O Riso de De La Fuente
A dimensão permanente em um mundo de resultados
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (23/07/2026)
Ainda sob a atmosfera da Copa do Mundo, apresento o que imagino ser o último artigo desta temporada — embora, para perdão dos leitores, não possa garanti-lo, pois escrevo sobre os temas que me inquietam. O propósito deste espaço permanece o de envidar esforços para associar tais inquietações à linha editorial desta revista, compromisso ao qual pretendo ser fiel.
Reporto hoje uma fala emblemática do técnico da seleção espanhola, Luis de La Fuente. Em um fragmento de entrevista, ao ser questionado sobre o riso estampado em seu rosto e o que ele revelava sobre o futebol de sua equipe, sua resposta foi reveladora. Nela, o treinador ofereceu um depoimento que ouso associar a um tema abrangente da própria vida ou que, no mínimo, provoca uma reflexão necessária sobre o jogo, o poder e a política.
“Sim, pode-se perder também com felicidade, desde que se veja o resultado do trabalho fluir”, afirmou De La Fuente. Vejo nessa declaração um sentido profundo sobre o tempo das coisas. Enquanto a vitória ou a derrota são sinais de um tempo estritamente cronológico, onde o resultado final se grava como um marco em uma linha temporal, a fala do técnico indica uma presença que transcende o placar.
O ser político que se orienta apenas por esse tempo cronológico — o tempo do “vencer ou perder” — deixa de aprender com o mundo. A derrota, tal como o luto, emula um sentido de aprendizado fundamental; ela revela uma dimensão oculta de nosso ser que, de outra maneira, permaneceria invisível. Refiro-me aqui a uma dimensão quase trágica, na qual a vitória frequentemente exclui o derrotado. No entanto, entendo que existem outras formas de vivenciar o “jogo”. Mesmo na política, poderíamos adotar modelos de escolha que implicassem menos “preto no branco” ou o binarismo estrito de vitoriosos contra derrotados.
No realismo pragmático da Copa do Mundo e das eleições, vigora a lógica do “vencedor leva tudo”. Contudo, sob a superfície da competição fria e do resultado épico, a dimensão humana persiste no riso de satisfação do técnico espanhol, ou escapa na postura de fechamento dos argentinos que viraram as costas à premiação dos vencedores.
Saber lidar com a vida e com a finitude pode render frutos imensuráveis que a vitória, por si só, não alcança. O apego excessivo ao resultado encobre a dificuldade do aprendizado. Um líder que não admite outro desfecho que não o triunfo perde um pedaço de sua própria humanidade. Embora forçá-lo a aceitar a derrota possa, eventualmente, restabelecer nele esse componente humano, não deveria ser necessário chegar a tal extremo.
A democracia talvez devesse ser esse espaço onde o gozo da vitória não diminui o prazer do jogo em si. Esse paralelo com o futebol deve servir de reflexão aos agentes políticos que se arvoram a estar acima das regras. Assim como o futebol sobrevive aos seus heróis, a política precisa sobreviver àqueles que só demonstram interesse pelo jogo enquanto estão ganhando.



