Há uma campanha lulopetista de difusão maciça de fake news para insuflar o medo na população, numa orquestração jamais vista em nossa história eleitoral.
Sim a campanha do PT de 2026, superando a de 2014, passará à história como campeã das Fake News. Observe-se o que os militantes do PT estão espalhando nas mídias sociais.
SE LULA NÃO FOR ELEITO
Vai ter golpe de Estado.
Os brasileiros vão perder o SUS.
O salário mínimo deixará de ser reajustado.
Aumentará a jornada de trabalho.
Vai terminar a Farmácia Popular.
O Bolsa Família vai acabar.
O Pé de Meia vai acabar.
Haverá conversão da aposentadoria paga pelo governo por sistema de capitalização.
Haverá aumento da idade para aposentadoria.
Os preços da carne e do feijão vão disparar.
Será proibido o voto das mulheres.
A fome vai voltar.
As vacinas vão acabar.
A mortalidade infantil vai crescer.
Os americanos vão tomar nossas terras.
Trump vai invadir o Brasil e transformá-lo em um protetorado dos EUA.
Os fanáticos religiosos vão impor regras para nossos filhos.
Todo ensino vai virar homeschooling.
Vencer a eleição com base nessas mentiras terá consequências desastrosas. Nessas circunstâncias, porém, a probabilidade de Lula reverter a situação e vencer o segundo turno não é desprezível.
Isso só não ocorrerá se o desejo de renovação prevalecer sobre o medo: será quase uma insurreição eleitoral.
Desgraçamente, a alternativa ao populismo dito de esquerda de Lula é um populismo dito de direita dos Bolsonaro, também ruim para a democracia. Todo populismo - não importa a cor - é antipluralista e iliberal. Nenhum dos dois vai dar um golpe de Estado no Brasil, mas ambos, no governo ou na oposição, vão continuar erodindo nossa democracia.
O que fazer?
Os democratas liberais e os que prezam a democracia não apenas como regime político, mas também como modo-de-vida, não inventam um mal menor para escolher. Entre a AfD e o Die Linke, não escolhem ninguém. Entre Le Pen e Mélenchon, não escolhem ninguém. Entre Steve Bannon e Bernie Sanders, não escolhem ninguém. Entre um Bolsonaro ou Lula, idem.
Mas os democratas liberais constituem uma minoria tão exígua que sua opção eleitoral terá pouca ou quase nenhuma influência no resultado das urnas. Esse, portanto, não é um drama público, mas privado, da consciência dos indivíduos que ficam incomodados em não ter opção e sentem-se emocionalmente desconfortáveis em não escolher. Quem acha que não escolher entre dois populistas é se omitir e que isso é imperdoável, que vote então em quem quiser para não perder o sono. Mas não resolve nada do ponto de vista da democracia.
Não é a primeira vez que os democratas se defrontam com uma situação como atual. Já aconteceu, no Brasil recente, em 2018 e 2022. E já aconteceu inúmeras vezes ao longo da história, desde que a primeira democracia foi morta por uma invasão estrangeira (dos macedônios, em 322 a.C. em Atenas).
Mais de dois milênios depois, os democratas não tiveram opção (democrática) nos regimes eleitorais (pré-democráticos) que se instalaram na Inglaterra e na Irlanda (em 1790), na França (em 1792), nos EUA, na Bélgica e na Holanda (em 1796).
E isso foi assim até que surgissem as primeiras democracias liberais: na Suíça (em 1849), na Austrália (em 1858), na Bélgica (em 1897), na Dinamarca (em 1902), na Noruega (em 1906), na Nova Zelândia (em 1913), na Holanda (em 1918) e na Inglaterra (em 1919).
Mas depois ocorreu a primeira onda de autocratização (que foi de 1922 a 1944) exterminando boa parte das democracias liberais ou apenas eleitorais. A situação do mundo no início daquela onda de autocratização (em 1922) era a seguinte. Não havia nenhuma democracia liberal nas Américas, somente três democracias eleitorais (o Canadá, os EUA e a Argentina). Todo os demais países eram autocracias eleitorais ou autocracias fechadas. Não havia nenhuma democracia (liberal ou eleitoral) na África (que era composta por autocracias fechadas, com exceção da Libéria e da África do Sul, que eram autocracias eleitorais). Na Ásia (incluindo Oriente Médio - sem a Turquia) não havia nenhuma democracia (liberal ou eleitoral). A região era composta totalmente por autocracias fechadas. Na Oceania, uma honrosa exceção: Austrália e Nova Zelândia já eram democracias liberais. Na Europa havia apenas sete democracias liberais (Islândia, Dinamarca, Suécia, Suíça, Reino Unido, Bélgica e Holanda). E onze democracias eleitorais (a Finlândia, a Noruega, a Irlanda, a França, a Alemanha, a Áustria, a República Checa, a Eslováquia, a Polônia, a Lituânia e a Estônia). Nos anos seguintes a situação iria piorar muito para a democracia.
De 1934 a 1944 tivemos uma década de trevas instaurada pelos totalitarismos. No final desse período (1944) restaram apenas sete democracias liberais no mundo: Islândia, Suécia, Suíça, Reino Unido e Irlanda, Austrália e Nova Zelândia. Pouquíssimas também são as democracias eleitorais: apenas quatro - Canadá, EUA, Uruguai e Finlândia. Na América do Sul e na América Central resta apenas uma democracia. Na Europa, cinco democracias liberais e uma eleitoral. Na África, nenhuma democracia. Na Ásia e Oriente Médio nenhuma democracia. A exceção de sempre é a Oceania, com suas duas democracias liberais (Austrália e Nova Zelândia).
