O que acontece quando democracias deixam de confiar em si mesmas?
Nos últimos anos, um fenômeno passou a chamar cada vez mais atenção: a crescente aproximação entre parte da elite tecnológica norte-americana e correntes intelectuais profundamente críticas à democracia liberal. Um excelente artigo recente de João Lobato organiza esse debate com grande competência, ajudando a compreender como figuras como Peter Thiel, empresas como a Palantir e determinadas concepções políticas passaram a ocupar um lugar inesperadamente relevante nas discussões sobre tecnologia, segurança e poder. Não se trata apenas de uma discussão sobre inteligência artificial, plataformas digitais ou segurança nacional. Trata-se, sobretudo, de um fenômeno que merece ser levado a sério.
Essa percepção produz um estranhamento difícil de ignorar.
Durante décadas, o Vale do Silício simbolizou, mais do que qualquer outro lugar, a extraordinária capacidade das sociedades abertas de produzir inovação. Não apenas porque dali surgiram empresas que transformaram profundamente a economia mundial, mas porque aquele ambiente parecia condensar um conjunto muito particular de condições dificilmente reproduzíveis: universidades de excelência, pesquisa científica, circulação internacional de talentos, disponibilidade de capital para financiar incerteza, relativa tolerância ao fracasso e uma rara capacidade de transformar conhecimento em organizações capazes de alterar mercados inteiros. Independentemente das críticas que hoje possam ser feitas às Big Techs, seria difícil negar que aquele ecossistema se tornou um dos maiores experimentos históricos de produção de inovação já realizados por uma democracia liberal.
Talvez seja justamente por isso que personagens como Peter Thiel despertem tanto interesse. Não porque empresários influentes defendendo posições políticas controversas constituam uma novidade histórica. Eles nunca constituíram. O desconforto nasce de outro lugar. Ele surge quando percebemos que propostas de organização social mais próximas de uma lógica autocrática começam a emergir precisamente do ambiente que, durante muito tempo, pareceu representar o maior exemplo da capacidade das sociedades abertas de produzir criatividade, conhecimento e inovação. Como se um dos exemplos mais bem-sucedidos das sociedades abertas começasse, pouco a pouco, a desconfiar das próprias condições que tornaram possível seu sucesso.
A tentação mais imediata é a de transformar essa constatação em um diagnóstico. Concluir que determinados empresários passaram a acumular poder excessivo, que grandes plataformas adquiriram capacidades incompatíveis com sociedades democráticas ou que uma nova elite tecnológica começou simplesmente a substituir convicções liberais por projetos autoritários. Nada disso é irrelevante. Mas existe um risco em aceitar rapidamente demais esse tipo de explicação. Porque ela nos permite localizar o problema em indivíduos, empresas ou ideologias específicas e, ao fazê-lo, deixamos escapar justamente a pergunta mais interessante.
Afinal, por que esse tipo de argumento começou a parecer plausível justamente agora?
Essa té uma pergunta mais difícil do que parece. Ideias profundamente antidemocráticas nunca deixaram de existir. Tampouco desapareceram visões elitistas sobre política, tecnologia ou organização social. O que muda historicamente não é a existência dessas interpretações, mas a capacidade que algumas delas adquirem, em determinados momentos, de deixar as margens do debate para ocupar posições de crescente legitimidade intelectual, econômica e política. Em outras palavras, a questão mais decisiva não é só compreender por que Peter Thiel pensa como pensa. Mas deveríamos estar nos perguntando que tipo de mundo passou a tornar esse tipo de pensamento estrategicamente convincente.
Essa mudança de perspectiva desloca quase inteiramente a investigação.
Porque ela nos convida a olhar menos para os personagens e mais para o ambiente em que eles passaram a operar. Empresas não existem fora da história. Tecnologias tampouco. Ideias dificilmente florescem apenas pela força de sua coerência interna. Todas elas dependem, em alguma medida, das condições que tornam determinadas respostas mais adaptadas do que outras aos problemas de cada época.
Talvez seja justamente aí que a surpresa deixe de ser apenas uma surpresa.
Porque o que está mudando não é apenas o lugar ocupado por determinadas tecnologias ou por determinados empresários, mas a própria linguagem através da qual democracias passaram a interpretar o mundo. Argumentos ligados à soberania tecnológica, à segurança nacional, à autonomia estratégica ou à competição entre grandes potências começam, pouco a pouco, a reorganizar decisões políticas que, observadas isoladamente, parecem inteiramente razoáveis. A questão é saber o que acontece quando essa racionalidade deixa de ser apenas uma resposta circunstancial e passa lentamente a redefinir a maneira como as próprias democracias compreendem a si mesmas. Ou pior, deixam de confiar em si mesmas.
