Alguns autoproclamados liberais estão embarcando na campanha Lula nesta reta final. O mínimo que um democrata liberal deveria fazer na disputa eleitoral em curso seria reconhecer que há uma polarização entre dois populismos, que ameaçam a democracia de modos diferentes (um, golpista, querendo destruir ou substituir as instituições e outro, hegemonista, querendo ocupá-las para colocá-las a serviço do seu partido) e que são, portanto, ambos, iliberais. Se não faz isso, não é realmente um democrata liberal e sim alguém que usa o álibi de "progressista" para atuar como linha auxiliar da esquerda iliberal (populista e, portanto, antipluralista e avessa à alternância democrática). Tais “liberais” se converteram nos principais e mais eficazes cabos eleitorais da campanha Lula, pois se dirigem aos 10% de moderados que podem definir a eleição.
Democratas devem explicar honestamente as possíveis consequências dos resultados das próximas eleições, se Flávio Bolsonaro for eleito ou se Lula for reeleito.
Se Flávio for eleito
Se o populista de direita Flávio Bolsonaro for eleito, o futuro é incerto. Teremos alta instabilidade pela frente e não se pode prever exatamente o que ocorrerá.
O lulopetismo, inconformado, tenderá a radicalizar seu discurso e sua prática de enfrentamento, apostando na instalação de uma situação pré-revolucionária ou, pelo menos, de paralisação e desestabilização do governo (a partir do STF num primeiro momento) e do sistema de instituições ou setores sociais que já hegemoniza (além do judiciário e do funcionalismo público, jornalistas e analistas, institutos de pesquisa de opinião e agências de checagem, universidades, juristas, sindicatos, centrais e associações profissionais, ONGs e movimento sociais, artistas e influencers famosos e partidos alinhados ao eixo autocrático).
O Brasil se alinhará aos EUA (e integrará o Escudo das Américas de Donald Trump) além de se aproximar da direita populista internacional (entre outros, Le Pen, Meloni e Salvini, Farage, Abascal, Ventura, Netanyahu e até a AfD) e transigirá com Putin.
Há um condicionante que aumenta a incerteza, porém. O bolsonarismo, mesmo que conquiste a presidência da República, não terá hegemonia nas instituições para implementar tais orientações. A direita não bolsonarista, a maioria do parlamento e o judiciário tendem a criar dificuldades para uma guinada do país à extrema-direita.
Se Lula for reeleito
Se o populista de esquerda Lula da Silva for reeleito, o futuro é mais certo. Teremos também alta instabilidade pela frente, mas se pode prever melhor o que ocorrerá.
Os bolsonaristas ficarão inconformados, mas sem muitas chances de se rearticular para interromper o processo de hegemonização das instituições e da sociedade a partir do Estado controlado pelo partido - processo este que se acelerará (mas talvez possam levantar algum obstáculo se conseguirem formar uma maioria no Congresso, em especial no senado).
O que é certo é que avançará o aparelhamento completo das instituições: PGR, PF, agências reguladoras e outros órgãos de controle, formando-se no próximo quadriênio uma maioria no STF que só poderá ser revertida na segunda metade do século.
Lula voltará a apostar na política dos campeões nacionais, e os oligarcas ao estilo russo (como Joesley da JBS e Esteves do BTG Pactual) darão as cartas.
O Brasil se aproximará ainda mais das maiores (e menores) ditaduras do planeta que compõem 80% do BRICS a pretexto de combater o imperalismo norte-americano e se afastará das democracias liberais (como as que estão na OCDE) em nome da defesa do multilateralismo (e contra o neocolonismo europeu) do chamado “Sul Global” (continuando a apoiar Rússia contra Ucrânia, China contra Taiwan e Irã contra Israel).
Qual é a saída democrática?
Não há escolha boa para os democratas liberais em 2026. Pensando já em 2030 ou em 2034, para sair da crise atual é necessário mergulhar ainda mais em regiões pouco iluminadas. A transição para a luz passa por um governo de políticos "normais", que defendam, sim, inevitavelmente, seus próprios interesses, um centro formado por uma maioria ainda fisiológica mesmo, mas não alinhado ao lulopetismo e nem ao bolsonarismo. Algo que lembre, mais ou menos, um governo Temer, capaz de negociar com o parlamento (restringindo-o às suas funções propriamente legislativas e acabando com a farra das emendas), servir de freio e contrapeso a um judiciário exorbitante (não autocontido em suas atribuições), seja reformista e não tenha qualquer interesse em abolir ou erodir o regime democrático (até porque vive dele), nem de colocar as instituições a serviço de facções golpistas ou hegemonistas.
Não adianta ficar procurando, para iniciar tal transição, um governo "puro", de centro democrático-liberal, porque ele dificilmente terá maioria no Congresso para enfrentar os populismos de esquerda e de direita; e aprovar as reformas necessárias: como, entre outras, a reforma política e eleitoral (com o voto distrital misto visando mais adiante o parlamentarismo), a reforma do judiciário (que o coloque novamente na casinha da democracia), a reforma administrativa (que enxugue o Estado e o obrigue a não gastar mais do que arrecada), a continuidade da reforma trabalhista e uma nova reforma da previdência (por razões óbvias).
Se conseguirmos passar por essa ponte sobre o abismo talvez cheguemos, no médio prazo (ou, mais provavelmente, no longo), a um governo democrático-liberal. Mas, para tanto, é necessário que exista uma massa crítica de agentes democráticos na sociedade (capaz de constituir uma nova força política que consiga ocupar o lugar de centro de gravidade da política). O que hoje ainda não há. Isso deixa mais claro qual a tarefa atual dos democratas. Multiplicar o número de agentes democráticos em todo lugar.
Para resumir. Nem AfD, nem Die Linke. Nem Trump, nem Mamdani. Nem Le Pen, nem Mélenchon. Nem Bolsonaro, nem Lula. Ah! Mas aí os democratas vão ficar em minoria. Ora, os democratas sempre fomos minoria. Quem precisa arrebanhar maiorias são os populistas (de direita ou de esquerda). Nosso papel é fermentar o processo de formação de uma opinião pública democrática, resistir às tiranias (sejam ditas de direita ou de esquerda) e multiplicar o número de agentes democráticos até alcançar a quantidade crítica que permita que isso possa ser feito.




Nós democratas ficamos com as escolhas do “impossível”. Seu artigo traz escolher o ruim atual ou arriscar o ruim novo com chance de uma possível melhora.