Começo a escrever este artigo a menos de 30 minutos para o início do primeiro turno das eleições de 2026 no Brasil. Ninguém sabe o que vai acontecer.
Se Lula for eleito ou passar com mais votos do que Flávio Bolsonaro para o segundo turno, ocorrerá o que muitos consideraram até agora o mais provável (com exceção de algumas pesquisas de intenção de voto de ontem). Flávio é um candidato ruim.
Se Flávio for eleito ou passar com mais votos do que Lula para o segundo turno, é sinal de que a desaprovação do atual governo e a rejeição do seu eterno candidato se avolumaram na boca da urna. No entanto, isso não será uma vitória que possa ser creditada às virtudes do principal candidato de oposição e sim ao chamado antipetismo de chegada. Como estamos dizendo há muito tempo, se Lula perder, não perderá para Flávio e sim para o antipetismo.
Os militantes petistas e os autodeclarados liberais que adotaram o álibi de “progressistas” para atuar como linha auxiliar do governo, do PT e da esquerda socialista em geral, assustam a população na reta final da campanha dizendo que a família Bolsonaro é golpista e de que, elegendo Flávio, estamos contratando um golpe de Estado mais adiante.
É uma falsificação. Não há clima de golpe, nem existe qualquer força política ou militar disposta a dar um golpe de Estado no Brasil. Assim como não havia bomba nenhuma no ponto de ônibus perto da sede do STF na noite de 1 de outubro de 2026. Assim como Trump não está intervindo nas eleições brasileiras. Assim como não há um navio de guerra americano na Baia da Guanabara. Assim como os EUA não vão deixar de reconhecer a eleição de Lula caso ele vença o pleito, se tudo transcorrer dentro da normalidade democrática e o STF não quiser cassar uma candidatura de oposição vencedora. Tudo isso é parte da orquestração para causar uma perturbação psicossocial capaz de diminiuir os riscos de uma possível derrota de Lula.
Flávio Bolsonaro, mesmo que quisesse, não teria força político-militar para dar um golpe de Estado. Jair Bolsonaro, que queria dar um golpe, não conseguiu consumá-lo justamente porque também lhe faltou tal força.
Os que agitam o espantalho do golpe dos Bolsonaro, apoiado pelo imperialismo yankee, escondem, vergonhosamente, o seguinte.
Existe o golpe de Estado (à moda antiga, com progonismo militar) e existe o "golpe em doses homeopáticas" (pela captura das instituições para colocá-las a serviço do projeto de poder de um partido hegemonista).
Examine a imagem abaixo e verá que só por um “milagre” (ainda que fatores extraordinários possam influir no processo, eles são raros) o PT sairá de bom grado do governo por via eleitoral (aliás, nunca saiu: tanto é assim que para removê-lo foi necessário um verdadeiro swarming civil em 2013, uma operação Lava Jato nos anos seguintes e um impeachment em 2016). Pode até sair, mas as chances de tentar um terceiro turno do STF-TSE são grandes. Se sair, sairá esperneando e colocando a culpa em Trump, em Vance, em Rúbio, em Milei, na Faria Lima, no Agro, nos cantores sertanejos e nos golpistas e fascistas de sempre - todos aqueles que ousaram não apoiar Lula. Uma eventual derrota de Lula cairá na militância lulopetista como uma continuação do 8 de janeiro; ou seja, será um golpe sob nova forma.
E mesmo que o PT saia do governo, não será removido do seu poder conquistado nas instituições do Estado e da sociedade (como as mencionadas como exemplos na imagem acima) no curto prazo (assim como não saiu após o impeachment de Dilma e a prisão de Lula e de seus principais dirigentes e do interregno dos governos Temer e Bolsonaro). O PT levou mais de 30 anos construindo tudo isso. Sua hegemonia não será desconstituída por um golpe de sorte eleitoral.
O PT está apenas dando continuidade à sua estratégia. E sua estratégia não é, nunca foi, dar golpe de Estado (à moda antiga) e sim conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido para se prorrogar no governo por tempo suficiente para alterar, “por dentro”, o DNA da democracia, trocando-a por cidadania ofertada para “o povo” pelo líder populista de esquerda e seu contigente partidariamente organizado.
Termino esse artigo 30 minutos depois das urnas terem sido abertas à votação. Ninguém sabe o que vai acontecer hoje. Mas já sabemos o que acontecerá depois do segundo turno (se houver). Sabemos que estas eleições não vão resolver os nossos problemas. A crise institucional se aprofundará. Seja qual for o eleito, prosseguirá a degeneração das instituições brasileiras e aumentarão os riscos de autocratização da nossa democracia.



