O Mundo Desbussolado
Diogo Dutra é agora o colunista das segundas-feiras da Inteligência Democrática
I. Introdução: O que significa estar desbussolado?
Vivemos uma era marcada por um sentimento difuso de desorientação. As velhas referências ruíram, e as novas ainda não se estabilizaram. O mundo, como diria o psicanalista Jorge Forbes, está “desbussolado”. É esse o ponto de partida deste ensaio: explorar o conceito de desbussolamento como eixo estruturante de nossa crise subjetiva, cultural e política.
Jorge Forbes é uma das figuras mais proeminentes da psicanálise contemporânea no Brasil. Formado em medicina e em psicanálise, estudou diretamente com Jacques Lacan na França e é conhecido por propor uma releitura atualizada da psicanálise diante dos desafios do século XXI. No programa TerraDois, exibido pela TV Cultura, Forbes costura teatro, arte, psicanálise e discussão política de forma profunda e acessível, criando uma linguagem própria para refletir sobre o mundo em transição.
No episódio “Democracia na Teia”, disponível no YouTube (link aqui), Forbes apresenta com clareza a mudança radical entre dois modos de vida: o mundo hierárquico de Terra Um e o mundo aberto, incerto e plural de TerraDois. Ele propõe uma leitura psicanalítica e antropológica da democracia contemporânea, sustentando que estamos diante de uma transição de época que exige novas formas de subjetividade, ação e escuta.
II. Terra Um e TerraDois: a mudança de paradigma
Para Forbes, vivemos uma passagem civilizatória. Saímos de uma sociedade de comando, estrutura e previsibilidade (Terra Um) para um novo ambiente relacional, fragmentado e imprevisível (TerraDois). Na Terra Um, o sujeito se organizava em torno de referências verticais e hierarquizadas: o pai, o chefe, o sacerdote, o partido. Havia uma promessa de estabilidade e um horizonte de normalidade.
Na TerraDois, essa centralidade rui. A pluralidade de possibilidades, a ausência de garantias, a dispersão de autoridade e o colapso das narrativas totalizantes criam um espaço de liberdade inédito, mas também de angústia e de paralisia. O sujeito não tem mais um caminho definido. Precisa construir o seu.
Essa é a condição do “mundo desbussolado”: um mundo sem bússola coletiva, em que a própria ideia de “caminho certo” se torna obsoleta. E não se trata de um colapso caótico, mas de uma transição civilizatória que exige novas ferramentas de sustentação psíquica e institucional.
III. A Ética do Artista: responder sem garantia
Diante dessa nova realidade, Forbes propõe uma ética do artista. O artista é aquele que propõe algo e se responsabiliza por sua proposta. Ele não tem certeza, não segue um manual, não se ancora em modelos prontos. Em vez disso, ele propõe, testa, erra, refaz. Sua ética é responsiva, inventiva, autoral.
No vídeo, Forbes afirma: “a democracia não é o espaço do ‘tudo pode’, é o espaço onde cada um pode propor, mas tem que responder pelo que propõe”. Isso marca uma virada: não se trata de relativismo total, mas de uma nova forma de responsabilização, mais condizente com a complexidade do mundo atual.
Essa ideia tem ressonância direta com minha experiência pessoal e profissional. O empreendedorismo que me interessa é esse: o que propõe uma solução singular e se responsabiliza por ela. Não o empreendedorismo das big techs que escalam sem escuta, mas o de quem empreende sua própria vida em diálogo com o mundo.
IV. Democracia e desorientação: um problema de fundo
Esse novo modo de viver, porém, exige condições de contorno. E uma delas é a democracia. A TerraDois só pode florescer se houver espaço para a diferença, para o dissenso, para a liberdade. Sem isso, o desbussolamento leva ao medo, e o medo leva ao autoritarismo.
Aqui é onde Forbes termina e eu continuo. A ausência de garantias e o excesso de liberdade — ambos característicos da TerraDois — têm gerado um movimento de regressão em larga escala. Frente às incertezas, muitos desejam o retorno a uma Terra Um idealizada: mais hierarquia, mais tradição, mais controle.
O problema é que essa volta não é possível. O mundo já mudou. As tecnologias já dissolveram as estruturas fixas. A diversidade já se impôs como realidade concreta. Tentar apagar isso é alimentar uma fantasia conservadora que só pode ser sustentada com violência simbólica ou real.
V. A crise da democracia como sintoma do desbussolamento
A crise da democracia não é apenas uma crise de representação ou de instituições. É uma crise subjetiva. É o sintoma de um sujeito que perdeu a bússola e não foi educado para viver sem ela. O colapso das referências verticais criou espaços de liberdade que não foram acompanhados por uma educação para a responsabilidade, para a convivência, para a escuta.
Na ausência disso, surgem soluções autoritárias: a promessa de que basta obedecer novamente. Mas essa obediência é falsa. Não devolve o mundo de antes. Apenas simula uma ordem, ao custo da eliminação do outro.
Por isso, aprender a viver em liberdade é tarefa central do nosso tempo. E isso exige repensar a educação, a cultura, as instituições, as redes, as tecnologias. Precisamos aprender, como sociedade, a sustentar a complexidade.
VI. Conclusão: O que nos resta fazer?
O mundo desbussolado é um mundo em transição. Ele não é o fim, mas um intervalo. Nesse intervalo, as escolhas que fizermos vão determinar se conseguiremos construir uma nova bússola — não fixa, mas compartilhada.
A ética do artista é uma proposta para esse intervalo. É uma forma de agir sem garantias, de sustentar a responsabilidade mesmo sem certeza. E isso é profundamente democrático. É a condição para que uma democracia do futuro possa existir: uma democracia que não dependa de estruturas fixas, mas de sujeitos maduros.
Forbes nos dá uma chave potente para pensar isso. Cabe a nós continuar a conversa, propor novos caminhos, testar novas formas de viver juntos.
O desbussolamento não é o problema. O problema é tentar fingir que ele não existe.
Assista ao episódio “Democracia na Teia”, com Jorge Forbes, clicando aqui.





Excepcional a pensata! Sugiro não perder a entrevista que Pondé fez com psicanalista Jorge Forbes. Dois craques!