Acredito que seja essa a pergunta que realmente importa.
O que aconteceu com o Vale do Silício?
A pergunta mais incômoda deixada pela introdução é justamente esta: o que aconteceu com o Vale do Silício? Como um dos maiores experimentos históricos de inovação produzidos por sociedades abertas passou, pouco a pouco, a abrigar parte das críticas mais contundentes às próprias condições que tornaram esse experimento possível?
Nos últimos anos tornou-se relativamente frequente reconstruir retrospectivamente sua história como se ela sempre tivesse carregado, desde a origem, uma vocação antidemocrática apenas parcialmente escondida sob o entusiasmo tecnológico. Confesso que essa leitura nunca me pareceu inteiramente convincente. Não porque o Vale do Silício tenha sido um ambiente politicamente homogêneo — ele jamais foi — nem porque estivesse imune a enormes concentrações de poder econômico. Mas porque ela projeta sobre o passado uma coerência que provavelmente nunca existiu.
Em The Power Law, Sebastian Mallaby talvez descreva melhor do que ninguém aquilo que tornou aquele ecossistema tão singular. Sua grande inovação não foi apenas criar uma nova forma de financiar empresas de tecnologia, mas alterar profundamente a relação entre capital e talento. Durante muito tempo, grandes inventores, cientistas e empreendedores permaneceram subordinados às estruturas tradicionais das grandes corporações. Produziam conhecimento, criavam tecnologias e geravam valor, mas raramente capturavam uma parcela significativa daquilo que ajudavam a construir. O venture capital subverte parcialmente essa lógica. Pela primeira vez, o capital passa a apostar que seu maior ativo não é o dinheiro, mas a capacidade criativa dos fundadores. Em vez de controlar o talento, passa a colocá-lo no centro da criação de valor.
Naturalmente, essa inversão transforma também a maneira de lidar com o risco. O fracasso deixa de representar simplesmente uma perda inevitável e passa a integrar o próprio processo de descoberta. Não porque errar seja desejável, mas porque explorar territórios desconhecidos exige aceitar que poucas apostas extraordinárias financiarão todas as demais. Mais do que um novo instrumento financeiro, o venture capital torna-se uma arquitetura institucional capaz de liberar talentos, ampliar ambições e criar incentivos para que pessoas extraordinárias construam organizações que dificilmente nasceriam dentro das estruturas tradicionais do capitalismo.
Acredito que esta tenha sido justamente essa a maior contribuição daquele ecossistema. Mais do que produzir empresas extraordinárias, ele ampliou radicalmente a capacidade das sociedades abertas de transformar criatividade em inovação. O capital deixava de funcionar apenas como mecanismo de preservação de riqueza e passava também a operar como instrumento de exploração do desconhecido. O sucesso do Vale do Silício não decorria apenas da abundância de recursos, da qualidade de suas universidades ou da concentração de talentos. Decorria, sobretudo, da forma como conseguiu reorganizar as relações entre todos esses elementos.
Mas talvez tenha sido justamente esse sucesso que produziu uma das transformações mais curiosas de sua própria cultura.
Pouco a pouco, uma lógica concebida para resolver um problema muito específico — como acelerar inovação em ambientes de elevada incerteza — começou a expandir-se para além dos limites em que fazia sentido. A velocidade deixou de ser apenas uma estratégia de experimentação para tornar-se uma virtude em si mesma. O crescimento acelerado passou a ser celebrado quase independentemente de sua capacidade de produzir aprendizagem. E a figura do fundador deixou de representar apenas alguém disposto a assumir riscos extraordinários para ocupar, em muitos casos, o lugar de uma espécie de herói civilizacional, cuja excepcionalidade justificaria níveis crescentes de concentração de poder.
Acredito que seja nesse momento que parte importante da cultura do Vale do Silício comece lentamente a mudar. O que inicialmente funcionava como uma arquitetura voltada à experimentação passa, em alguns casos, a produzir organizações cada vez menos abertas à crítica e ao aprendizado. Casos como WeWork ou Theranos não são apenas histórias de fraude ou má gestão. Eles revelam uma cultura que começa a substituir experimentação por convicção, aprendizagem por crescimento a qualquer custo e, em certos momentos, a transformar a confiança no fundador em um princípio superior à própria capacidade de corrigir erros. Não por acaso, referências como Ayn Rand e A Revolta de Atlas, antes relativamente periféricas, passam gradualmente a ocupar um lugar mais visível nesse imaginário, reforçando a ideia do empreendedor excepcional como principal agente da história.