Os democratas, portanto, já tiveram tempo suficiente para aprender que são minoria e que, na maior parte das vezes, não tiveram opção (democrática) para escolher. Hoje temos no mundo - segundo o V-Dem 2026 - apenas 31 democracias liberais (em 179 países). E - segundo a The Economist Intelligence Unit 2025 - apenas 26 democracias plenas (em 167 países).
Mas os democratas aprenderam também uma coisa muito importante: que não existe democracia sem democratas. E que há um deficit enorme de agentes democráticos na atualidade, inclusive na sociedade brasileira. O fato de - pela primeira vez na nova repúblico - não termos nenhum candidato de centro democrático (liberal) nas eleições de 2026 no Brasil, é a melhor evidência disso.
Esse é um problema que não pode ser resolvido no curto prazo e, talvez, nem no médio prazo. Mas alguma coisa pode - e deve - ser feita para aumentar o número de agentes democráticos.
Agentes democráticos não nascem prontos e, em geral, não são formados nas famílias, nas escolas e universidades, mas somente em comunidades políticas. Quem está querendo sair da atual situação, em 2030 ou em 2034, deve começar agora, portanto, a articular sua comunidade política.
Fazendo o quê exatamente? Reunindo seus amigos e amigas que estimam a democracia como um valor (universal) para conversar regularmente sobre o assunto e tomar iniciativas práticas para multiplicar o número de agentes democráticos, na sua localidade ou setor de atividade.
Uma comunidade política de apenas 10 pessoas numa localidade (por exemplo, um município) de 100 mil pessoas pode alterar realmente a vida política local:
🔵 envolvendo mais pessoas da localidade em processos de aprendizagem da democracia;
🔵 fazendo palestras sobre democracia nas instituições de ensino e em outras organizações locais do Estado, da sociedade ou do mercado;
🔵 experimentando mudanças democráticas na gestão de organizações da localidade (do Estado, da sociedade ou do mercado);
🔵 substituindo a lógica da escassez pela lógica da abundância nos padrões de organização e nos modos de regulação de conflitos (por exemplo, experimentando construir organizações em rede e substituir votações por sorteio, sempre que possível, nos procedimentos internos dessas organizações);
🔵 estimulando a construção de equipamentos urbanos que facilitem a convivência (praças, bancos, sombras, calçadas, calçadões etc.) e publicizando as praças existentes configurando ambientes comuns (geração social de commons);
🔵 organizando assembleias de cidadãos nas regiões administrativas ou nos bairros para discutir os problemas da localidade e para apresentar soluções;
🔵 criando ambientes comunitários de livre-aprendizagem sem restrições de entrada (etárias, de escolaridade etc.);
🔵 instalando sessões de cocriação de soluções (tipo festivais de ideias e projetos) para os problemas da cidade, do bairro e das organizações locais e promovendo o desenvolvimento local;
🔵 participando regularmente de programas de rádio e TV com audiência significativa na cidade ou na localidade;
🔵 preparando candidatos comprometidos com a democracia para as próximas eleições;
🔵 capacitando legisladores e governantes eleitos para exercerem democraticamente seus mandatos;
🔵 fundando um jornal local (digital ou em papel) com análises do que está acontecendo, na localidade, na região, no país e no mundo, de um ponto de vista democrático;
🔵 construindo uma rádio ou TV comunitária e inaugurando novos canais no Youtube e em outras plataformas de streaming;
🔵 propondo mandatos coletivos, co-deputâncias ou co-vereanças;
🔵 estimulando o uso dos programas de mensagens e das mídias sociais já existentes para interagir com o maior número possível de pessoas sobre as ações comunitárias que estão sendo realizadas;
🔵 criando novos programas de mensagens e plataformas interativas (mídias sociais que possam servir de ferramentas de netweaving das redes glocais em formação - com o auxílio de Inteligência Artificial);
🔵 criando aplicativos para acompanhar o desempenho dos representantes eleitos e novos mecanismos de interação dos cidadãos na esfera pública; criando (e testando) novos indicadores locais de democracia;
🔵 fazendo levantamentos dos sinais de avanço do autoritarismo ou de desconsolidação da democracia na localidade (por exemplo, monitorando a porcentagem de pessoas que aderem à alternativas populistas);
🔵 fazendo levantamentos dos ativos democráticos da localidade.
E muito, muito mais.
Mas comunidades políticas democráticas não precisam se formar necessariamente com base territorial. Elas podem ser organizadas em setores de atividades, conectando agentes democráticos que atuam em várias localidades, ou mesmo em diversos setores.
De qualquer modo, querendo ou não, gostando ou não, os democratas terão de articular “póleis paralelas”: comunidades políticas democráticas (como redes humanas, quer dizer, redes de pessoas; ou seja, sociais). Ou correrão o sério risco de desaparecer, submersos na terceira onda de autocratização que nos engolfa com a predominância dos regimes autoritários ou parasitados por populismos.
Nesta terceira onda de autocratização temos hoje no mundo, segundo o V-Dem, 56 democracias eleitorais (não-liberais, boa parte das quais parasitadas por populismos ditos de esquerda ou de direita), 57 autocracias eleitorais e 35 autocracias fechadas. E, segundo a The Economist Intelligence Unit, 48 democracias defeituosas (flaweds democracies, boa parte das quais parasitadas por populismos de esquerda ou de direita), 32 regimes híbridos e 61 regimes autoritários.
O quadro geral não é bom para a democracia. Mas não vai ser resolvido por um golpe de sorte eleitoral, pela manutenção de um populismo, nem pela troca de um populismo por outro.



