Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (15/10/2026)
Como escrever sem me colocar em posição superior aos outros? Esse talvez seja o maior exercício a se fazer nos dias que antecedem as eleições.
São tantas as pessoas razoáveis e lúcidas a entrar nesse campo de superioridade moral simplesmente porque querem dizer aos outros o que é melhor para eles!
É verdade: eleição pede reflexão, e o voto não é simplesmente um produto de prateleira que, se ruim ou vencido, podemos descartar. Mas cabe tanta certeza num momento como esse? A dúvida é condenável a ponto de não podermos expressá-la, visto que, se o fazemos, logo surge alguém apontando o dedo acusador para decretar o que essa dúvida significa?
Este artigo mesmo entrará no rol daqueles condenáveis por não propor voto neste ou naquele. Um lado dirá que serve ao interesse do outro; o outro, ao interesse do primeiro.
Eleição não serve muito como momento de conversa. Debates estimulam essa postura guerreira de vencer o rival. Meu ponto é que pessoas que não são militantes em períodos não eleitorais se transformam durante as eleições. Por quê?
Acho que há uma angústia natural diante do futuro que virá — a perda previsível de benefícios, civilizacionais ou não. O problema é o que o presente nos faz perder.
Tenho me esforçado para não perder amizades. A conversa que embute uma proposta de convencimento sempre termina em algum tipo de superioridade moral a justificar o voto. Aí a coisa descamba.
Por que simplesmente não dizer “não sei”? Em termos de voto, o “não sei” seria apenas resguardar o momento da escolha para a intimidade ou optar pelo voto nulo. Poderia ser um “não voto” — um voto que revela a incapacidade de decidir entre futuros horrorosos, uma forma de simplesmente manter a conversa com quem quer que seja: “fascistas” ou “comunistas”, “entreguistas” ou “bajuladores de ditadores”.
Entre o futuro horroroso e o presente possível de uma conversa sem julgamentos, a opção é simples. O problema é que a vitória alimenta o nosso anseio por prêmios e condenações.




Estou “não sei”… não sei em quem votar no dia 25/10.
O “não voto” é uma opção.
Não sei…