verdade deve mandar”.
Nenhuma das duas me serve.
Existe realidade. Existem fatos. Existem conhecimentos melhores e piores, hipóteses sustentáveis e delírios, argumentos fortes e conversa mole. Precisamos de critérios justamente porque o mundo não pode depender apenas de opinião. Mas o mundo comum humano contém outra camada: depois de sabermos o que conseguimos saber, ainda precisamos decidir juntos o que faremos com isso.
E ninguém recebe do universo um crachá escrito DONO DO REAL.
Platão nos ajuda justamente porque leva a tentação até um lugar intelectualmente poderoso. Ele não é um espantalho. Seria muito fácil derrotar uma caricatura de Platão e sair daqui com a autoestima democrática intacta. O problema é que a pergunta dele continua nos perseguindo porque existe uma verdade desagradável dentro dela: pessoas mal informadas tomam decisões ruins. Demagogos manipulam. Multidões se deixam seduzir. Opinião pode esmagar conhecimento. Democracias podem fazer escolhas desastrosas.
Sim.
Tudo isso é verdade.
Mas reconhecer essas fragilidades não resolve o problema político; apenas o formula melhor. Porque elites também erram, especialistas possuem interesses, sábios discordam entre si, instituições produzem cegueiras próprias e toda concentração de poder cria incentivos para que quem governa passe a confundir o próprio ponto de vista com a estrutura do mundo.
Democracia não é confiança infantil na sabedoria do povo.
É desconfiança organizada de qualquer um que queira ser dono definitivo da sabedoria necessária para governar os outros.
A diferença é enorme.
E é por isso que a prática mais simples aqui funciona quase como alarme. Toda vez que alguém disser “o povo não sabe escolher”, não responda depressa. Não precisa defender que o povo sempre sabe, porque claramente não sabe. Nós não sabemos muita coisa. Apenas acrescente a pergunta que costuma faltar:
Quem, exatamente, está reivindicando o direito de escolher por ele?
E continue olhando.
Porque quase sempre, alguns segundos depois, o candidato ao trono começa a aparecer.
Nota do autor: Este texto integra a publicação progressiva, capítulo a capítulo, de um livro em desenvolvimento sobre democracia, escrito a partir da Ontogênese, minha filosofia sobre o modo como o real humano nasce entre pessoas. A versão final em livro poderá sofrer modificações, cortes, acréscimos, reorganizações e desenvolvimentos em relação aos textos publicados originalmente na Revista Inteligência Democrática. Para conhecer a obra que serve de base filosófica a este novo trabalho, acesse Ontogênese: Como o real nasce entre pessoas, disponível na Amazon ou no Clube de Autores.




