O PT decidiu que não sai do governo. Se Lula perder a eleição, seu impulso será o de tentar anulá-la ou cassar o mandato de quem for eleito por qualquer motivo via STF. Não estou dizendo que isso vai acontecer. Estou dizendo que o PT vai tentar. É uma constatação e um aviso.
Qual a constatação? A constatação é a de que o PT está construindo argumentos (ou elencando alegações) nessa linha: interferência dos EUA nas eleições, dinheiro do crime organizado (das milícias) e de Vorcaro (via Dark Horse) abastecendo o candidato de oposição etc. E de que o judiciário e a polícia federal (além de outras instituições do Estado e do governo) já estão intervindo no processo eleitoral.
Qual o aviso? O aviso é o de que, se essa interferência - do judiciário (sobretudo via STF), da PF (com investigações de última hora e vazamentos seletivos) e por meios de outras instituições do Estado e do governo (como a AGU) - continuar, as eleições não serão legítimas.
De qualquer modo, ao que tudo indica até agora, não veremos a prova (empírica) de que o PT está com esse ânimo de não sair do governo de jeito nenhum. Porque o mais provável é que todo esse movimento incida já nas eleições para fazer com que Lula seja reeleito.
Mas Lula, se perder, jamais vai tentar questionar o resultado eleitoral como fez o Jair Bolsonaro. Não é esse o ponto. Bolsonaro denunciou as urnas eletrônicas, insinuou que houve fraude e apelou para uma revolta "por fora" das instituições. Lula e o PT ensaiam fazer tudo "por dentro" das instituições aparelhadas. Seus movimentos, entretanto, são para não perder as eleições, não para espernear depois da derrota.
É preciso entender a diferença entre o populismo bolsonarista e o populismo lulopetista. Ao contrário da famiglia Bolsonaro e seus asseclas, Lula e o PT não são golpistas e sim hegemonistas. Não querem derruir as instituições e sim ocupá-las e fazer maioria em seu interior para colocá-las a serviço do projeto de poder do partido.
O PT não aceita a alternância democrática. Se resigna a ela porque não tem outro jeito de confrontá-la a não ser vencendo eleições sucessivamente. Quando os dirigentes do PT, já no nascimento do partido, optaram pela via eleitoral, não o fizeram porque consideraran que a alternância de governo por eleições fazia parte do metabolismo normal da democracia e contribuia para a estabilidade do regime e a obtenção de seus bons efeitos. Não! Fizeram isso porque avaliaram que a via eleitoral era o meio mais eficaz de chegar ao governo e se manter no governo durante tempo suficiente para empalmar o poder.
Se Lula for reeleito mais uma vez, esse processo de bypassar a rotatividade no poder vai continuar. E não adianta desviar o foco para o parlamento, como um prêmio de consolação. Se as oposições fizerem maioria no Senado, mas Lula for reeleito, não será tão difícil para o governo cooptar alguns senadores de oposição para eleger o próximo presidente da casa (que não vai pautar comissões de inquérito que ameacem o governo e pedidos de impeachment de membros do STF e do PGR). E aí continuará tudo como está.




Augusto, os partidos tem planos de continuar no poder. Até aí faz parte da democracia, mas o PT tem-se mostrado um partido pouco democrático. Não apresenta um liderança diferente da de Lula há tempos. Não há primárias sérias no partido. Essa falta de alternância é ruim e deletéria para eles mesmos e para a democracia.