Ainda assim, essa transformação permanece insuficiente para explicar a questão que deu origem a este ensaio. Afinal, a lógica do venture capital, o culto ao fundador ou mesmo boa parte da tradição libertária acompanham o Vale do Silício há décadas. Por que, então, justamente agora, esse imaginário deixa de representar apenas uma cultura empresarial e começa a adquirir consequências políticas e geopolíticas muito mais amplas?
Talvez porque, mais uma vez, estejamos olhando para o lugar errado.
Talvez o que tenha mudado não seja, em primeiro lugar, o Vale do Silício.
Talvez tenha mudado o ambiente dentro do qual ele passou a operar.
O mundo mudou mais do que imaginávamos?
Se aceitarmos, ainda que provisoriamente, que ideias também respondem às condições do ambiente em que circulam, então seria inevitável deslocar a investigação para uma escala um pouco maior. Afinal, dificilmente o Vale do Silício poderia ter mudado sozinho. Nenhum ecossistema econômico ou tecnológico existe isoladamente. Empresas respondem a mercados, mercados respondem a instituições, instituições respondem a transformações sociais e, em determinados momentos históricos, todas elas acabam sendo atravessadas por mudanças muito mais amplas na própria organização do sistema internacional. Acredito que seja exatamente isso que tenha acontecido ao longo da última década.
Durante boa parte do período que sucedeu o fim da Guerra Fria, consolidou-se uma percepção relativamente difundida de que a globalização caminhava, ainda que de maneira imperfeita, para uma integração crescente das economias, das cadeias produtivas e da circulação de conhecimento. Evidentemente essa trajetória jamais foi linear. Persistiram guerras, disputas comerciais, conflitos regionais e profundas assimetrias de poder. Ainda assim, predominava a impressão de que a interdependência produzia mais incentivos à cooperação do que ao isolamento e que, de alguma maneira, mercados, ciência e tecnologia continuariam progressivamente conectando sociedades antes separadas por fronteiras muito mais rígidas.
Hoje essa percepção parece muito mais difícil de sustentar.
Não porque a globalização tenha desaparecido, mas porque ela passou a ser reinterpretada sob outra lógica. Dependências produtivas transformaram-se em vulnerabilidades estratégicas. Cadeias globais de suprimento deixaram de representar apenas eficiência econômica para converter-se em potenciais riscos geopolíticos. Infraestruturas digitais passaram a ser discutidas simultaneamente como plataformas de inovação e ativos de segurança nacional. Universidades deixaram de ser apenas centros internacionais de produção de conhecimento para tornarem-se, também, espaços de disputa tecnológica entre Estados. Pouco a pouco, dimensões da vida econômica que antes pareciam relativamente autônomas passaram a ser reinterpretadas como elementos constitutivos da própria competição internacional.
Talvez essa seja uma das mudanças mais profundas do nosso tempo, justamente porque ela não decorre de uma decisão específica nem de uma ruptura claramente identificável. Ela emerge lentamente, quase imperceptivelmente, à medida que diferentes acontecimentos passam a ser reinterpretados como manifestações de um mesmo processo. A ascensão tecnológica da China, a pandemia, a guerra na Ucrânia, a reorganização das cadeias industriais, a corrida pela inteligência artificial, as restrições à exportação de semicondutores, a crescente disputa por minerais críticos ou por infraestrutura digital parecem, à primeira vista, fenômenos relativamente independentes. Entretanto, observados em conjunto, todos eles sugerem que a competição entre grandes potências deixou de ocupar apenas o plano militar ou diplomático para atravessar praticamente todos os domínios considerados estratégicos.
Essa transformação altera algo mais profundo do que normalmente reconhecemos.
Ela modifica os critérios pelos quais organizações passam a avaliar o próprio ambiente.
Uma empresa deixa de perguntar apenas onde produz com maior eficiência e passa a perguntar onde produz com maior segurança. Um governo deixa de discutir apenas crescimento econômico e passa a discutir autonomia tecnológica. Investimentos em pesquisa deixam de ser justificados exclusivamente por sua capacidade de gerar inovação e passam também a ser avaliados por sua contribuição à soberania nacional. A própria linguagem da política começa lentamente a reorganizar-se. Conceitos como resiliência, autonomia estratégica, infraestrutura crítica, segurança tecnológica ou soberania digital tornam-se progressivamente mais frequentes, não porque alguém tenha decidido promovê-los, mas porque passaram a responder a problemas que, poucos anos antes, simplesmente não ocupavam o centro das preocupações públicas.
Acredito que seja justamente nesse ponto que devamos tomar algum cuidado para não transformar a própria soberania em objeto de caricatura.
