O mundo off para os democratas
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (23/04/2026)
Supostamente já estou numa idade que me permite repetir os chavões que pessoas mais velhas diziam quando eu era mais novo, principalmente aqueles que começavam com a frase ‘no meu tempo era assim, no meu tempo era assado’. Como bom amante da inovação resisto a cair nesse estereótipo do velho, mas quero esse gancho para uma digressão sobre o mundo sem a onipresença do celular e da conversação online.
Não pretendo com essa alusão à nostalgia ignorar o ganho de interação que a tecnologia permite, apenas buscar razões que permitam imaginar um mundo menos permeado por notificações e mais incrementado por convivências presenciais. Uma situação que me aconteceu agora pode exemplificar o que quero refletir.
Moro num condomínio pequeno com poucas unidades. Temos um grupo de whatsapp para tratar dos assuntos de interesse comum. É fácil simplesmente enviar uma mensagem para informar qualquer assunto. No caso, uma pequena obra no meu terraço que poderia afetar com sujeira ou ruído os apartamentos vizinhos exigia que eu avisasse do risco. Uma mensagem pelo celular poderia atender essa exigência. Preferi encarar o contato presencial mesmo que o vizinho potencialmente mais afetado não fosse dos mais simpáticos.
No tempo em que era um simples estudante universitário havia praticamente só encontro presencial. Engraçado imaginar como teria sido diferente se houvesse o recurso da tecnologia para contatos online. Eu talvez não tivesse perdido o contato de colegas de escola que deixei para trás nas mudanças que fiz por acompanhar meus pais. Essas pessoas que deixamos para trás no tempo talvez ainda estivessem presentes nos nossos contatos mesmo que não as acionássemos para conversar. A ilusão da proximidade seria muito mais real.
Quanto a enfrentar o mau humor de um vizinho para passar uma simples informação, o que pode significar de proximidade num mundo em que tudo parece tão próximo? O que o mau humor evidenciado por uma expressão facial fechada e arredia pode trazer de benefício para a melhor comunicação?
Há várias maneiras de detectar o mau humor online de um vizinho, mas essas podem ser enganosas. A expressão facial é um sinal poderoso de comunicação. No mundo online, os sinais não são tão evidentes.
Você, leitor, poderia perguntar o que ganho ao enfrentar de carne e osso uma situação como essa. O que posso dizer é que informação transmitida presencialmente não é totalmente traduzida em emojis e silêncios, e que a troca de sinais de um contato presencial afeta também nosso entendimento do outro. O mau humor pode não ser só o mau humor, é também sinal para futuras interações. Assim como recebo o sinal de que não sou assim tão bem recebido quando bato a campainha do vizinho mau humorado sinalizo eu próprio a importância do respeito que uma mensagem dita frente a frente possui.
Uma percepção enganosa de uma informação passada no aplicativo de mensagem pode aumentar a distância do entendimento. Há o risco da frieza do texto escrito, há o risco da palavra com sentidos dúbios, há a má vontade que se reforça com o estereótipo criado sobre a pessoa que você não conhece. Por mais que a informação seja transmitida no mundo online, a comunicação pode travar numa predisposição para o mínimo contato.
A maior parte das pessoas que escrevem na Revista ID se conhecem presencialmente. Talvez pudesse existir a revista apenas com o conhecimento virtual das pessoas. O fato de já termos nos encontrado, conversado frente a frente, ajudou imensamente a nos conhecermos melhor e a ganhar confiança uns com os outros. Assim é no condomínio, assim, penso, é numa comunidade de democratas.
O mau humor ou a má vontade pode ser só o mau humor ou a má vontade, mas a chance de ser muito mais do que isso só é possível verificar quando nos conhecemos presencialmente. A chance de incrementar uma comunidade com o olho no olho é real, e o prazer da convivência aparece com muito mais naturalidade.
Iniciativas que tratem dessa possibilidade do contato presencial podem ser recompensadoras no sentido de uma reverberação para a vida do entorno de cada um. Isso pode vir aliado a algum empreendimento econômico também, por que não? Se é também nostalgia de um tempo em que nos reuníamos em volta da fogueira, isso não impede que lancemos mão da inovação para chegar no contato mais básico do ser humano.