Seria bastante estranho imaginar que sociedades complexas pudessem abrir mão de refletir sobre sua capacidade de produzir alimentos, energia, medicamentos, conhecimento científico ou tecnologias críticas. Em um ambiente internacional marcado por crescente instabilidade, essas preocupações parecem não apenas legítimas, mas inevitáveis. Países que ignoram completamente essas dimensões tendem a tornar-se extraordinariamente vulneráveis diante de transformações que já não controlam. Defender algum grau de autonomia estratégica dificilmente constitui, por si só, uma rejeição às sociedades abertas.
Talvez o problema comece em outro lugar.
Não quando sociedades procuram ampliar suas capacidades, mas quando praticamente todas as decisões passam a ser reorganizadas a partir de uma mesma racionalidade defensiva.
Porque é justamente aí que ocorre um fenômeno curioso.
Cada movimento, observado isoladamente, parece perfeitamente razoável. Reconstituir cadeias produtivas, proteger tecnologias críticas, fortalecer políticas industriais, ampliar capacidades nacionais de pesquisa ou reduzir dependências estratégicas são decisões que podem ser plenamente justificadas pelas circunstâncias atuais. Nenhuma delas exige qualquer simpatia por projetos autoritários. Nenhuma representa, em si mesma, uma ameaça às democracias.
Mas ambientes não são produzidos por decisões isoladas.
São produzidos pela interação entre milhares delas.
E é precisamente aí que reside a dificuldade de compreender o presente.
Quando praticamente todos os atores passam, simultaneamente, a reorganizar suas escolhas segundo critérios de competição permanente, o ambiente coletivo começa lentamente a adquirir propriedades que nenhum deles, individualmente, pretendia produzir. O resultado deixa de ser apenas uma soma de estratégias nacionais. Surge uma ecologia inteiramente nova, na qual formas mais centralizadas de coordenação, maior proximidade entre Estados e grandes empresas, crescente integração entre desenvolvimento tecnológico e segurança nacional e uma lógica muito mais permanente de mobilização deixam de parecer exceções históricas para converter-se, pouco a pouco, em condições normais de funcionamento.
É exatamente nesse ponto que a questão democrática reaparece, agora sob uma luz um pouco diferente daquela que costuma dominar o debate público.
Porque o problema seja somente o fortalecimento atual das autocracias.
O problema se torna sobretudo compreender o que acontece com as democracias quando passam a habitar uma ecologia cada vez mais desenhada pelas condições que favoreceram o fortalecimento das próprias autocracias.
O que realmente está em risco
A questão, então, não seria sobre escolher entre abertura ou soberania, inovação ou segurança, cooperação ou competição. Sociedades complexas precisam, inevitavelmente, cultivar todas essas capacidades. O desafio começa quando uma delas passa a reorganizar silenciosamente todas as demais. Se a competição permanente se torna a principal lente através da qual interpretamos o mundo, a inovação deixa de ser apenas descoberta para tornar-se instrumento estratégico; a ciência deixa de ser apenas produção de conhecimento para tornar-se vantagem nacional; empresas deixam de ser apenas organizações econômicas para converter-se em ativos geopolíticos. Cada uma dessas transformações pode parecer plenamente justificável quando observada isoladamente. Mas, tomadas em conjunto, elas alteram profundamente a ecologia na qual democracias aprendem, inovam e decidem.
É justamente por isso que Peter Thiel, a Palantir ou mesmo o Vale do Silício devem ser menos objeto deste ensaio do que seus sintomas mais visíveis. O que eles revelam não é apenas a transformação de um ecossistema tecnológico, mas algo potencialmente mais profundo: uma mudança gradual na forma como as próprias democracias passaram a compreender aquilo que lhes permitiu prosperar durante boa parte das últimas décadas. Quando abertura passa a ser percebida prioritariamente como vulnerabilidade, quando pluralidade começa a ser confundida com fragilidade e quando confiança cede lugar à mobilização permanente, não estamos apenas diante de uma nova estratégia de desenvolvimento ou de segurança nacional. Estamos diante da possibilidade de uma mudança na própria imaginação democrática.
Talvez, então, a pergunta que deu origem a este ensaio admita uma resposta provisória. Democracias não deixam de confiar em si mesmas de uma única vez, nem por decisão explícita. Elas o fazem lentamente, à medida que passam a adotar, como naturais e inevitáveis, racionalidades que nasceram para responder a circunstâncias excepcionais. O risco não está em fortalecer capacidades nacionais, proteger infraestruturas críticas ou disputar liderança tecnológica. Está em esquecer que a maior força histórica das democracias talvez nunca tenha residido apenas em sua capacidade de competir, mas na extraordinária capacidade de permanecer abertas ao aprendizado, à circulação de ideias e à criação de novos futuros, mesmo em tempos de crescente incerteza. É justamente essa confiança — mais do que qualquer tecnologia ou estratégia — que talvez precisemos preservar.




